quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

MASTER PAUTA ARTICULAÇÕES ENTRE PODERES NO RECESSO

Fernando Exman, Valor Econômico

Às vésperas do fim do recesso, o Senado, a quem cabe em última instância julgar a conduta dos ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) e da cúpula do Banco Central (BC) em caso de pedidos de impeachment ou exoneração, prepara-se para entrar no caso Master. Quer tomar parte nas investigações. E como fez no ano passado ao dar um empurrão para o BC limitar as chamadas contas-bolsão que dificultavam a identificação de movimentações financeiras realizadas por facções criminosas, pretende contribuir no aprimoramento da regulação dos fundos exclusivos de investimento.

Neste momento, na cúpula do Senado não se fala de um eventual impeachment do ministro Dias Toffoli, que tem mantido a relatoria dos processos envolvendo o Banco Master no Supremo, a despeito de críticas e questionamentos sobre as ligações de sua família no caso. Nem de outros ministros do STF.

A intenção de senadores da base é aguardar eventuais desdobramentos do caso e, enquanto isso, estender a mão a Toffoli. Recentemente, por exemplo, foi enviada mensagem ao ministro dizendo que ele teria apoio na Casa, desde que, sem a necessidade de ser provocado pela Procuradoria-Geral da República (PGR) e pela Polícia Federal (PF), saísse da defensiva e assumisse a postura esperada de um ministro do Supremo. Ter o apoio dos próprios pares seria um primeiro passo.

Tais parlamentares não ficaram surpresos, portanto, quando foi divulgada na semana passada uma extensa nota oficial pelo presidente do Supremo, Edson Fachin. Articulado também por outros integrantes da Corte, o comunicado deu apoio à atuação do ministro Dias Toffoli - ainda que com a sinalização de revisão de eventuais “vícios ou irregularidades” pelo colegiado nos termos regimentais e processuais.

No governo federal, aliás, existe a convicção de que Toffoli tem colocado os demais colegas em uma situação delicada. Mas, pondera-se, a sua ruína poderia abrir caminho para outros processos de impeachment contra ministros do Supremo. É uma porteira que muitos temem ver aberta, sobretudo em ano eleitoral.

Para esses interlocutores no Executivo, portanto, uma barreira de contenção poderia ser justificável neste momento. Além disso, existe uma avaliação de que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva deveria manter distância do caso: foi só ele criticar publicamente o dono do Banco Master, Daniel Vorcaro, que já surgiu a informação de que recebera o banqueiro em dezembro de 2024.

Ou seja, se o assunto é tóxico, a estratégia do PT será relacionar o escândalo a brechas no sistema que não foram devidamente vedadas durante a gestão anterior do BC, afastando-o tanto do Palácio do Planalto quanto da atual administração do Banco Central. Mas ainda há dúvidas se o próprio presidente Lula não se arriscará novamente nesse polêmico terreno, sob a justificativa de que atacar Vorcaro faria sentido em uma estratégia de roubar a bandeira “antissistema” da extrema direita.

Com este pano de fundo, articula-se a ida ao Senado do presidente do BC, Gabriel Galípolo.

É bem possível que na ocasião surjam questionamentos se a autoridade monetária poderia ter sido mais rápida ao decidir se liquidava ou não o Banco Master. Em sua defesa, contudo, haverá quem diga que está provado que esse tipo de processo precisa ser feito com toda diligência possível, pois há exemplos recentes de outras liquidações que foram parar na Justiça e, além de gerar constrangimentos ao BC, podem produzir prejuízos bilionários ao Fundo Garantidor de Crédito (FGC).

A intenção é que Galípolo apresente sugestões ao Senado do que os parlamentares poderiam aprovar para, por exemplo, fortalecer o BC, órgãos reguladores e de fiscalização. A palavra de ordem é aumentar a regulamentação de fundos de cota única. Segundo a Receita Federal, por exemplo, muitos desses fundos são utilizados pelo crime organizado como estruturas para ocultação de patrimônio.

Existe, por fim, a frente investigativa. Há discussões sobre a criação de uma comissão parlamentar de inquérito para investigar as supostas fraudes cometidas pelo Master e os tentáculos do banco entre os poderosos, assim como a disposição de envolver a CPI do Crime Organizado nesta missão. A Comissão de Assuntos Econômicos do Senado (CAE), presidida por Renan Calheiros (MDB-AL), também criou um grupo de trabalho para acompanhar o assunto.

Mas um outro plano em gestação pode alterar a correlação de forças nessa seara: reunir sob a presidência de Renan Calheiros os comandos da CAE e da Comissão Mista de Controle das Atividades de Inteligência (CCAI), cuja chefia é alternada entre as duas Casas do Congresso a cada ano e em 2026 retorna para a área de influência do Senado.

Este colegiado pode, por exemplo, requisitar relatórios sigilosos da Polícia Federal (PF), Receita Federal e do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf). A ideia é do líder do MDB no Senado, Eduardo Braga (AM), e será colocada em discussão com o presidente Davi Alcolumbre (União-AP) quando o ano legislativo finalmente começar.

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SUPERVISÃO DOS MERCADOS ESTÁ DEFASADA

Lu Aiko Otta, Valor Econômico

Para equipe econômica, Há um número crescente de lacunas, onde fermentam escândalos como Master e Americanas

A partir deste mês, a Receita Federal será informada por administradoras de fundos de investimentos sobre os CPFs de seus cotistas. Ou seja, saberá quem são as pessoas físicas donas do dinheiro. Hoje não sabe, porque um fundo pode ter como cotista outro fundo, formando uma teia que dificulta identificar a origem do dinheiro.

As informações estarão numa declaração chamada Formulário Digital de Beneficiários Finais (e-BEF). Segundo a Receita, os objetivos desse documento são: “dificultar o uso do sistema financeiro por organizações criminosas”, “aumentar a transparência nas relações econômicas e financeiras”, “reforçar o combate à lavagem de dinheiro, à corrupção e à sonegação de impostos”.

O órgão diz também que com as novas informações alinhará o Brasil às recomendações internacionais do Grupo de Ação Financeira Internacional (Gafi) e da Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE), além de facilitar a análise de riscos e a fiscalização pela própria Receita.

A medida não atinge só os fundos de investimento. Mas esses estão no centro das preocupações da equipe econômica.

Como mostrou este jornal, fundos administrados pela distribuidora de títulos e valores mobiliários Reag estão sob investigação por suspeita de movimentarem recursos do crime organizado, como apontou a operação Carbono Oculto. Num outro recorte mostrado no Valor, um fundo administrado por ela injetou dinheiro em outro fundo, que por sua vez comprou ações do BRB, quando esse negociava a compra do Master, ou parte dele. Por fim, o Banco Central liquidou a CBSF, novo nome da Reag, por irregularidades associadas ao banco Master.

Parece que, nesses casos, os fundos se moveram por brechas que não foram alcançadas pela supervisão governamental. A Receita, com a e-BEF, lança uma lupa sobre um aspecto, que é a origem dos recursos.

Por sua vez, o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, defendeu publicamente que os fundos passem a ser supervisionados pelo Banco Central, e não mais pela Comissão de Valores Mobiliários (CVM). A fala ocorreu dias depois de o presidente Luiz Inácio Lula da Silva indicar Otto Lobo para a presidência da autarquia, uma decisão que contrariou a opinião da Fazenda.

É polêmica a mudança defendida pelo ministro. Mas é difícil discutir a necessidade de aperfeiçoar a vigilância sobre os fundos.

O modelo regulatório dos mercados financeiro e de capital está defasado, na visão da equipe econômica. Há um número crescente de lacunas, onde fermentam escândalos como Master e Americanas.

A Fazenda elaborou uma proposta de modernização inspirada num modelo chamado “twin peaks”, utilizado no Reino Unido. Os mercados financeiro, de capitais e de seguros, hoje sob o olhar do Banco Central, da CVM e da Superintendência de Seguros Privados (Susep), passariam a ser tratados de duas formas: um órgão trataria da regulação e outro, da supervisão de conduta. Esse segundo “pico”, em tese, impediria o avanço de irregularidades que resultaram nos casos Americanas e Master.

A proposta nem foi enviada ao Congresso Nacional. Travou no governo, misturada com o debate sobre autonomia do Banco Central.

Um arcabouço regulatório desatualizado, porém, pode agravar problemas. Um risco que está no radar da Fazenda é o de fundos de investimento passarem a exercer funções “quase bancárias” sem estar sob a supervisão do Banco Central. Seria um risco à regulação prudencial.

Esse debate não avançou, assim como outras propostas legislativas que ajudariam na prevenção e combate aos crimes no sistema financeiro. Caso da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) da Segurança, que tem como ponto central a atuação conjunta de órgãos de segurança. Chegou ao Congresso em abril de 2025 e recebeu parecer em dezembro.

Desde 2019, tramita na Câmara um projeto de lei que moderniza os instrumentos de resolução bancária. Permite, por exemplo, que instituições problemáticas sem impacto no sistema financeiro sejam retiradas do mercado de forma mais rápida do que ocorre hoje.

São debates que avançam com muita dificuldade. Uma vitória do governo nessa frente, a tipificação do devedor contumaz - que servirá para conter a legalização de recursos por meio de empresas formais que não pagam impostos - é exemplo dessa dificuldade. Só foi votado no Senado, depois de oito anos de espera, na esteira da Carbono Oculto. Remetido à Câmara, dormitou mais três meses até ser votado sob impacto de outra operação, a Poço de Lobato.

O que compõe essa resistência é algo ainda a ser revelado. A disputa entre o governo federal e o de São Paulo pela paternidade pela Carbono Oculto aponta para a disputa eleitoral. Já a demora na votação do projeto do devedor contumaz era atribuída, nos bastidores, à infiltração de interesses do crime organizado no Parlamento.

No vetor oposto, existem as investigações de operações como Carbono Oculto, Poço de Lobato e Compliance Zero. Estão só no início. Como essas engrenagens vão se mover é algo a se observar com atenção.

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terça-feira, 27 de janeiro de 2026

DO BREGA AO CLÁSSICO

Irlam Rocha Lima, Correio Braziliense

O filme O agente secreto, de Kleber Mendonça Filho, tem a trama embalada por uma diversificada trilha sonora

As conquistas de O agente secreto, dirigido por Kleber Mendonça Filho, em diversas mostras de cinema ao redor do mundo, como o tradicional Festival de Cannes, na França, e, claro, o prestigioso Globo de Ouro, nos Estados Unidos, têm a trama embalada por uma diversificada trilha sonora.

No decorrer do filme, ouve-se desde If you leave me now, clássico da banda norte-americana Chicago, a Eu não sou cachorro não, sucesso brega do saudoso cantor e compositor baiano Waldick Soriano, que abre o repertório.

São canções que, de alguma forma, ajudaram a narrativa da película, concorrente ao Oscar nas categorias Melhor filme, Melhor filme internacional, Melhor seleção de elenco e Melhor ator — o protagonista Wagner Moura.

Boa parte da trilha é original, composta e tocada pelos irmãos recifenses Matheus e Tomaz Alves de Souza. De acordo com Kleber, O agente secreto é um filme sobre a memória, a falta dela. Ele deixou claro, em entrevista recente, que a intenção era ter uma trilha sonora que ajudasse a criar "expectativas magníficas" ao mostrar o passado através de um filme contemporâneo.

Não por acaso, incluiu no set list, por exemplo, Não há mais tempo, na interpretação de Ângela Maria, eterna rainha do rádio; Samba do Arpege (Waldir Calmon e Luiz Bandeira); Love to love, com Donna Summer; e o clássico Guerra e pace, do italiano Ennio Morricone. A elas se juntam, entre outras, Esquenta mulher (Orquestra Maestro Nelson Ferreira) e Briga de cachorro com a onça (Banda de Pífanos de Caruaru).

Kleber Mendonça, produtor, roteirista e programador, desenvolve uma carreira marcada por elogios da crítica sobre filmes marcados pelas tensões sociais urbanas e históricas do Brasil, com foco, particularmente, em Recife, sua cidade natal.

Som ao redor foi o primeiro longa-metragem de ficção autoral de Mendonça, lançado em 2012. Aquarius, o segundo, estrelado por Sônia Braga, competiu pela Palma de Ouro, representando o Brasil no Festival de Cannes de 2016.

Na sequência veio Bacurau, codirigido por Juliano Dornelles, filme dos gêneros dama, neo-western, terror, fantasia e ficção. Curiosamente, o título da obra tem a ver com o apelido do último ônibus da madrugada, que trafega pelas ruas da capital pernambucana.

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CÚPULA DO STF CONTRA O POVO

Artigo de Fernando Gabeira

Pensei em escrever um artigo sobre o discurso do primeiro-ministro do Canadá em Davos. Mark Carney acha que vivemos um momento de ruptura, e não de transição. A ordem internacional, que já não era grande coisa, se rompeu para dar lugar claramente à lei do mais forte. Nesse contexto, é preciso se preparar, pois quem não estiver na mesa estará no menu. Tema importante para o Brasil, mas posso voltar a ele, algumas vezes, antes das eleições.

Neste momento, tenho de escrever sobre o escândalo do Banco Master. Não esperava, a esta altura da vida, aos 40 minutos do segundo tempo, encontrar nosso país nesta condição patética. A nota do ministro Edson Fachin, as manifestações do procurador-geral e o post de Gilmar Mendes confirmam a ideia de uma cúpula judiciária unida para se blindar. Usando a máscara de salvadores da democracia, querem impor uma situação marcada, como diz um jornal alemão, pela ganância que afunda o STF.

No fundo, consideram ameaça à democracia questionar o contrato milionário de Viviane Barci de Moraes, mulher de Alexandre de Moraes, com o Banco Master. Ou criticar o inacreditável ministro Dias Toffoli por artificialmente levar o processo do Master para o Supremo e sentar em cima dele com uma decisão de sigilo rigoroso.

Logo Toffoli, que vendeu parte de seu resort para a empresa ligada ao cunhado do dono do Master. Logo Toffoli, que anulou uma multa de R$ 10 bilhões da J&F e recebeu em seu resort um advogado da empresa como sócio no mesmo resort. A imprensa diz que o resort é da família do Toffoli. A esta altura, não escrevo sobre formalidade. Os donos são um irmão que é padre, outro que vive numa casa modesta, e sua própria mulher desconhece a empresa dona do resort.

Pessoalmente, a convite do deputado Capitão Augusto, conheci o projeto da região, Angra Doce, e naveguei na Represa Chavantes. Ouvi algumas pessoas mencionando o resort de Toffoli. Nos últimos dias, apareceu um vídeo onde o ministro lá recebe um banqueiro e um empresario. Jornalistas que se hospedaram no resort de Toffoli encontraram um pequeno cassino em seu interior.

Apoiar toda essa degradação é defender a democracia? O Senado poderia fazer algo. Mas não faz por medo. Alguns senadores têm questões no STF, outros temem a possibilidade de ter. Os mais à esquerda estão presos à miopia da corrente política. Acham que, apesar de tudo, os ministros são importantes para conter o adversário.

Não percebem que um Supremo corrompido pela ganância é exatamente o combustível que impulsiona seus adversários? Não percebem que esse estado patético das instituições fortalece o apoio popular a quem pode destruí-las?Não percebem que a juventude está encontrando uma causa para sua rebeldia? Fazemos leitura diferente da História, não só no Brasil, mas em outros lugares do mundo. Consideram que tudo isso é secundário porque Lula é imbatível nas eleições. É provável que estejam certos nesse cálculo. Mas que tipo de país o vencedor herdará?

O deputado Nikolas Ferreira iniciou solitariamente uma marcha e chegou a Brasília com milhares de pessoas, grande parte jovens como ele. Gritavam: “Acorda, Brasil”. Nesse nível de abstração, é algo que deveria valer para todos.

Artigo publicado no jornal O Globo em 27 / 01 / 2026

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segunda-feira, 26 de janeiro de 2026

SIGNOS SEM SIGNIFICADOS

Ruy Castro, Folha de S. Paulo

Os analfabetos veem um texto como uma sequência de símbolos cuja ordem não lhes diz nada

O momento em que se aprende a ler talvez seja, mais que um segundo parto, o real ingresso no mundo

Alguém me falou de um anúncio institucional que a Unesco publicou há tempos para uma campanha pela alfabetização. Consistia de uma frase escrita de trás para a frente —ideia talvez tirada de "Alice Através do Espelho" (1871), o livro de Lewis Carroll em que, por estar "do lado de lá" do espelho, Alice vê tudo ao contrário, inclusive um poema num livro sobre a mesa. É como um analfabeto vê um texto —uma sequência de símbolos cuja ordem não lhe quer dizer nada. Alice resolve o problema botando o poema diante de um espelho. O mundo, no entanto, exige mais: a alfabetização em massa.

No Brasil, 5,2% da população ainda continuam analfabetos. Parece pouco, mas são mais de 10 milhões de pessoas, o equivalente à população de São Paulo. Some a isto os 29%, entre 15 e 64 anos, que são analfabetos funcionais (leem, mas não entendem uma notícia de jornal ou uma bula de remédio), e veja como o Brasil continua longe do século 21. Por sorte, alguns desses analfabetos sabem de sua condição e não querem que se estenda a seus filhos.

Três pessoas que prestam serviços ao meu redor, incapazes de ler ou escrever, são inspiradores exemplos. Uma manicure fez de seus três filhos um advogado, uma psicóloga e uma assistente social. Um porteiro, homem humilde e boníssimo, fez da filha engenheira, e chorou de comoção na cerimônia de formatura dela. E um encanador, que não sabe dizer a chave do seu Pix (mostra um papelzinho com o número), também formou a filha em direito. Dois desses jovens se beneficiaram de bolsas integrais da PUC.

Como pessoas que não sabem ler conseguem viver numa grande cidade, com sua desordem de cartazes, placas, luminosos, indicações, itinerários e manchetes? É um mundo de signos ocos, para elas sem significado. Que códigos não terão de criar para saber qual ônibus tomar? Como lidar com dinheiro ou cartão? Como receber uma mensagem por celular?

Sempre achei que o momento em que se aprende a ler representa mais que um segundo parto. Talvez seja o verdadeiro ingresso no mundo.

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domingo, 25 de janeiro de 2026

PARABÉNS, SÃO PAULO !

O lampião de gás de Inezita Barroso não existe mais, porém, a dura poesia concreta ainda acontece na Ipiranga com a São João, como viu Caetano Veloso.

Seja nos versos da Saudosa Maloca ou no Trem das Onze de Adoniran Barbosa, São Paulo ainda é a Pauliceia Desvairada de Mário de Andrade, a terra das oportunidades, da garoa que acolhe tudo e todos.

Nessa cidade que tem dimensão de um país, não é mais possível subir na Rua Augusta à 120 por hora, mas ainda é possível fazer uma Ronda pela cidade como disse Paulo Vanzolini.

À todos os Operários de Tarsila do Amaral que contribuíram e continuam dando o melhor de si para a construção dessa cidade dia a dia, desejamos mais sucesso e progresso. Parabéns, São Paulo, 472 anos!

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VARRE, VARRE, VASSOURINHA...

O aniversariante do dia é Jânio da Silva Quadros que nasceu em Campo Grande, 25 de janeiro de 1917. Jânio faleceu em São Paulo, 16 de fevereiro de 1992.  Internado com grave crise respiratória e circulatória, o ex-presidente ficou 13 dias no Hospital Albert Einstein. O corpo de Jânio foi velado na Assembleia Legislativa de São Paulo.

Jânio Quadros, foi presidente da República do Brasil por apenas sete meses em 1961, governador do Estado de São Paulo e duas vezes prefeito da capital paulista, era um político populista com forte estilo pessoal.

Jânio costumava aparecer em público com os sapatos trocados. Nos palanques das campanhas eleitorais levava uma vassoura, com a qual iria "varrer" a corrupção do país. Esse símbolo o acompanhou durante toda sua carreira política.

Entre os discursos de campanha, comia sanduíches de mortadela e pão com banana, numa tentativa de identificar sua imagem com o eleitorado mais pobre.

Jânio procurou sempre se diferenciar dos outros políticos. Vestia roupas surradas, usava cabelos compridos, deixava a barba por fazer, os ombros cheios de caspa e exibia caretas ao fotógrafos.

Sua sintaxe era um caso à parte. Em seus discursos, procurou sempre utilizar um vocabulário apurado, recheado por frases de efeito. É um enigma saber como conseguia se comunicar de forma eficiente com seus eleitores, a maioria sem instrução escolar.

Chefe do Executivo, fosse municipal, estadual ou federal, o autoritarismo e o carisma foram seus traços característicos. Seus bilhetinhos, com ordens a subordinados, se tornaram célebres.

Jânio chegou à presidência da República de forma muito veloz. Em São Paulo, exerceu sucessivamente os cargos de vereador, deputado, prefeito da capital e governador do estado.

Tinha um estilo político exibicionista, dramático e demagógico. Conquistou grande parte do eleitorado prometendo combater a corrupção e usando uma expressão por ele criada : varrer toda a sujeira da administração pública. Por isso o seu símbolo de campanha era uma vassoura.

Foi eleito presidente em 3 de outubro de 1960, pela coligação PTN-PDC-UDN-PR-PL, para o mandato de 1961 a 1965, com 5,6 milhões de votos - a maior votação até então obtida no Brasil - vencendo o marechal Henrique Lott de forma arrasadora, por mais de dois milhões de votos.

Porém não conseguiu eleger o candidato a vice-presidente de sua chapa, Milton Campos (naquela época votava-se separadamente para presidente e vice). Quem se elegeu para vice-presidente foi João Goulart, do Partido Trabalhista Brasileiro. Os eleitos formaram a chapa conhecida como chapa Jan-Jan.

No dia 21 de agosto de 1961 Jânio Quadros assinou uma resolução que anulava as autorizações ilegais outorgadas a favor da empresa Hanna e restituía as jazidas de ferro de Minas Gerais à reserva nacional. Quatro dias depois, os ministros militares pressionaram a Quadros a renunciar: “Forças terríveis se levantaram contra mim…”, dizia o texto da renuncia.

No ano seguinte à renúncia Jânio foi candidato a governador de São Paulo sendo derrotado por seu velho desafeto Ademar de Barros. Com a eclosão do Regime Militar de 1964 foi um dos três ex-presidentes a ter seus direitos políticos cassados ao lado de João Goulart e Juscelino Kubitschek.

Após fazer declarações à imprensa em Recife, Rio de Janeiro e São Paulo, em julho de 1968, o ex-presidente foi detido pelo Exército Brasileiro, por ordem do então Ministro da Justiça, Luís Antônio da Gama e Silva.

Recuperou os direitos políticos em 1974, mas manteve-se afastado das urnas inclusive nas eleições legislativas de 1978, ano em que seus simpatizantes (agrupados sob o denominado "Movimento Popular Jânio Quadros") o levaram a visitar o bairro paulistano de Vila Maria, tradicional reduto "janista".

Em novembro do ano seguinte manifestou a intenção de concorrer à sucessão de Paulo Maluf ao governo do estado de São Paulo filiando-se ao Partido Trabalhista Brasileiro (agora uma agremiação conservadora de direita, tendo pouca relação com a antiga legenda de Getúlio e Jango) tão logo foi efetivada a reforma partidária.

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sábado, 24 de janeiro de 2026

TRUMP E A ESTRATÉGIA DO HOMEM LOUCO

Hélio Schwartsman, Folha de S. Paulo

Presidente adota comportamento errático para tornar eventuais blefes mais críveis

Cientistas políticos são céticos em relação à eficácia dessa tática em relações internacionais

Com suas investidas e recuos, Donald Trump se consagra como usuário da estratégia do homem louco na teoria dos jogos.

Mesmo que o Agente Laranja não esteja muito familiarizado com Von Neumann e Morgenstern nem com os formuladores contemporâneos desse ramo da matemática aplicada, ele já jogou pôquer e é razoavelmente parecido. A ideia por trás dessa estratégia é que, se você de vez em quando se comportar como louco nas interações com outros "players", mais fácil será fazer com que seus blefes sejam aceitos. Você conseguirá arrancar mais concessões com menos esforço.

Mas será que essa estratégia funciona? Cientistas políticos tendem a ser céticos quanto à sua eficácia nas relações internacionais. Ela seria até meio perigosa, ampliando o risco de escaladas. A lista de líderes ilustres que a utilizaram inclui Richard Nixon, Nikita Kruschev, Saddam Hussein, Muammar Gaddafi, além de Trump, Putin e Kim Jong-un.

Ainda é cedo para falar dos três últimos, mas os anteriores não terminaram bem. A atitude errática não ampliou consideravelmente seu poder de dissuasão, e a mensagem que julgavam transmitir nem sempre era a captada pelos oponentes.

Meu filho, que é fã de teoria dos jogos expressa em longas equações, diz que, se analisada em contextos mais específicos, nos quais o objetivo do governante esteja claramente definido, a estratégia pode valer a pena. E o problema de Trump e de outros líderes de potências é que eles operam com vários objetivos ao mesmo tempo. Há a geopolítica, a disputa por território, acesso a matérias-primas, relações comerciais etc. Há ainda a questão dos prazos (quatro anos ou quatro décadas) e de quanto os interesses do dirigente se aproximam ou se afastam dos do país.

A minha impressão é que Trump, a fim de enaltecer a própria biografia, sacrifica os interesses mais permanentes dos EUA. Ele já afastou aliados, destruiu a ordem global sob a qual o país prosperou, reduziu a capacidade das universidades de atrair cientistas, entre outras loucuras.

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UM PAÍS À MARGEM DA LEI

Oscar Vilhena Vieira, Folha de S. Paulo

Brasil parece incapaz de abraçar um código de conduta

Que Eunices e Sebastianas nos deem forças para buscarmos uma nação melhor

"O Agente Secreto" e "Ainda Estou Aqui" expressam a força do cinema brasileiro. E isso merece muita, mas muita comemoração. Ambos os filmes retratam, no entanto, um país à margem da lei, como "Cidade de Deus" ou "Cabra Marcado para Morrer", também aclamados internacionalmente.

"Ainda Estou Aqui" retrata o arbítrio como política de Estado. A tortura, os desaparecimentos forçados e a perseguição de dissidentes foram transformadas em instrumentos de manutenção de poder. A Constituição foi suspensa por sucessivos atos institucionais, que transferiram o poder aos militares, restringiram direitos e retiraram as ações repressivas do controle judicial. Instituições foram criadas ou receberam expressa determinação para torturar e matar.

A partir da história real de Rubens Paiva, "Ainda Estou Aqui" descreve a face mais macabra do regime de exceção. Mas nos brinda, por outro lado, com a força moral dos que sobreviveram e resistiram. A família de Eunice nos comove, com sua coragem e disposição para buscar justiça e construir um país melhor.

"O Agente Secreto", que também se passa durante o regime militar, retrata uma outra dimensão do estado de exceção, que se enraíza no tecido social. Desde a primeira cena somos expostos à banalidade da vida. O corpo no chão não gera nenhuma reação do agente do Estado ou do cidadão. Como se a morte de uma pessoa não trouxesse nenhuma consequência moral ou jurídica. Numa terra sem lei, só os cachorros parecem se interessar por aquele corpo.

A trama nos transporta para a perseguição de um professor e sua família pelo simples fato de estarem determinados a levar suas vidas de forma honesta, não se curvando à ambição empresarial, entrelaçada e protegida pelo regime. Novamente somos expostos às entranhas, não mais do regime, mas dos matadores de aluguel que coabitam a marginalidade com os agentes da lei e os empreendedores de então. Em "O Agente Secreto" os perseguidos não são dissidentes políticos, mas pessoas comuns, que têm suas vidas reviradas simplesmente por agirem com retidão. Mais uma vez, o sopro de esperança e humanidade vem dos que resistem; de Dona Sebastiana, Armando e Flávia.

Impossível assistir a esses filmes sem pensar num Brasil que parece incapaz de superar um profundo mal-entendido com a lei. Mal-entendido que transcende os períodos autoritários. Que se encontra enraizado nas relações cotidianas e no modo como são operadas nossas instituições, por meio do "familismo", exposto por Oliveira Vianna, da perversa "cordialidade", descrita por Sérgio Buarque de Hollanda, do "patrimonialismo", de Raymundo Faoro, do "você sabe com quem está falando?", de Roberto da Matta, ou da "grande conciliação", de Michel Debrun. São espectros que não nos abandonam, escancarando uma indisposição de acatar a lei como regra geral.

É paradoxal que num país em que a imensa maioria da população acorda cedo para trabalhar e cumprir suas obrigações sobreviva uma cultura tão forte e arraigada de descumprimento da lei e desrespeito aos direitos mais elementares.

Da cornucópia do Banco Master, com seus tentáculos sobre a Faria Lima e os Poderes do Estado, incluindo a cúpula de tribunais, à explosão de feminicídios; da chacina comandada pelo governo do Rio de Janeiro, com amplo apoio popular, à tentativa de golpe do 8 de Janeiro, sob o comando do ex-presidente e seus generais; o país parece incapaz de respeitar da lei e suas autoridades, de abraçar um código de conduta.

Que as Eunices e Sebastianas nos deem forças para continuar lutando por justiça e por um país melhor.

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ADEUS, MARÍA CORINA

Eduardo Affonso, O Globo

A mais recente aquisição para a minha lista de desencantos é a brava oposicionista venezuelana

Se arrependimento matasse, o planeta não estaria com problema de superpopulação. “Non, je ne regrette rien” talvez valha para Édith Piaf como forma de levantar, sacudir a poeira e dar a volta por cima, sem reconhecer que errou rude nas coisas do coração. Nas questões ideológicas, atire o primeiro termo de ajustamento de conduta quem nunca teve de enfiar a viola no saco e se perguntar onde é que estava com a cabeça quando curtiu, gostou, apoiou ou ajudou a eleger uns e outros.

Há aqueles que nunca enganaram ninguém: Trump, Toffoli, Roberto Jefferson, Edir Macedo, Pablo Marçal, Paulo Maluf, Silas Malafaia. E nem precisa ser lombrosiano: o olhar cúpido, a mitomania, a fala melíflua, a egolatria, o cabelo gomalinado — há sempre algo que levanta a bandeirinha vermelha e avisa: perigo se aproxima.

Acreditei em Lula, quando, em 2003, ele contou:

— Depois que ganhei a eleição, uma televisão fez uma matéria em que aparecia um catador no Rio de Janeiro comendo um pedaço de melancia do lixo. Ele dizia: “Talvez esse seja o último pedaço de melancia do lixo que vou comer, porque o Lula, eleito presidente, vai ajudar a resolver esse problema”.

Lula chorou, e eu lacrimejei junto, feliz em ver um operário na Presidência — alguém que, tendo passado por tantas privações, faria da erradicação da miséria uma das prioridades de seu governo. Em vez disso, vieram o mensalão, o petrolão, o triplex, os pedalinhos, os aloprados.

Bolsonaro não tinha uma única boa referência, mas não era possível que fosse tão estúpido a ponto de... Pois ele foi. E foi com gosto. Às vésperas da eleição de 2018, mandei-lhe por aqui uma carta aberta:

— Conservadorismo não significa atraso, intolerância. (...) Desarme o espírito, aposente os gestos bélicos e contará também com os que não votam em você, mas cultivam essa estranha mania de ter fé no Brasil.

A fé dele era na cloroquina, no poder e na própria família. Errou tanto, e numa escala tão monumental, que o país, entre perder ou deixar de ganhar, deu outra chance ao PT.

Encurtando a história, sou bom em esperanças vãs. Como as que acalentei por Sergio Moro (e combinar camisa preta com gravata preta era um sinal tão claro...). Por Cármen Lúcia (foi do “cala a boca já morreu” à “situação excepcionalíssima” sem corar — e eu achando que ela seria daquelas de negar, quando é fácil ceder). Me encantei com Jordan Peterson e sua crítica ao autoritarismo da esquerda, aos excessos do politicamente correto — hoje olho e vejo um narcisista, igualmente autoritário.

A mais recente aquisição para minha lista de desencantos é a brava oposicionista venezuelana María Corina Machado. A bravura virou sabujice; a oposição, entreguismo; o amor à pátria, à liberdade e à democracia, algo que ainda carece de nome (nunca se tinha chegado tão baixo a ponto de precisar palavra para isso no dicionário).

Lá em casa, quando alguma coisa não tinha volta, minha mãe dizia “Adeus, Corina” —menção a um forró dos anos 60 (“Adeus, Corina, que eu vou embora/Quem parte leva saudade/e quem fica também chora”). Há os que pegam o bonde errado e vão até o ponto final (estão aí, até hoje, os stalinistas, os fascistas...). Eu digo adeus, Corina, Luiz, Jair, Jordan, Sergio, Cármen — e desço no próximo ponto.

Ainda bem que não sou influêncer de nada e não arrastei ninguém comigo nos meus enganos. Mas perdão foi feito pra gente pedir. Nem que seja só a nós mesmos.

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A DESONRA DE TOFFOLI

Thaís Oyama, O Globo

Se Toffoli resolver jantar num restaurante, arrisca ouvir adjetivos bem menos jurídicos que no passado

Dias Toffoli foi passar uns dias de descanso num resort de luxo na Argentina. Dado que as últimas notícias sobre o ministro do STF envolvem justamente um resort de luxo no Brasil, onde ele desfruta confortos de toda espécie, a escolha do magistrado pode ter sido motivada por duas razões: 1) ele gosta muito de resorts e se interessa também por conhecer estabelecimentos do gênero mundo afora; 2) ele buscou um refúgio fora do país para se proteger da vista de seus conterrâneos, dado que seu nome aparece no noticiário dia sim e outro também, cada vez sob luz pior.

O impulso da fuga seria compreensível. Diversos ministros do STF foram publicamente hostilizados ou passaram por constrangimentos nos momentos em que seus nomes estiveram em evidência. Gilmar Mendes, Alexandre de Moraes e Cármen Lúcia foram alguns. O muro da casa de Cármen chegou a ser pichado, e Moraes foi ofendido num aeroporto de Roma aos gritos de “comunista” e “fraudador de eleições”. Mas em todos esses lamentáveis episódios, os agressores, ainda que de forma incivilizada, eram movidos pela crítica a posturas jurídicas dos magistrados — que eles, bem ou mal, podiam sustentar de cabeça erguida.

Hoje, no entanto, o STF tem dois ministros cujos nomes, incluindo Moraes, estão ligados a um dos maiores escândalos recentes — de natureza financeira. A Folha de S.Paulo já havia mostrado que dois irmãos de Toffoli constaram como sócios de um fundo de investimentos ligado ao Master no resort que ele frequenta — de modo tão assíduo a ponto de ser identificado por funcionários como o próprio dono do estabelecimento. Nesta semana, o Estado de S.Paulo revelou que a sede da empresa dos irmãos Toffoli é a casa bastante modesta de um deles, cuja mulher disse desconhecer que o marido teve um resort. A notícia espalhou um cheiro de laranja no ar, além da certeza de que, se Toffoli resolver jantar num restaurante, arrisca ouvir adjetivos bem menos jurídicos que no passado. Na prática, isso dificilmente acontecerá — a atual reputação dele, assim como a de Moraes, impossibilita que desfrute prazeres comezinhos como sair para comer uma pizza sábado à noite.

A possibilidade de frequentar espaços públicos sem constrangimentos sempre foi marcador da honra — conceito que Aristóteles trata como “bem externo”. Diferentemente da virtude — um “bem interno”, que alguém tem ou não tem —, a honra é um conceito atribuído, resultado da percepção social, fundamentada ou não, de que seu portador é dotado de excelência moral e intelectual.

Do mesmo modo, a desonra significa a perda dessa percepção. Para revertê-la, o atingido tem de erguer a voz para se defender com argumentos convincentes. Como nem Toffoli nem Moraes fizeram isso até agora, a desonra, como percepção pública, continuará a persegui-los à medida que avançarem as suspeitas sobre suas condutas. Mas, se Toffoli sempre terá um resort novo para se refugiar e Moraes pode continuar voando em jatos da FAB, o STF não tem onde se esconder.

Vai daí que merece condolências a nota divulgada pela Corte na quinta-feira, assinada por seu presidente, Edson Fachin. No texto, Fachin sugere que o STF defenderá a permanência de Toffoli na relatoria do inquérito do Master e sai culpando Deus, o mundo e os mensageiros pela situação deplorável em que se encontra a instituição — segundo o texto, alvo de “interesses escusos e projetos de poder”. Antes disso, Fachin afirma que o colegiado do STF passará a se debruçar sobre “eventuais vícios ou irregularidades” de seus membros, passado o recesso judiciário. Sendo esse o único trecho auspicioso da nota, deseja-se que seja também autêntico — e traduza a consciência de Fachin de que uma Corte forçada a andar de cabeça baixa, assim como um ministro caído em desgraça, arrisca desmoralizar muito mais que a si própria.

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UM ANO APÓS A POSSE, TRUMP ESCANCARA O RACISMO

Flávia Oliveira, O Globo

O que era sugerido na campanha, e subentendido no discurso de posse, agora é repetido para o público interno em púlpito internacional

Um ano depois de assumir o segundo mandato à frente da Casa Branca, o racismo de Donald Trump nem sequer ousa esconder seu nome. O supremacismo branco, sempre evidente, tornou-se escancarado. O que era sugerido na campanha presidencial, e subentendido no discurso de posse, agora é repetido para o público interno em púlpito internacional. Apenas nesta semana, por duas vezes, uma na sede do governo, em Washington, outra no Fórum Econômico Mundial, em Davos (Suíça), o mandatário dos Estados Unidos abusou de frases depreciativas a imigrantes, em particular aos somalis, novos alvos da tática trumpista de semear na própria base eleitoral a aversão a estrangeiros.

Trump expressa sem pudor a aversão a negros pelo menos desde os anos 1980. A quem duvida, recomendo assistir a “Olhos que condenam” (Netflix, 2019). A série dirigida por Ava DuVernay reconstitui a destruição da vida de cinco adolescentes do Harlem — quatro negros, um latino —, acusados injustamente de estuprar e quase matar uma jovem branca no Central Park em 1989. Mesmo com lacunas na acusação, depoimentos forçados e exames de DNA não coincidentes com material recolhido na cena do crime, Antron McCray, Kevin Richardson, Yusef Salaam, Raymond Santana e Korey Wise foram condenados. Passaram de seis a 13 anos na prisão, até um estuprador em série confessar o crime. Foram inocentados em 2002 e, 12 anos depois, indenizados em US$ 41 milhões.

Onze dias depois do ataque à corredora, o magnata Donald Trump publicou anúncio de página inteira em quatro jornais nova-iorquinos defendendo a pena de morte para os suspeitos. O episódio, que atiçou a opinião pública à época, retornou durante a disputa presidencial contra a democrata Kamala Harris em 2024. Num debate, o republicano mentiu dizendo que os jovens “mataram uma mulher e confessaram o crime”.

A campanha de Trump pelo segundo mandato foi pontuada por acusações indevidas e ofensas a estrangeiros, na cruzada anti-imigração que seduziu parte do eleitorado americano. Em defesa da política de deportações em massa que pôs em prática tão logo voltou à Presidência, Trump repetia em comícios, entrevistas e debates que países enviam aos Estados Unidos traficantes, estupradores, criminosos e doentes mentais, numa deliberada iniciativa de criminalizar estrangeiros.

Fez da Venezuela, sob a ditadura de Nicolás Maduro — ora preso em Nova York, após a invasão do país e sequestro pelos Estados Unidos —, alvo preferencial. Depois de atos em território americano pela soberania da nação violada, disse que os manifestantes eram “os mais feios” que já viu. Coisa de quem nunca se olhou no espelho. Nos últimos dias, voltou para cidadãos da Somália a artilharia racista. Em Davos, acusou somalis de fraudar US$ 19 bilhões em benefícios sociais. Como criminalizar não basta, repetiu estereótipos do racismo científico do século XIX, que destituíam de inteligência negros africanos e descendentes:

— Eles se mostraram mais inteligentes do que pensávamos. Eu sempre digo que essas pessoas têm um QI baixo. Como é que eles conseguem entrar em Minnesota e roubar todo esse dinheiro — indagou a uma plateia silenciosa, espera-se, por perplexidade.

À Europa, disse que “o Ocidente não pode importar em massa culturas estrangeiras que jamais conseguiram construir uma sociedade bem-sucedida por si só”. A referência ao estado de Minnesota se deveu à onda de manifestações que emergiu na cidade de Minneapolis depois da execução de Renée Nicole Good, cidadã americana, 37 anos, mãe de três filhos, por um agente do ICE, a milícia trumpista de perseguição e deportação de imigrantes. Pesquisa do New York Times nesta semana mostrou que dois terços dos americanos desaprovam as ações da agência. Diante da reprovação galopante das operações, cada vez mais violentas e arbitrárias, o presidente e seu vice, J.D. Vance, escolheram dobrar a aposta na criminalização e desumanização de estrangeiros.

Confiantes no mandato que receberam da figura política mais poderosa do planeta, os agentes, rostos cobertos, armas em punho, fazem abordagens cada vez mais abusivas. Entram em empresas, lavouras, igrejas. Ainda ontem, tornou-se público que foram autorizados a usar a força e entrar em residências sem mandado judicial, numa escalada que desidrata uma democracia que se presumia forte.

Anteontem, o menino Liam Conejo Ramos, de 5 anos, foi levado com o pai por agentes federais de Minnesota para uma unidade do ICE no Texas. A criança, de origem equatoriana, voltava da pré-escola, quando foi retirada de dentro do carro da família, que fizera pedido formal de asilo nos Estados Unidos. O registro do menino assustado, mochila nas costas, encasacado, touca de lã do personagem Stich, conduzido por um agente fardado, como se criminoso fosse, correu o mundo. É imagem que redime a vítima, expõe o algoz. Há de chegar o dia em que todos enxergarão.

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ABSOLUTE CULTURA. ABSOLUTE DEMOCRACIA

Margareth Menezes, Correio Braziliense

A "fervura" que Wagner Moura sente, e que todos nós vemos nas salas de cinema cheias, é a celebração da nossa soberania cultural. É a democracia devolvendo ao Brasil o direito de se enxergar, se orgulhar e prosperar

"Está fervilhando." Foi assim que o ator Wagner Moura resumiu o atual momento da nossa cultura ao ser questionado sobre o brilho recente do audiovisual brasileiro no cenário global. Da aclamação em Cannes às premiações no Globo de Ouro, chegando às históricas quatro indicações ao Oscar, o Brasil voltou a ocupar o lugar que é seu por direito: o topo. E, ao explicar esse fenômeno, Wagner foi direto e preciso: "Isso é apenas a democracia".

O que a internet hoje celebra com o meme "Absolute Cinema", aquele selo simbólico de qualidade para o que é verdadeiramente marcante, é, na verdade, o resultado de um país que voltou a respirar e a investir em si mesmo. Não é sorte, não é milagre. E, embora o talento do nosso povo seja infinito, não se trata apenas de inspiração. Trata-se de política pública.

O audiovisual brasileiro tem o que chamamos de "molho", uma identidade única, um borogodó que algoritmo nenhum consegue replicar. Esse brilho especial transborda em obras de realizadores como Walter Salles e Kleber Mendonça Filho, e também de diretoras como Anna Muylaert, Julia Murat e Marianna Brennand, que vêm conquistando reconhecimento e prêmios em importantes festivais internacionais. São filmes que levam a nossa essência, dos territórios às grandes cidades, das memórias íntimas às questões coletivas, para as telas do mundo.

Mas esse "molho" não circula sozinho. Ele precisa de estrutura, fomento e visão de Estado. Desde 2023, o governo federal retomou com força o investimento público no audiovisual, reconhecendo o setor como estratégico para o desenvolvimento econômico, cultural e simbólico do país. Entre 2023 e 2025, foram aportados mais de R$ 5,7 bilhões no setor audiovisual brasileiro, somando recursos do Fundo Setorial do Audiovisual (FSA) e das Leis de Incentivo.

O Ministério da Cultura (MinC) atua para que esse investimento se traduza em obras, circulação e acesso. Apenas nas chamadas públicas de produção do audiovisual em 2024 e 2025, foram contempladas, aproximadamente, 852 obras, distribuídas entre o Seletivo de Cinema (160 projetos), o Seletivo de TV e VoD (133 projetos) e os Arranjos Regionais do Audiovisual, que impulsionaram 559 obras em todas as regiões do país. É a democracia cultural operando na prática, garantindo que diferentes vozes, sotaques e territórios tenham condições reais de produzir e existir no mercado.

Enquanto Ainda estou aqui reafirma o vigor do nosso talento e da nossa capacidade criativa, filmes como Manas e O agente secreto demonstram como o Estado brasileiro impulsiona esse talento. Essas obras premiadas contaram com o braço estruturante do FSA e da Ancine, evidenciando que o investimento público é decisivo para transformar a criação artística em filmes competitivos, com alcance internacional, e para consolidar o audiovisual como uma indústria sólida e sustentável.

Os números confirmam essa força. Segundo dados da Motion Picture Association e da Ancine, o audiovisual brasileiro é hoje responsável por injetar R$ 70,2 bilhões no Produto Interno Bruto (PIB) do país. O setor sustenta mais de 608 mil empregos qualificados e movimenta uma ampla cadeia produtiva. Cada vaga criada em um set de filmagem impulsiona outras quatro na economia real, do transporte ao buffet, da segurança ao setor jurídico.

Essa engrenagem funciona em escala nacional e também internacional. Entre 2023 e 2025, foram emitidos 7.898 Certificados de Produto Brasileiro (CPBs) para obras de espaço qualificado, evidenciando a retomada consistente da produção. No mesmo período, 124 obras brasileiras independentes foram concluídas em regime de coprodução internacional, com destaque para 2024, que registrou o maior número da série histórica: 50 obras finalizadas, prontas para circular no mercado interno e externo.

A expressiva presença de filmes brasileiros em grandes festivais internacionais, como o Festival de Berlim, comprova que consolidamos uma verdadeira esteira de produção, circulação e reconhecimento. Estar do lado do povo brasileiro é proteger esse patrimônio cultural e econômico, avançar na regulação do streaming e reforçar o Fundo Setorial do Audiovisual, garantindo que a propriedade intelectual das nossas obras permaneça com o Brasil e continue gerando valor, empregos e identidade.

 A "fervura" que Wagner Moura sente, e que todos nós vemos nas salas de cinema cheias, é a celebração da nossa soberania cultural. Não é acaso. Não é improviso. É a democracia devolvendo ao Brasil o direito de se enxergar, se orgulhar e prosperar.

Absolute Cultura. Absolute Democracia.

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QUANDO OS LOUCOS CONDUZEM OS CEGOS

Roberto Amaral*, Brasil 247

“Não são apenas os vivos que nos atormentam, os mortos também. Le mort saisit le vif!”.

— Karl Marx, Prólogo à primeira edição de O capital.

Nascemos como território aberto: feitoria, praias, água, alimento e sombra para o repouso de corsários de todas as bandeiras; o mundo chegava para a aventura predatória dos séculos seguintes de apropriação da terra dada, a caça à natureza e aos homens, povos nativos preados e, com a Colônia, a escravidão de negros importados para o eito e a morte antecipada.

Bem mais tarde emerge, sem animação orgânica, uma ideia de povo em busca de nação, ausente o projeto de colonizador (com o qual não podia arcar a decadência irreversível do império lusitano); historiadores apressados referem-se às lutas travadas por portugueses, africanos escravizados, tropas de brancos pobres e indígenas escravizados como o início da construção de uma nacionalidade, nada obstante a impossibilidade de identificar a mínima consciência de pertencimento comum na expulsão da experiência do príncipe de Nassau (1654), modernizante em face da passividade portuguesa, ainda que não cogitasse de qualquer sorte de mobilidade social, ou da criação de mercado interno. Não havia uma nação a contrapor-se ao sonho holandês na América.

Éramos algo como uma malha de feitorias sob a coroa do pequeno Estado português, em trânsito entre o domínio espanhol e o britânico, cuja preeminência nos condicionaria até o fim da Primeira Grande Guerra (1914–1918) e a ascensão dos EUA, que se tornam a unipotência capitalista após a queda do Muro de Berlim e a capitulação da URSS.

Continuávamos na periferia, como se cumpríssemos um determinismo que a leitura dialética da História não justifica. Antes, no nascedouro do século XVI, na periferia do mercantilismo do capitalismo nascente, ainda pré-industrial e pré-estatal. Agora, na periferia do capitalismo pós-industrial, sob a égide de um imperialismo Moloch.

Em 1627, em sua História do Brasil, o sábio e precursor Frei Vicente de Salvador profligava as limitações estratégicas do português: desapetrechado política e economicamente, pugnava salvar-se mediante a conservação da terra apossada sem luta, e salvá-la por meio de tratados negociados com nações mais poderosas: “Da largura que a terra do Brasil tem para o sertão não trato, porque até agora não houve quem a andasse por negligência dos portugueses, que, sendo grandes conquistadores de terras, não aproveitam delas, mas contentam-se de andar arranhando ao longo do mar como caranguejos”.

Vida social, nenhuma. Vida política, tão-só a necessária para assegurar o domínio português: os primeiros agentes do fisco, os primeiros militares, os primeiros fortes de defesa, os primeiros agentes da justiça reinol; os padres e frades catequizando os catecúmenos, desculturalizando o gentio e o negro, matando suas almas; os jesuítas catequizando, educando, aportuguesando e construindo, território afora, suas “repúblicas”, seus aldeamentos, suas “missões”, um modelo de colonização clerical que palmilhou quase todo o país daqueles idos; caminhando desde a Amazônia e o Centro-Oeste ao Rio Grande do Sul, à Argentina e ao Paraguai;  chegaram  a mobilizar entre 250 e 300 mil guaranis, até a fúria pombalina que os expulsou do Brasil.

Nascemos na periferia do mercantilismo do século XVI, do capitalismo nascente, ainda pré-industrial e pré-estatal, e nossos donos de então, pais e mães dos donos de hoje, logo se aclimataram no ócio, pois havia índios preados para o trabalho, africanos às mãos cheias para o eito e a morte antes do tempo. A história oficial consagrou como “heróis da Pátria” os genocidas das Entradas e Bandeiras. Nesse Brasil, onde havia produção, só o escravo trabalhava, o que não explica tudo, mas sugere um campo de reflexão. Darcy Ribeiro lembra a carne e a alma dos indígenas e dos negros que os brancos caçavam para produzir e poder acumular suas riquezas. E madeira, e pedras, e algodão, e mais isso e mais aquilo, tudo o que o mercado europeu requeria, pois aqui, em se plantando (pelo braço escravizado), tudo dava, tudo dá; e logramos plantar cana e produzir açúcar para exportar à Europa, de onde importávamos tudo: manufaturados, ideologia, valores, cultura, visão de mundo, por intermédio dos entrepostos portugueses que nos exploravam como monopólio comercial.

O “brasileiro” é o português que vem “fazer a América”, enriquecer e voltar a Portugal para construir igrejas, e será personagem de Camilo Castelo Branco. O proprietário de engenho é um simples feitor muito rico. Não é um empreendedor, não é um pioneiro. É um homem da terra, reacionário, violento, inculto; mas, supunha, falava com Deus; precatado, mantinha em casa uma Capela devotada ao Cristo ou à Imaculada  Cinceição onde se casavam os herfeiros com os herdeiros das terras vizinhas.

São essas as nossas raízes, as de um Estado classista moderno na sua abjeta concentração de renda e espoliação social; raízes que explicam ainda o mal de origem que intentam negacear: construído aos trancos e barrancos, isento de projeto de ser, desprovido de destino, o Brasil não é, está sendo; algo permanentemente em elaboração, sem bússola, sem azimute, talvez com ponto de partida, mas jamais dispondo de horizonte de chegada: sem régua e sem compasso, manipulado pela dialética das circunstâncias nas quais não ousa intervir.

Na transição para o capitalismo, a burguesia que nos coube já não era revolucionária quando aqui desembarcou, e jamais seria nacional, condicionada na modernidade pelos interesses do capitalismo globalizado. Jamais se desapartou de suas origens: cultiva o longo passado colonial e escravagista de seus avoengos. Assim vê o mundo e nele se vê.

Essas, as nossas circunstâncias perdurantes. Sem noção de si, carecemos da noção de mundo; sem projeto de ser, não temos porto de chegada. Ficamos com os argonautas, a navegar, porque navegar é preciso. E la nave va, mas não nos salva da alienação: a crise é objetiva, material, concreta e nos fisga no contrapé da irrelevância. Assim, quietos, nos escondemos diante da crise, que é uma crise nossa, presente: ela está no mundo, mas está diretamente na América do Sul e no Brasil.
Fruto da formação histórica que acima se tentou resumir, nossa classe dominante, trêfega e traficante, não tem condições de dialogar com a realidade; alienada e ideologicamente colonizada, não se identifica com a nação, não a pode compreender. Nada se lhe deve cobrar ou esperar.

Mas talvez ainda seja pertinente chamar à cena a “sociedade civil”. Ou a academia, silente, omissa. Não há condições de cobrar o que quer que seja do movimento sindical, mas talvez ainda seja pertinente exigir uma postura digna dos partidos que ainda integram essa larga avenida que reúne progressistas, esquerda e centro. Era e ainda é justo, e ainda oportuno, exigir de nosso governo um mínimo de ação objetiva, ou seja, algo além das boas notas expedidas pela boa burocracia do Itamaraty. Que errou, com o terceiro andar do Palácio do Planalto, já lá atrás, reduzindo a agressão imperialista a uma chantagem tarifária, ao fim e ao cabo delegando as negociações de Estado, que haveriam de ser políticas, à intermediação de produtores brasileiros de carne e outras commodities com autoridades dos EUA, em escritórios de advocacia e lobby de Washington. Soa mal a dificuldade do nosso governo de dizer o que pensa sobre o condomínio que os EUA querem instalar sobre os escombros de Gaza. É preciso salvar a política “ativa e altiva” de Celso Amorim.

A questão, como é sabido, volta para seu campo nuclear, que é a política, de onde, a rigor, jamais saiu.

Na crise que o imperialismo agrava a cada dia — Europa, Oriente Médio, Palestina e Israel, Rússia, Ucrânia, Irã, Dinamarca/Groenlândia, América Latina e, nela, tanto a América do Sul, onde estamos, convivendo com a ascensão da extrema-direita, que nos promete isolar, quanto com a invasão da Venezuela, na nossa fronteira amazônica, o que não é irrelevante, em qualquer momento e em qualquer circunstância.

Que dizer quando o chefe da diplomacia de guerra da Casa Branca anuncia como nova política a retomada do “grande quintal”, proclamados o fim da política, o fim do multilateralismo, o fim dos organismos internacionais? O essencial está na ululante falência do direito internacional; inane.

A nova ordem é a lei do mais forte, o novo é o Velho Oeste. Soberania nacional não é um valor moral, nem muito menos jurídico,  ensina a doutrina, ensina a vida; é uma força objetiva, concreta, palpável, que depende exclusivamente de si. A esse predicado os estrategistas chamam de capacidade de dissuasão. De que carecemos. Porque nossas forças não estão adequadamente armadas, porque sua formação ideológica é subalterna aos interesses do imperialismo, porque o governo ainda não conseguiu construir com a sociedade sua política de defesa.

Porque, ao final, carecemos de um projeto para o país.

Sem projeto de destino, sem causa, o Brasil, que já aspirou  papel de liderança no plano internacional, vê-se reduzido à condição de objeto: peão em meio a outros peões que se multiplicam no tabuleiro de xadrez, onde reina o soberano imóvel, decidindo os destinos do mundo.

Lamentavelmente, vítimas de crassa falência analítica — como se a história não estivesse à nossa disposição para ensinar aos que querem saber —, não nos damos conta do quadro de realidade, como se ele fosse apenas um drama estranho ao nosso, representado noutro teatro. Ora, o enredo é único, a representação é única, o elenco é único, a plateia é única: somos nós. Os tempos de hoje trazem os tempos sempre contemporâneos de Shakespeare e seu Rei Lear, na fala de Gloucester (Ato IV, Cena 1): “É a peste do nosso tempo: quando os loucos conduzem os cegos”.

 *Com a colaboração de Pedro Amaral.

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AS CONTRADIÇÕES DO FIM DE UMA ORDEM MUNDIAL

Juliana Diniz, O Povo

A ameaça bate às portas da Dinamarca e vem muito nua, muito evidente. Não se pode dizer que o país nórdico represente um risco à democracia ocidental, tampouco que o povo da Groenlândia seja incapaz de se autogovernar de forma livre

A crise em torno da Groenlândia é dramática pelo potencial que tem de demonstrar ao mundo todas as contradições e insuficiências de um arranjo geopolítico. Para a Europa, é a revelação incômoda de que a soberania, um conceito que funda todo o Direito e a Política modernos, é uma ficção, tão frágil quanto parece ser o sistema de freios e contrapesos da democracia americana. Ver-se na posição historicamente reservada aos territórios coloniais é um choque, uma demonstração evidente do fracasso de um modelo de organização do mundo.

Entendamos melhor a contradição, a partir do conceito de soberania. Toda a legitimação política dos estados de direito modernos depende da defesa do ideal de autodeterminação, da liberdade. Faz-se guerra, faz-se revolução, guilhotina-se o rei em nome desse princípio fundamental, que é a ideia de que um povo tem o direito de ser senhor de si, sem tutelas estrangeiras ou domésticas, sem império, sem rei. Um país soberano é um país livre, que se autogoverna e exerce o poder sobre seu povo, território e economia.

Durante décadas, os Estados Unidos da América legitimaram violações e desrespeito sistemático à soberania de países não europeus sob o argumento de realizar a liberdade. Invadir um país e sequestrar um presidente, como acabaram de fazer na nossa vizinhança, não é exatamente uma novidade, se considerarmos o histórico de intervenções na América Latina e no Oriente Médio.

Para os europeus, que fizeram o mesmo em larga escala, no fim do século XIX, em sua empreitada neocolonial na África e na Ásia, a violação sistemática da soberania da "periferia" nunca foi um problema - como se, nesses territórios, falássemos de uma zona onde a ordem e a ética permanecessem em suspenso.

Agora, a ameaça bate às portas da Dinamarca e vem muito nua, muito evidente. Não se pode dizer que o país nórdico represente um risco à democracia ocidental, tampouco que o povo da Groenlândia seja incapaz de se autogovernar de forma livre. A justificativa da invasão não é, por assim dizer, ética, civilizatória. Tomar um território livre, europeu, sem qualquer justificativa além do próprio interesse nacional é, sob todos os aspectos, a negação do Direito naquela zona do globo onde essa ordem foi fundada e tinha vigência.

É justamente essa crueza que choca, que perturba. O momento em que, pela contradição, toda a farsa de um discurso de legitimação política se evidenciam. Os americanos provam que o verdadeiro soberano é, em termos caros a Carl Schmitt, aquele que detém a força para fazer o Direito e também para negá-lo. Considero, como disse o primeiro-ministro canadense, que o fim é uma chance para construirmos uma ordem nova, mais simétrica e, quem sabe, melhor.

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FIM DE UMA ERA

André Gustavo Stump, Correio Braziliense

O primeiro-ministro do Canadá, Mark Carney, foi objetivo. Disse, em Davos, que "a velha ordem não vai regressar. Estamos no meio de uma ruptura, não de uma transição". Mais claro impossível

A Europa foi o centro do mundo desde que as grandes navegações começaram a moldar a geopolítica em que vivemos. Portugal e Espanha dividiram o mundo por intermédio do Tratado de Tordesilhas, que não foi reconhecido por franceses, ingleses e holandeses. Uns invadiram os outros e começaram a dividir as áreas de interesse. Ingleses se espalharam pelos continentes e criaram o império onde o sol jamais se punha, com a inclusão da Índia, a joia da Coroa. Faz sentido. O diamante Koh-i-Noor, um dos maiores diamantes lapidados do mundo, originário da Índia, é a peça central da coroa britânica. O diamante pertencente à Índia foi "cedido" à rainha Vitória em 1848.

Os europeus dividiram a África entre si, com exceção do Congo Belga, que se transformou em posse particular do rei Leopoldo II. Europeus se espalharam pela África e pelas Américas. No sul, Espanha e Portugal dividiram o território. No norte, ingleses dominaram as 13 colônias que se formaram ao longo do Atlântico. Depois, Napoleão vendeu a Louisiana para os norte-americanos, que, em seguida, compraram a Flórida dos espanhóis, o Alaska dos russos e invadiram o México para fazer a costa oeste com Califórnia, Texas, Novo México e outros estados. Surgiu o país chamado Estados Unidos, que fez a guerra de independência contra a Inglaterra com auxílio bélico efetivo dos franceses.

Sem falar no processo de colonização da Ásia e do Oriente Médio, tudo, portanto, começa, na história moderna, pela Europa. Os europeus brigaram entre si duas vezes no século passado. Da segunda, o mundo ocidental sobreviveu por causa da efetiva participação dos Estados Unidos. Evitou a queda da Inglaterra e seu auxílio foi fundamental para auxiliar a União Soviética superar a máquina de guerra nazista. Não fosse esse auxílio, os europeus hoje estariam falando alemão.

E, na Ásia, os povos estariam dominados pelo Japão imperialista. Tudo isso tem preço. Ingleses terminaram de pagar suas dívidas de guerra com os Estados Unidos em 2006. A China recuperou sua independência, expulsou os japoneses da Manchúria e, hoje, é uma potência. A Coreia do Sul, também expulsou os japoneses, e se transformou num tigre asiático, depois de fazer guerra contra seu vizinho do Norte.

Esse mundo, aparentemente, acabou nesta semana.

Donald Trump anunciou que cada país que integra a Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) terá que pagar pela proteção que Washington oferece ao continente. Acabou o conforto do guarda-chuva norte-americano. Cada um por si. Lembra o momento quando o russo Mikhail Gorbachev anunciou aos países que integravam a União Soviética que não mais teriam a proteção do Exército Vermelho. Eles optaram pela independência e dissolveram o mundo comunista. Fenômeno semelhante, com sinal trocado, está acontecendo neste momento. Com o agravante de que Trump quer colocar a Groenlândia sob domínio dos Estados Unidos. Sonha em ter o Canadá integrado a seu território. (O Canadá, formalmente, pertence à Comunidade Britânica de Nações, sua autoridade maior é o rei da Inglaterra). 

As consequências diretas são claras: a Otan aparentemente perdeu o sentido, uma vez que ela foi criada para conter uma possível invasão dos comunistas. Os comunistas não existem mais, porém Vladimir Putin insiste em dominar a Ucrânia, o que ameaça os países da Europa Ocidental. Trump não faz qualquer pressão contra os russos. Prefere que Zelensky, o ucraniano, faça as concessões para acabar com o conflito. Os europeus estão em pânico porque não possuem meios e modos para confrontar os norte-americanos. Em termos bélicos, nem pensar. No capítulo comércio, podem promover algum dano ao adversário, mas vão sofrer muito mais. 

O anunciado tratado entre a União Europeia e o Mercosul sofreu um abalo. Ele terá que ser examinado por instâncias judiciais. Os caipiras são reacionários e temem os produtos originários dos países do sul que são melhores e de menor custo. Eles prejudicam a comunidade na defesa de seus subsídios. Os norte-americanos que construíram o maior império da atualidade elegeram um czar para dirigir suas necessidades. Ele pensa apenas em dinheiro, lucro, investimento e manter o mercado de emprego ativado dentro de suas fronteiras.

O primeiro-ministro do Canadá, Mark Carney, foi objetivo. Disse, em Davos, que "a velha ordem não vai regressar. Estamos no meio de uma ruptura, não de uma transição". Mais claro impossível. O discurso dele foi impressionante. Não reproduzo aqui por falta de espaço. Ele anunciou que seu país vai dobrar o investimento em defesa, com base na indústria local, melhorar o ambiente de negócios, reduzir impostos, incentivar exportações e procurar acordos comerciais com países ou grupos de países, inclusive o Mercosul. Sem querer, o canadense anunciou excelente programa de governo para candidatos que pretendem disputar a Presidência no Brasil, na eleição deste ano.

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OPERAÇÃO DA PF TRAGA CLÁUDIO CASTRO PARA ESCÂNDALO DO MASTER

Adriana Fernandes, Folha de S. Paulo

Operação Barco de Papel apura suspeitas de operações financeiras irregulares no Rioprevidência

Castro se junta ao governador Ibaneis Rocha (DF), que bancou a compra do Master pelo BRB, na lista de autoridades que têm muito a explicar

O esquema de fraudes de Daniel Vorcaro arrastou para o centro da crise do Banco Master o governador do Rio, Cláudio Castro, após a operação Barco de Papel, da Polícia Federal, que apura suspeitas de irregularidades no fundo de previdência dos servidores do estado, o Rioprevidência.

Castro, no mínimo, deve explicações por ter mantido no cargo o presidente do fundo, Deivis Marcon Antunes, um dos alvos das investigações e exonerado somente nesta sexta (23) após a operação. Ele está fora do país.

Antunes esteve no cargo no período da aplicação de R$ 970 milhões do Rioprevidência em letras financeiras do Master, papéis emitidos por bancos que não contam com garantia do FGC (Fundo Garantidor de Créditos).

Os indícios de irregularidades já estavam estampados nas páginas dos jornais muito antes da operação. As suspeitas foram citadas por investigadores na primeira fase da operação Compliance Zero, que prendeu Vorcaro, em novembro do ano passado.

A aquisição desses ativos, que não encontravam muito apetite por parte de investidores privados, foi considerada pelo Ministério Público Federal incompatível com a natureza dos fundos de pensão, que devem buscar segurança e liquidez para garantir a aposentadoria de seus beneficiários.

Castro não fez nada para reagir ao escândalo. Dificilmente não estava ciente de uma movimentação financeira tão elevada. Era um ativo ruim de um banco visto, há muito tempo, com desconfiança pelo mercado.

O governador do Rio não está sozinho nessa encrenca. Institutos que pagam aposentadorias a servidores municipais e estaduais aplicaram R$ 1,8 bilhão em letras financeiras do Master. O fundo Amprev (Amapá) investiu R$ 400 milhões, e o Iprev, de Maceió, comprou R$ 97 milhões.

A PF começa a chegar aos assessores de entes públicos que receberam propina para expandir um esquema que ajudou a agigantar a atuação do Master.

Castro se junta ao governador do Distrito FederalIbaneis Rocha, que bancou a compra do Master pelo BRB, na lista de autoridades que têm muito a explicar.

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sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

TARCÍSIO DIZ QUE CANDIDATURA À PRESIDÊNCIA É ' ESPECULAÇÃO ' E CONFIRMA VISITA A BOLSONARO

Joelmir Tavares e Tiago Angelo / Valor Econômico

Após adiar encontro com ex-presidente, governo de SP tem previsão de ir à "Papudinha" na próxima quinta-feira e diz que trabalhará por "direita unida" na eleição

Após adiar o encontro, o governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) confirmou que visitará o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) na prisão na próxima quinta-feira (29). A nova data foi autorizada pelo ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF). Ao se pronunciar pela primeira vez depois do recuo, Tarcísio reafirmou ser candidato a reeleição e chamou de “especulações” os rumores de que tem interesse em concorrer à Presidência da República.

“Sou candidato à reeleição do governo do Estado de São Paulo e irei trabalhar sempre por uma direita unida e forte para tirar a esquerda do poder. Qualquer informação diferente desta não passa de especulação”, afirmou Tarcísio nas redes sociais na quinta-feira (22).

"Irei visitar o presidente Bolsonaro, a quem sou e serei grato e leal, na próxima quinta-feira para prestar o meu total apoio e solidariedade", afirmou. Tarcísio já tinha declarado, antes da visita adiada, que iria encontrar "um grande amigo", oferecer ajuda e renovar seu apoio.

Inicialmente, a visita estava prevista para a manhã de quinta-feira (22). Na noite de terça-feira (20), Tarcísio pediu para adiar o encontro alegando ter compromissos em São Paulo. A agenda do governador divulgada ontem previa apenas “despachos internos” na parte da tarde. Auxiliares não forneceram informações adicionais sobre os despachos no Palácio dos Bandeirantes nem responderam se Tarcísio teve algum compromisso pessoal no período da manhã.

O adiamento da visita, a pedido do governador, criou um atrito com o senador Flávio Bolsonaro (PL), pré-candidato à Presidência escolhido pelo pai no mês passado para sucedê-lo. Segundo aliados, Tarcísio decidiu postergar a ida a Brasília após ficar incomodado com as pressões para "entrar de cabeça" na campanha do senador e as críticas de uma ala da família, sobretudo do ex-deputado federal Eduardo e do ex-vereador Carlos.

Diante do clima de tensão, aliados entraram em cena para tentar conter os danos e preservar a relação entre o governador de São Paulo e a família Bolsonaro. O esforço, segundo relatos, é para evitar que o estremecimento prejudique a direita nas eleições, sob o argumento de que ambos têm muito a perder com um eventual rompimento.

O adiamento do encontro abriu uma guerra entre Republicanos e PL, partidos que discutem alianças para as eleições de outubro. Dirigentes trocaram ataques, o que acendeu o alerta para o risco de fragmentação no bolsonarismo e levou figuras como o presidente nacional do PL, Valdemar Costa Neto, a agirem em prol de uma pacificação.

Na percepção de aliados de Tarcísio e Flávio ouvidos pelo Valor, o mal-estar da véspera ainda não foi bem digerido por nenhum dos lados, mas existe a preocupação de estancar a crise.

Valdemar reiterou, nos bastidores e publicamente, que Tarcísio é um ator central da oposição nas articulações para derrotar o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). O dirigente disse considerar a candidatura de Flávio irreversível e negou a hipótese de o PL lançar um candidato a governador para concorrer contra Tarcísio, caso o governador confirme o plano de reeleição.

Na quarta-feira (21), o presidente nacional do Republicanos, deputado federal Marcos Pereira, rebateu nas redes sociais o líder do PL na Câmara dos Deputados, Sóstenes Cavalcante (PL-RJ). O líder, que fez críticas recentes a Tarcísio ao defender a candidatura de Flávio, desta vez apontou a falta de um “projeto nacional” do Republicanos e questionou o que a legenda “acrescenta” para Tarcísio. O PL já tentou filiar o governador, mas ele resiste a uma migração.

Pereira afirmou que o Republicanos sempre “acreditou no projeto do governador, quando muitos, inclusive dentro do PL, faziam eventos públicos em apoio ao seu adversário em São Paulo”. Também rebateu Sóstenes ao dizer que o Republicanos “não faz política no grito, nem cria crises para aparecer”, e que “liderança se constrói com equilíbrio — e não com bravatas”.

“Diferentemente de outros partidos, nunca constrangemos o governador, nunca o expusemos publicamente e nunca foi necessário emitir carta para ‘acalmar’ nossa bancada. Nossa atuação sempre foi de lealdade, responsabilidade e estabilidade política”, completou Pereira.

Em meio aos atritos, o senador Rogério Marinho (PL-RN), que anunciou na quarta ter desistido de concorrer ao governo do Rio Grande do Norte para atuar na coordenação da campanha de Flávio, também pregou um apaziguamento. Marinho descreveu Tarcísio como um aliado “leal” e “grato” e disse acreditar que ele entrará na campanha do senador no “momento adequado”. O governador já manifestou apoio a Flávio, mas é cobrado a ter uma postura mais enfática.

O cálculo feito por diferentes atores da direita é que Flávio precisa de um palanque forte no Estado de São Paulo, principal colégio eleitoral do país, para aumentar sua competitividade, e que hoje o governador é quem tem mais chances de oferecer isso a ele.

Já Tarcísio não pode prescindir do eleitorado bolsonarista em sua eventual tentativa de reeleição e deve evitar a todo custo ganhar a pecha de “traidor”, o que poderia ser fatal para o futuro de sua carreira política, na visão de interlocutores.

Tarcísio reiterou em conversas privadas seu foco na tentativa de reeleição. Políticos do entorno citaram os ataques de Eduardo e Carlos Bolsonaro como exemplo de que ele não tem apoio unânime no clã. Um aliado falou na existência de uma “guerra fria” na família, opondo filhos e a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro (PL), que nos últimos dias fez acenos a Tarcísio e evitou declarar apoio a Flávio.

Pelo campo da direita, são também pré-candidatos o governador de Goiás, Ronaldo Caiado (União), e o governador de Minas Gerais, Romeu Zema (Novo). O governador do Paraná, Ratinho Junior (PSD), também é cotado como presidenciável e afirmou recentemente que aceitaria o desafio se for escolhido.

Na quinta-feira, em um evento em São Paulo, Zema disse que sua pré-candidatura contribui para a estratégia de atrair mais votos para a direita nas eleições de outubro e minimizou as críticas de pessoas do entorno de Jair Bolsonaro a aliados que disputam o espólio do ex-presidente.

“No primeiro turno, com certeza, teremos alguns candidatos [da direita], mas no segundo turno todos estaremos unidos contra a esquerda, porque nós sabemos que, infelizmente, ela não tem um projeto de longo prazo para o Brasil, mas um projeto de permanência no poder”, disse o governador antes de palestrar em evento do Sindicato dos Hospitais, Clínicas e Laboratórios do Estado de São Paulo (SindHosp).

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