domingo, 15 de março de 2026
sábado, 14 de março de 2026
O QUINTAL SOB VIGILÂNCIA
Trump dá curso à ofensiva pela militarização da América
Latina
O governo de Donald Trump deu os primeiros passos para
implementar uma estratégia deliberada de militarização do continente,
incentivado pelo êxito do sequestro de Nicolás Maduro e o controle do governo
venezuelano. O anúncio da ofensiva regional não poderia ter ocorrido em outro
lugar a não ser na Flórida, bunker da extrema-direita latino-americana e foco
da busca dos republicanos pelo voto latino.
Trump interrompeu sua agenda bélica no Irã para encontrar líderes do continente e
lançartr o “Escudo das Américas”. Oficialmente, trata-se de uma aliança
entre Washington e uma dezena de países da região, entre eles Argentina, Chile,
Paraguai e Panamá. Na prática, o “Escudo” representa uma subordinação ao
poderio militar dos EUA. O republicano não escondeu, em seu discurso, sua
disposição de alocar mísseis e usá-los, se necessário.
Se a aliança foi estabelecida para lutar contra o
narcotráfico na região, vozes do governo brasileiro destacam que esse argumento
parece frágil quando se nota que nem Colômbia nem México, dois dos centros de
atuação de grupos criminosos, foram convidados ou consultados.
A ofensiva da Casa Branca ainda inclui a classificação de
facções criminosas, ao estilo do PCC e do Comando Vermelho, como grupos
terroristas, o que abriria caminho para o governo Trump “justificar” eventuais
operações em território brasileiro. Mais de uma dezena de organizações
criminosas da região ganharam esse status.
Observadores e diplomatas destacaram, porém, que a
iniciativa parece o início da tradução, na prática, das políticas enumeradas
nos documentos sobre estratégia de defesa nacional divulgados no fim de 2025
por Washington. A ambição declarada da Casa Branca era criar um arcabouço
político que pudesse frear o avanço chinês na região. Para isso, a
militarização do continente era um dos pilares.
Um dos acordos nessa direção foi assinado com o Paraguai.
Pelo tratado, os EUA ficam autorizados a estabelecer uma base militar no país
sul-americano. Os termos do tratado ainda revelam o grau de submissão do
governo de Assunção. Pelo entendimento, se um integrante das forças
armadas norte-americanas violar a lei paraguaia, poderá ser julgado apenas em
seu próprio país e só obedecerá às ordens de seus comandantes. Militares e
civis entrarão em território paraguaio com imunidade total, o que lhes permite
portar armas e burlar os controles locais. Também não pagarão impostos ou
taxas.
Outro campo de testes passou a ser o Equador, destacado pelo
Secretário de Guerra, Pete Hegseth, como um dos focos norte-americanos. Um dia
antes do encontro na Flórida, os dois países realizaram, pela primeira vez,
ataques coordenados contra grupos do narcotráfico, inclusive na selva
amazônica. Em fevereiro, representantes das forças navais dos dois países
realizaram uma rodada de negociações em Quito. O objetivo é traduzir as
políticas de segurança em ações concretas por meio do compartilhamento de
informações, planejamento conjunto e metas mensuráveis em segurança marítima.
Além da militarização, a ofensiva inclui “cenouras”. Ou
seja, benefícios para determinados setores. No caso do Equador, o governo de
Quito está prestes a fechar um acordo comercial com os EUA para ampliar as
exportações. “Esse acordo representa uma nova plataforma para promover a
prosperidade. Sua rápida entrada em vigor ajudará a expandir e diversificar o
comércio e o investimento bilaterais para o benefício mútuo de ambos os países
e seus povos”, afirmou Jamieson Greer, representante de Comércio dos EUA.
Argentina, El Salvador e Guatemala também assinaram acordos
comerciais que vetam esses países de fazer certos negócios com a China. Em
alguns deles, os governos locais se comprometem a não entrar em tratados de
cooperação espacial com Pequim.
Analistas alertam, porém, para o fato de que essa reocupação
geográfica pode ser mais difícil do que se imagina. O governo chinês criou uma
“força-tarefa” para tentar preservar sua posição diplomática na região e
antecipar ações dos EUA.
A realidade é que deslocar o dragão chinês pode não ser uma
tarefa das mais simples. O comércio da China com a região atingiu o recorde de
518 bilhões de dólares em 2024, com Pequim emprestando mais de 120 bilhões a
governos no Hemisfério Ocidental.
Os chineses contam com o apoio de uma extensa rede
portuária, com mais de três dezenas de portos, mais infraestrutura espacial do
que qualquer outra região do mundo fora da China continental, e a empresa
estatal Huawei se inseriu em ao menos uma dúzia de redes de telecomunicações em
toda a região. Em 2025, mesmo com toda a ofensiva de Trump, o comércio
entre a China e a América Latina cresceu 7%. A disputa pela região está em
curso. •
Publicado na edição n° 1404 de CartaCapital, em 18 de
março de 2026.
TRANSLÚCIDA
Sebastião Reis Júnior (Editor), Rodrigo Haidar (Editor), Amazon
Translúcida -Composto de 45 imagens de presas
transexuais fotografadas pelo ministro Sebastião Reis Junior, do Superior
Tribunal de Justiça, o livro traz 42 textos e 4 ilustrações que têm, como
objetivo central, provocar um debate sobre direitos humanos, cárcere e o direito
à própria identidade. As fotos foram tiradas pelo ministro no Centro de
Detenção Provisória Pinheiros II, em São Paulo.
Pessoas com diferentes formações – como profissionais do
Direito, militares, médicos e artistas – aprofundam a reflexão sobre direitos
humanos por meio de múltiplas linguagens, expressando-se da forma como
quiseram. O livro, assim, combina as fotos com cartas, ilustrações, contos,
poesias e ensaios.
“Não é um livro de fotos. Também não é um livro que se
limita a discutir a questão prisional. É muito mais do que isso. As fotos
serviram para provocar, para falarmos sobre algo que não pode ficar escondido
atrás dos muros de uma prisão, nem embaçado por preconceitos e mentiras. Temos
que falar abertamente sobre as pessoas transexuais. Não só das presas, mas de
todas que estão ao nosso redor, com quem convivemos no dia a dia”, enfatiza o
ministro na apresentação da obra.
Visitar presídios é algo que faz parte da rotina do ministro
Sebastião. Ministro da 6ª Turma e da 3ª Seção do STJ, que julga Direito Penal,
ele acredita que todo juiz tem de saber para onde vão as pessoas que ele
sentencia. Sem conhecer a realidade, impossível julgar com Justiça. Fotógrafo,
o ministro passou a pedir autorização dos presos para retratá-los. E assim
surgiu a ideia central de Translúcida.
Esta segunda edição, revista e ampliada com novos textos e
fotos, tem prefácio de Renan Quinalha, professor de Direito da Universidade
Federal de São Paulo (Unifesp), onde coordena o Núcleo TransUnifesp. Também é
editor e colunista da seção Livros e Livres, dedicada à Literatura LGBTI+ na
Revista 451 e Presidente do Grupo de Trabalho de Memória e Verdade LGBTQIA+ do
Ministério de Direitos Humanos e Cidadania (MDHC).
Nas palavras do professor Renan Quinalha, para quem atua na
área jurídica e de direitos, Translúcida é uma obra fundamental, quase um
memorial: "Ela nos obriga a sair da abstração das teses e a encarar a
realidade material. A Justiça só será justa quando enxergar a humanidade por
trás da cela, por trás do preconceito, e atuar ativamente para que a
translucidez dos muros se transforme na transparência da igualdade e do
respeito".
"Pessoas trans e travestis, em geral, convivem com
diferentes tipos de vulnerabilidades. As violências se iniciam no seio de suas
famílias, que tendem a não reconhecer ou aceitar sua identidade de gênero. São
evadidas das instituições de ensino em decorrência da discriminação
transfóbica, são alijadas do mercado de trabalho formal e, no geral, encontram
na prostituição compulsória o modo de sobreviver".
ERIKA HILTON
FRACKING DE LIQUIDEZ
Em meio a crédito privado duvidoso, bolha de IA e medo
crescente, fundos restringem resgates nos EUA
Uncle Sam tem seus dias de desconfiança no crédito privado,
lá como cá.
Uma decisão da BlackRock suscitou nossa ousadia de recorrer
à analogia entre o fracking e a química dos mercados financeiros. O fracking
quebra a rocha para liberar gás de xisto. Os três ingredientes-chave – água,
areia e produtos químicos – são misturados e bombeados para o poço sob pressão
extremamente alta, por meio de grandes motores a diesel.
Fracking na rocha negra, vulgo BlackRock,
quebrou a rocha e não liberou o dinheiro. Para liberar gás de xisto injeta
água, areia e produtos químicos. Para não liberar liquidez aos investidores,
misturam-se crédito privado duvidoso, a bolha de IA e o medo. O que funciona na
química mineral, não funciona na química dos ativos financeiros.
Conhecem aquela frase famosa antes do estouro da bolha
subprime: “muito grande para quebrar”? Até a rocha negra mais resistente tem
suas fissuras de 26 bilhões de dólares. Fundo que proíbe resgate entra em
cracking. Pasmem, a BlackRock proibiu! Seus investidores ficaram sem gás, sem
seu precioso dinheiro. Quanto maior o ativo, maior a queda.
Segundo a Bloomberg: o HPS Corporate Lending Fund, que
reúne 26 bilhões de dólares, e é um dos maiores portfólios de crédito, em
empresas em desenvolvimento, não negociado em bolsa, informou em comunicado
nesta sexta-feira que os cotistas solicitaram o resgate de 9,3% de suas participações.
A administração decidiu limitar as solicitações a 5%. Embora o valor total
fosse de perto de 1,2 bilhão de dólares, segundo cálculos da Bloomberg, os
investidores receberão de volta em torno de 620 milhões que o fundo detinha no
fim do ano.
Jamie Dimon, o todo-poderoso chairman do J.P.Morgan,
avisou: “Quando você vê uma barata, provavelmente há mais”, para alertar sobre
riscos ocultos e falhas no mercado de crédito privado e bancos regionais dos
EUA. E as baratas chegaram no fundo da BlackRock. Uma das três maiores gestoras
de ativos no mundo restringiu o resgate. Where is the money?
Quando a roda-gigante dos preços dos ativos gira ao
contrário, temos a tal desalavancagem. Deságio na precificação dos ativos
financeiros, variação patrimonial negativa, o fundo encolhe, o dinheiro do
investidor some. Lembramos aos nobres leitores que, ao pedir resgate de um
fundo, o administrador é obrigado a vender o ativo. Se muitos investidores
tomam a mesma decisão, há uma venda maciça do ativo, queda expressiva do seu
valor, a riqueza diminui. Esse fundo não era negociado em Bolsa, portanto, tem
liquidez limitada. Assim, é dever da BlackRock garantir sua liquidez. Vários
outros fundos de crédito privado sofreram corridas para resgatar.
“Os fundos de crédito privado, em geral, estão se preparando
para uma onda de pedidos de resgate, à medida que crescem a preocupação com as
práticas de empréstimo do setor e a exposição a empresas que podem ser
impactadas pela Inteligência Artificial.” (Bloomberg)
Executivos da HPS Investment Partners, adquirida pela
BlackRock, afirmaram, após a queda das ações na Bolsa americana, que a medida
de restringir os resgates ajudaria o fundo a investir em oportunidades de
investimento atraentes em meio à incerteza e volatilidade. Você acredita?
Dinheiro é um bicho altamente sensível e nervoso, qualquer
perturbação e quebra de confiança todos correm atrás dele. Nessa hora, é a
preferência pela liquidez, tradução: quero meu dinheiro.
Os fundos de crédito privado, em geral, estão se preparando
para uma onda de pedidos de resgate
Na toada de 2023, Jason Calacanis, um proeminente empresário
e investidor da internet, apertou o botão do teclado e twittou um aviso sobre
o colapso do Silicon Valley Bank: “Você deve estar absolutamente aterrorizado
agora – essa é a reação adequada a uma corrida bancária e ao contágio. Isso vai
se transformar em caos”.
A rápida queda do banco regional do setor de tecnologia
derrubou os costumes no Vale do Silício. Investidores como Calacanis, que
normalmente repreendem os reguladores por sufocar a inovação, voltaram-se para
Washington em sua hora de necessidade. A maioria alertou para graves
repercussões, caso os depositantes percam o acesso permanente ao seu dinheiro.
As angústias de Calacanis trazem à memória os temores de um
experiente administrador de fundos, em meio à tormenta do subprime, a
Grande Recessão de 2008/2009: “Quando todos à sua volta estão fazendo negócios
à velocidade do raio, é incrivelmente fácil ser carregado pela onda de otimismo
e fazer coisas das quais você vai se arrepender. Nesses momentos, a atitude
mais corajosa é não fazer nada”.
David Sacks, sócio-gerente da empresa de capital de risco
Craft Ventures, que assim como Calacanis é um associado próximo de Elon Musk e
tem muitos seguidores no Twitter, alertou para novas corridas aos bancos.
“Transfira os fundos do SVB para um dos quatro maiores bancos”, ele tuitou.
“Faça isso antes da abertura do mercado na segunda-feira, ou haverá contágio e
a crise se espalhará.” Investidores como o empreendedor e investidor de
tecnologia Jason Calacanis, que geralmente reclamam de ser sufocados pela
regulamentação, recorreram a Washington após o colapso do SVB. Seus apelos
surtiram efeito.
Dois dias após a Corporação Federal de Seguro de Depósitos
(FDIC) assumir o controle dos ativos do banco, o Tesouro, o Federal Reserve e a
FDIC anunciaram que os depositantes teriam acesso a todo o seu dinheiro na
manhã de segunda-feira. O alívio, no entanto, foi atenuado pelas críticas ao
papel desempenhado por alguns investidores de capital de risco na crise do SVB.
Quando as preocupações com o balanço patrimonial do SVB aumentaram na semana
passada, empresas de capital de risco, incluindo o Founders Fund de Peter
Thiel, incentivaram as empresas de seu portfólio a agir em seu próprio
benefício e retirar seus fundos. Isso contribuiu para desencadear uma corrida
aos bancos. Existe uma acusação mais ampla de hipocrisia em relação a alguns
dos investidores de capital de risco que se opõem à regulamentação
governamental da tecnologia, mas exigiram que os reguladores interviessem para
ajudar os depositantes do SVB. Recorrer à internet para pedir apoio “foi um
momento de ‘ateu em uma trincheira’”, disse um executivo de um fundo de capital
de risco, que zombou da conversão de seus colegas.
My friend, a rocha negra virou areia. Desconfie de fundos
que restringem resgates.
Publicado na edição n° 1404 de CartaCapital, em 18
de março de 2026.
LULA: LÍDER, MAS SEM PAZ
A força eleitoral do presidente convive com um desejo
relevante de mudança
A pesquisa Meio/Ideia de março traz um retrato incômodo
para quem torce por respostas simples. Lula lidera, segue competitivo e
continua como o nome mais forte do campo governista. Mas isso não significa que
tenha convencido o País de que sua permanência é a escolha natural. Ao
contrário. A força eleitoral do presidente convive com um desejo relevante de
mudança. E exatamente dessa tensão nasce o paradoxo do momento.
O dado mais importante da pesquisa não é
apenas a intenção de voto. É o fato de que 50,6% dizem que Lula não merece
continuar, contra 46,7% que defendem sua permanência. Em paralelo, a maneira
como ele exerce a Presidência é desaprovada por 50,5% e aprovada por 47,2%.
Isso não desenha um governo derrotado. Mas desenha, sim, um governo em disputa,
que não conseguiu transformar a condição de incumbente em sensação majoritária
de recondução.
Ainda assim, Lula continua à frente. Na espontânea, aparece
com 33,4%, enquanto Flávio Bolsonaro marca 18,5%. Num eventual segundo turno
entre os dois, Lula tem 47,4% contra 45,3% do adversário. O retrato é claro: o
presidente segue na dianteira, mas sem margem para soberba. Está na frente, mas
não está folgado. É favorito, mas não está protegido.
O que explica isso? A primeira resposta é que o eleitorado
não julga governo pela planilha de Brasília. Julga pela vida real. O Locomotiva
tem mostrado isso há bastante tempo. Quando a conversa sai da abstração e entra
no cotidiano, o julgamento político passa pela feira, pelo medo de sair à
noite, pela fila do atendimento e pelo aperto para fechar o mês. O eleitor não
mora no dado macroeconômico. Mora no boleto.
É aí que os sinais de alerta aparecem com força. A pesquisa
mostra que a segurança pública é hoje a área mais mal avaliada do governo, com
54,3% de ruim ou péssimo. Saúde também aparece como ponto de pressão, com 41,5%
de avaliação negativa nessa dimensão. Esses números permitem entender por que a
melhora de ambiente econômico, sozinha, não reorganiza o humor do eleitor.
Quando a sensação de desordem continua alta, a reeleição deixa de ser um prêmio
natural e vira uma prova oral diante do País.
Existe, porém, um lado positivo para Lula que não pode ser
subestimado. Mesmo sob desgaste, ele preserva densidade eleitoral. Continua a
ser o nome mais presente na memória do eleitor e o polo mais robusto do seu
campo. Além disso, a oposição ainda não encontrou um caminho de unificação fora
do sobrenome Bolsonaro. Isso é decisivo. Porque o presidente não enfrenta uma
alternativa ampla, nova e consensual. Enfrenta um adversário competitivo, mas
carregado de rejeição e de memórias intensas.
A pesquisa mostra ainda que a disputa deixou de ser apenas
partidária. Ela ganhou um componente institucional muito forte. Entre quem
conhece o caso Master, 70% dizem que o STF perdeu credibilidade. E 44% afirmam
que teriam mais chance de votar para o Senado em alguém que defendesse o impeachment
de ministro do Supremo. Some-se a isso o fato de que 54% dizem não acreditar
que Jair Bolsonaro tenha planejado um golpe. O resultado é um ambiente no qual
o discurso antissistema ganha oxigênio, e isso tende a favorecer a oposição.
Esse talvez seja o ponto mais sensível para Lula. Se a
eleição fosse apenas comparação entre biografias, experiência e memória social,
ele entraria com mais conforto. Mas a pesquisa sugere outra coisa: há um pedaço
importante do eleitorado querendo menos debate ideológico e mais demonstração
de comando, ordem e capacidade de fazer a vida voltar a caber dentro do dia.
Quando a campanha passa a ser lida por essa régua, a vantagem de quem governa
diminui, pois o governo responde pelo que prometeu e pelo que ainda não
entregou na percepção dos eleitores.
Minha conclusão é que Lula chega forte, mas vigiado. Tem
ativo eleitoral, tem recall, tem base social e segue plenamente no jogo. Mas
carrega um problema que não pode ser maquiado: sua liderança ainda não virou
tranquilidade. A reeleição é possível, e até plausível. Só não será um passeio.
O erro do campo governista seria achar que estar na frente
basta. Não basta. E o erro da oposição seria imaginar que o desgaste de Lula,
por si só, entrega a eleição. Também não entrega. O que a pesquisa mostra é um
país que ainda reconhece em Lula estatura competitiva, mas que continua
cobrando uma resposta mais convincente para a vida concreta. Em 2026, não vence
apenas quem tiver mais estrutura partidária ou mais barulho de militância.
Vence quem parecer mais capaz de organizar o cotidiano de um Brasil cansado de
promessas e com pressa de alívio. •
Publicado na edição n° 1404 de CartaCapital, em 18 de
março de 2026.
A POLÍTICA COMO VOCAÇÃO
Volta e meia, há uma forte onda antipolítica que ameaça
contaminar a alma da sociedade brasileira. Tivemos as decepções no afastamento
de Collor e Dilma e as manifestações de rua difusas de insatisfação em 2013. A
eleição disruptiva de 2018, fruto das revelações da Lava Jato e da
criminalização da política, patrocinou um vendaval de contestação, com a
ascensão de outsiders que encarnaram o repúdio ao que foi apelidado de “velha
política”. E aí, uma nova safra de frustrações veio ao se constatar que o novo
não era tão novo e que tudo que é novo não necessariamente é bom, unicamente
por ser novo.
Agora, a crise envolvendo o Banco MASTER
coloca em xeque novamente a estrutura do poder e as instituições republicanas,
com denúncias que alcançam de A a Z nos mais diversos segmentos do espectro
ideológico e engolfa setores dos três poderes da República.
Democracia implica em um governo em que o povo exerce a sua
soberania através de dirigentes e representantes eleitos pelos cidadãos em
eleições livres. O Estado, peça central na vida do País, conduzido pela força
política conjunturalmente majoritária, sob o olhar e a ação plural do
Congresso, e restringido pelas leis e pela ação do sistema judiciário, precisa
de legitimação permanente junto à sociedade. Afinal a vitória eleitoral não
concede uma procuração em branco para o governo. São os desafios dessa invenção
humana chamada democracia – o melhor caminho descoberto para arbitrar conflitos
de ideias e interesses presentes na sociedade. As ditaduras espalhadas pela
América Latina, Ásia, África e Oriente Médio não enfrentam estes dilemas.
Ao andarmos pelas ruas e convivermos em ambientes
comunitários, fora das bolhas militantes e apaixonadas, é fácil perceber
crescente desalento e falta de esperança, em pleno ano eleitoral. Isto sempre
ocorre quando o sistema político deixa de gerar respostas eficientes para as
angústias e os problemas do povo e a corrupção se alastra.
Max Weber, em seu clássico texto “A política como vocação”,
demonstra como a legitimidade do poder nasce ou da tradição ou do carisma ou da
legalidade. Quando as boas tradições são abandonadas, as lideranças não exercem
carisma que seduza a população e a legalidade é vista como mar de
interrogações, graças a má conduta de líderes das instituições republicanas, se
forma o caldo de cultura da antipolítica, gerando riscos imponderáveis. Weber
identifica como qualidades dos líderes políticos a paixão, a responsabilidade e
o senso de proporção. Quando elas vão pelo ralo, é natural o aparecimento de um
abismo entre cidadãos e elites no poder. Desaparecem tanto a ética da
consciência, absoluta em suas intenções puras focadas no salvamento da alma e
nos princípios, mas não só ela, também a ética da responsabilidade, centrada
nos objetivos e fins pretendidos, ainda que com concessões e relativização
parcial do rigor com os meios. Resta um estranhamento dos cidadãos em relação à
dinâmica de funcionamento do poder e suas elites.
Com a palavra, Pepe Mujica, ex-presidente do Uruguai: “A
pessoa que gosta muito de dinheiro tem que ser retirada da política. Quer dizer
que tem que ser castigada? Não. Tem que ir para o comércio, para a indústria,
para onde se multiplica a riqueza, na aventura do risco empresarial. Aí sim.
Mas não na política”.
MAIS DO MESMO
Os vazamentos reabrem a lógica lavajatista
e tensionam o cenário eleitoral
Os intensos vazamentos referentes aos escândalos do Banco Master e
do INSS têm produzido notícias capazes de modificar a conjuntura política do
País. Em 4 de março, foi divulgado pelo site Metrópoles o sigilo bancário do
filho do presidente Lula, solicitado pela CPMI do INSS. No dia seguinte, também
saíram no mesmo Metrópoles e no jornal O Globo o registro de supostas trocas de
mensagens entre o ministro Alexandre de Moraes e o banqueiro Daniel Vorcaro.
Os dois casos sugerem uma dinâmica
recorrente que dominou a cena política durante a Operação Lava Jato. Uma
relação direta entre a Polícia Federal e integrantes da CPI com certos
jornalistas. Nos dois casos mencionados, inaugura-se uma lógica de vazamentos
reservados para repórteres selecionados, que escolhem os alvos da execração
pública. Como é sabido, alguns desses jornalistas tiveram papel destacado
durante a Lava Jato e ficaram conhecidos como porta-vozes de grupos próximos ao
juiz Sergio Moro, de quem recebiam o que a República de Curitiba estava
interessada em pautar. Nenhuma notícia sobre as relações próximas e ilegais
entre o ex-magistrado e o Ministério Público ou quanto às formas de chantagem
abertas que poderiam ter se constituído em furos espetaculares fez parte da
cobertura da operação. A pergunta que volta a nos assombrar é se essa mesma
dinâmica está de volta à política brasileira, em um ano eleitoral.
Ao analisar a lógica dos vazamentos, devemos perceber que
ela distorce dois elementos centrais da política. Em primeiro lugar, em vez de
ocorrer uma investigação baseada em evidências, o que se busca é tentar
convencer a opinião pública da culpa de certos integrantes do sistema político
baseada apenas no conteúdo seletivamente publicizado. Muitas vezes, os fatos
relatados não são verdadeiros ou não nos permitem ir além de uma suspeita, como
foi, por exemplo, a conspiração para a fuga de Nestor Cerveró do Brasil que
levou à prisão de um senador e nunca veio a ser comprovada. Em segundo lugar,
os vazamentos provocam o chamado fishing. No episódio do vazamento dos dados bancários do filho do presidente
Lula, ficou claro que ele não teria recebido depósitos de Roberta Luchsinger.
Contudo, nenhuma linha foi escrita sobre o que teria motivado a quebra do
sigilo. As editorias não parecem se importar com a ilegalidade da contínua
exposição das movimentações bancárias de Fábio Luís da Silva, que produzem
forte repercussão política.
A mesma coisa pode ser dita em relação aos vazamentos de
mensagens atribuídas ao ministro Alexandre de Moraes. O formato
dos arquivos referentes às trocas de mensagens entre o réu e o ministro
entregues à CPI é diferente do obtido pela jornalista do Globo, indicando a
Polícia Federal como a possível fonte e permitindo a hipótese de que o réu
teria deixado de propósito “pistas” que apontassem para algumas autoridades da
República. Evidentemente, não é possível negar a priori o não envolvimento do
ministro, mas tampouco é possível afirmar de prima facie o contrário com base
em mensagens cujas emissão do celular de Vorcaro e recepção pelo celular do
ministro não estão comprovadas. Da mesma forma, não se sabe qual teriam sido as
eventuais respostas do magistrado a essas mensagens.
Forma-se, outra vez, o caldo de cultura para candidaturas
outsiders
Especula-se que tais mensagens foram enviadas a mais de um
contato, entre eles o presidente do União Brasil, Antônio Rueda, o senador
Irajá Abreu, a advogada Viviane Moraes e outros políticos, que negam ter
recebido tais mensagens. Assim, é possível perceber um padrão de direcionamento
de suspeitas contra determinadas figuras por parte da PF e da mídia, que passam
a ser consideradas culpadas antes mesmo de ser investigadas. Em relação aos
vazamentos no curso das investigações, não sabemos por qual tipo de relação
direta isso se estabelece pela imprensa e jornalistas.
Temos uma reorientação da conjuntura política na direção de
uma percepção de que todos estão envolvidos com a corrupção. Cria-se, desse
modo, um caldo de cultura favorável a candidatura de outsiders do sistema
político. Assim como no tempo da Lava Jato, há uma imprevisibilidade muito
grande no cenário político, tanto pelo conteúdo das mensagens vazadas quanto
pelo tratamento dado pela mídia ao que vier a ser fornecido por seus
informantes. Contudo, interessa ao Centrão, que controla as duas casas
legislativas e cujas bombas deixadas por Vorcaro repousam no seu colo, que o
escândalo não beneficie politicamente ninguém. Interessa ao mercado que a
incerteza provocada pelo Banco Master e a cadeia de empresas a ele vinculadas
pare de atrapalhar os negócios. Interessa aos bolsonaristas que a lista de
candidatos financiados direta e indiretamente pelo banqueiro e seus operadores
não seja revelada.
Ainda que o modus operandi do caso Master seja o mesmo da
Lava Jato, o escândalo produzido pela psicopatia de Vorcaro é muito diferente
daquela produzida pelos seus equivalentes de Curitiba em dois aspectos: temos
uma maioria no STF mais atenta às manipulações entre policiais e jornalistas e
temos uma PF um pouco mais profissionalizada. Mesmo assim, surpreende aos
observadores políticos que a própria corporação ainda não tenha tomado medidas
para conter os vazamentos que prejudicam a sua imagem e reputação.
Os episódios recentes indicam que a política brasileira
volta a conviver com uma lógica de vazamentos seletivos que desloca o centro do
debate público das evidências para a construção de narrativas. Quando
informações parciais, muitas vezes não verificadas, são tornadas públicas em
meio a investigações em curso, cria-se um ambiente de suspeição generalizada
que fragiliza instituições, distorce o devido processo legal e contamina o
debate eleitoral. Ainda que o contexto institucional atual apresente alguns freios
inexistentes no auge da Lava Jato, a persistência dessa dinâmica revela o risco
de que disputas políticas e interesses corporativos passem a operar por meio
da exposição pública seletiva, produzindo instabilidade e incerteza justamente
em um momento sensível da vida democrática do País. O desafio que se coloca,
portanto, é garantir que investigações ocorram no limite da institucionalidade
dos órgãos envolvidos e com transparência, sem que vazamentos e
espetacularização substituam o trabalho efetivo de apuração dos fatos.
*Leonardo Avritzer é cientista político e professor
aposentado da UFMG; Rômulo Paes de Sousa é pesquisador da Fiocruz e presidente
da Associação Brasileira de Saúde Coletiva.
Publicado na edição n° 1404 de CartaCapital, em 18
de março de 2026.
OS FINS E OS MEIOS
As quebras de sigilo não podem servir de pretexto para a
destruição de imagem
E interessante observar como a sociedade do espetáculo
evidencia uma de suas facetas mais perversas em episódios de extrema
complexidade e que exigem rigor legal e ético em sua condução. A
espetacularização tem dado as caras ao longo das investigações do caso Master,
marcadas pelo vazamento de informações sigilosas, de forma criminosa, por
agentes públicos.
Embora André Mendonça, ministro do Supremo
Tribunal Federal, tenha reduzido o nível de sigilo para as análises da Polícia
Federal de dispositivos eletrônicos apreendidos na operação, precisamos nos
atentar para os limites ultrapassados na divulgação de dados, que chega a
adentrar perigosamente os territórios da ilicitude. Faz-se
necessário lembrar que o sigilo, em um inquérito, protege dois tipos de
interesse e direito simultaneamente.
O primeiro deles é o da própria investigação, uma vez que,
quando se trata de averiguações relativas a organizações criminosas, como se dá
no contexto do Master, as buscas nunca são eficientes se tornadas públicas. O
sigilo é um elemento fundamental para que a investigação seja bem-sucedida. O
vazamento de informações permite que réus e investigados se preparem para as
apurações em curso, tomando medidas que eventualmente lhes sirvam de blindagem,
em desfavor do inquérito. Esse problema se acentua quando os investigados têm
poder político e econômico e podem lançar mão de influência como artimanha de
autoproteção. Assim, a divulgação de informações sigilosas, especialmente se
realizada de forma seletiva, só favorece os criminosos e o espetáculo, não o
interesse público.
Tal mecanismo se torna ainda mais grave quando se considera
a possibilidade de o vazamento ser feito de maneira deliberada justamente para
proteger quem está sob investigação. Reportagem recente do jornal O Globo
afirma que, quatro meses antes de ser alvo de uma ordem de prisão expedida pela
Justiça Federal de Brasília, o dono do Banco Master, Daniel Vorcaro, teve
acesso a três procedimentos que tramitavam sob sigilo no Ministério Público
Federal – um deles justamente apurava irregularidades na compra do Master pelo
BRB –, possíveis detonadores de sua prisão em novembro de 2025. Um vazamento
dessa monta, feito com a finalidade direta de informar o investigado, precisa
ser devidamente apurado.
O segundo ponto fundamental dessa discussão diz respeito ao
direito de preservação da intimidade dos cidadãos, mesmo quando esbarram em
investigações. A finalidade da investigação é apurar um crime, não destruir a
imagem de alguém. Claro que divulgar o cometimento de um delito faz parte do
interesse público, divulgação essa a ser realizada no momento certo e adequado,
em geral ao término do processo. A diversidade de informações coletadas durante
as apurações é, no entanto, vasta e invariavelmente envolve conteúdos que nada
acrescentam à elucidação dos fatos investigados. Levar a público recortes de
vida privada que não tenham ligação direta com os crimes em questão consiste em
prática ilícita de vulneração de intimidades.
O Estado não pode divulgar informações privadas obtidas
ocasionalmente em razão da investigação, como aconteceu também no caso do
banqueiro, que teve mensagens com sua ex-namorada divulgadas com alarde pela
mídia. Conversas de cunho íntimo do casal, cujo teor nada agrega ao objetivo
que motivou a busca de dados, caíram em domínio público, ocasionando evidente
prejuízo à imagem da modelo e influenciadora Martha Graeff, que cogita ir à
Justiça contra a exposição.
Há uma junção de despudor e perversão da sociedade ao
explorar publicamente a intimidade de mulheres. A autoridade pública, ao vazar
esse tipo de informação, comete ato ilícito. Por sua vez, um jornalista que
porventura receba tal conteúdo tem o direito legal de publicá-lo, podendo
inclusive preservar sua fonte, garantia dada pela Constituição brasileira.
Cabe, a meu ver, a esse profissional da comunicação, nessas situações, acionar
um filtro de natureza ética, para evitar que determinada divulgação se preste
apenas ao exercício da espetacularização perversa.
Ceder, nessas circunstâncias, à tentação do sensacionalismo
é desrespeitar direitos fundamentais e humanos e atentar contra os princípios
democráticos que os prezam. Corretamente, o ministro Mendonça determinou a
abertura de investigação sobre o cometimento de crimes de agentes públicos que
vazaram informações sigilosas no caso Master. Esperamos que haja rigor na
apuração e que os responsáveis pelos vazamentos sejam adequadamente punidos,
tanto no campo administrativo quanto no criminal. •
Publicado na edição n° 1404 de CartaCapital, em 18 de
março de 2026.
O CASO MASTER E A ENCRUZILHADA DO STF
A autoridade de uma instituição republicana é mais frágil do
que se pensa. Depende menos da força da lei do que do reconhecimento público da
dignidade, da relevância democrática e da integridade da atuação institucional.
O Supremo Tribunal Federal tem nos dado um exemplo muito melancólico do efeito
devastador, para uma democracia, da erosão da autoridade de uma suprema corte.
Refém de seus próprios equívocos, o tribunal vive uma encruzilhada.
O maior problema do Supremo tem sido uma
combinação explosiva de culto ao personalismo e ativismo. A Lava Jato deveria
ter deixado um aprendizado institucional mais duradouro. Quando o ímpeto
punitivista do lavajatismo perdeu força e apoio, e os abusos se tornaram mais
evidentes e, logo, menos defensáveis, ficou evidente que o uso estratégico do
processo foi instrumentalizado para finalidades políticas, em prejuízo do
devido processo legal. Somos todos testemunhas do que isso representou em
termos de custo à imagem do Ministério Público e do Poder Judiciário. As falhas
processuais levaram à impunidade e à sensação de imenso voluntarismo judicial.
O drama do STF foi ter sido submetido a um teste duro num
intervalo curto de tempo, sem que a corte tenha manifestado esforço de
autocrítica ou movimento de autocorreção pós-lava jato. Quando Jair Bolsonaro
se tornou presidente, o tribunal foi levado a impedir reiteradas tentativas de
violação da ordem constitucional e legal. Foi chamado a decidir muitas vezes,
em situações-limite, e precisou reagir a uma bem organizada rede de produção de
fake news. Condenou centenas por uma tentativa de golpe de estado, num desafio
inédito ao Poder Judiciário: uma tentativa de ruptura democrática que contou
com manifestações e depredações realizadas por uma massa.
Esse protagonismo inevitável, arriscado, exigia uma corte à
prova de vícios graves, uma corte que representasse, toda ela, o símbolo da
idoneidade e da reputação ilibada. Só essa integridade à prova de dúvida
blindaria o STF da polarização destrutiva que hoje explica a cena política do
país. É essa aparência de integridade que o escândalo do Master põe em xeque,
ao expor pelo menos dois ministros da corte e constranger os demais.
E assim a corte se vê diante de uma encruzilhada. Corrigir
as falhas individuais de seus ministros parece, ao STF, representar um
movimento de risco: o de contaminar com a dúvida, aos olhos da opinião pública,
todo o passado recente de decisões do tribunal. A omissão com os erros é
tampouco uma solução: a cada nova informação comprometedora revelada, o
tribunal sofre mais, refém de seu problema estrutural mais difícil de resolver:
a confusão entre ministro e corte, entre colegiado e indivíduo.
ABSURDO HISTÓRICO
Pedido de arquivamento do caso das joias de Bolsonaro é
absurdo histórico
Causa estranheza que solicitação de Gonet tenha sido
divulgada quando veio à tona esquema mafioso do Master
O pedido foi entregue ao relator do caso, ministro
Alexandre de Moraes, um dos personagens do escândalo
É um absurdo histórico a decisão do procurador-geral da
República, Paulo Gonet,
de pedir ao STF o
arquivamento da investigação sobre as joias
árabes recebidas pelo ex-presidente Jair
Bolsonaro (PL).
Gonet resolveu que não havia nada e pronto. Ignorou tudo o
que a Polícia Federal comprovou. A fuga com as joias, as negociatas.
Bolsonaro simplesmente mandou um militar
pegar um avião da FAB e ir até o aeroporto para tentar ilegalmente retirar
joias de milhões de euros apreendidas pela Receita Federal. O ex-presidente
tentou vender no exterior outro estojo de presente —e que Michelle
Bolsonaro, inicialmente, declarou desconhecer, mas que recebeu no Palácio
da Alvorada.
Pelo menos sete militares tiveram protagonismo nas ações
ordenadas por ele para entrar ilegalmente com as joias e tentar reaver os itens
apreendidos.
Como justificativa, Gonet citou a ausência de normas sobre o
tema e decisões conflitantes por parte de órgãos de controle externo.
Normalizou uma ação criminosa.
Causa estranheza que o pedido de arquivamento da PGR tenha sido
divulgado no dia seguinte à segunda prisão de Daniel
Vorcaro e quando mensagens extraídas do celular do ex-banqueiro
mostraram o esquema mafioso do Master. O
pedido foi entregue ao relator do caso, o ministro do STF Alexandre
de Moraes. Ele que é um dos personagens da novela policial que virou o caso
Master, com novos capítulos todos os dias trazendo revelações surpreendentes
sobre a organização criminosa montada por Vorcaro.
Como já é conhecido, Gonet queria maior prazo para se
manifestar e não se posicionou sobre a prisão do ex-banqueiro e de outras três
pessoas. O procurador-geral errou, e a PGR passou um sinal de desesperança para
aqueles que esperam que não haja um acordão para abafar o maior escândalo
bancário do mundo.
Num país de memória curta, a família Bolsonaro e aliados do
ex-presidente, que atuam ferozmente para tirar proveito do caso, devem
explicações sobre as razões que levaram o regime da Arábia
Saudita a dar presentes tão valiosos.
TIRANDO O MELHOR DO NOSSO FRACASSO
Demografia já passou a jogar contra o enriquecimento do
Brasil
Ainda assim, tecnologias e avanços isolados poderão
melhorar qualidade de vida
Já me conformei a ver o Brasil como um suave
fracasso (a ótima expressão é do embaixador Rubens
Ricupero). O adjetivo "suave" é importante. É pouco provável que
o país se torne um Estado falido, a exemplo de Sudão, Haiti ou mesmo da
Venezuela, mas também me parece difícil que venhamos a dar o tão almejado salto
para o grupo de nações mais desenvolvidas. Esse é um bonde
que já perdemos. Se tivéssemos tomado decisões melhores algumas décadas
atrás, talvez tivéssemos conseguido, mas, agora, a demografia passa a jogar
contra. Envelhecemos antes de enriquecer.
Calma, daí não se segue que você precise
imitar Stefan
Zweig. Embora tenha ficado difícil acreditar no Brasil como "país do
futuro", nós ainda deveremos experimentar melhorias na qualidade de vida.
Avanços tecnológicos desenvolvidos mundo afora continuarão a ocorrer, se é que
não se multiplicarão. Muitos deles geram produtos que ampliam bem-estar,
saúde, educação,
segurança. Como sempre lembro aqui, o habitante médio do planeta hoje tem
acesso a muito mais confortos, prosperidade e informação do que um rei europeu
da Idade Média.
Mesmo no que depende só de nós, dá para melhorar. Talvez não
o bastante para entrarmos para a elite global dos países, mas o suficiente para
reduzir algumas das asperezas que empatam nossas vidas. A educação brasileira,
por exemplo, ainda é muito ruim, mas já não faltam vagas para crianças e
adolescentes dispostos a estudar.
Nossa infraestrutura ainda deixa muito a desejar, mas uma
linha telefônica não é mais um artigo de luxo que pessoas deixam como herança
para seus filhos. Em algumas poucas áreas, até conseguimos competir em
condições de igualdade com os melhores do mundo. Penso aqui em Embraer e
nos setores não arcaicos do agronegócio.
O estoicismo ensina que devemos nos contentar com aquilo que
a realidade nos impõe. Isso não significa aceitar tudo passivamente, mas
centrar nossos esforços só naquilo que está em nosso alcance modificar. Vamos
tentar tirar o melhor de nosso fracasso.
D. NORMA, A CULTA
Se esse menino Vorcaro tivesse estudado comigo, não
estaria passando vergonha ao ver expostas suas mensagens
D. Norma foi professora de português a vida inteira. Começou
por volta dos 4 anos de idade, corrigindo o irmãozinho caçula, que dizia “gugu
dadá” em vez de “Augusta, dê-me a mamadeira”. E não parou mais.
Estudou letras na época em que regência e concordância
ficavam no capítulo de sintaxe, não no de opressões linguísticas. Aposentada há
décadas, anda horrorizada com os zaps do Vorcaro.
— Se esse menino tivesse estudado comigo, não estaria
passando vergonha ao ver expostas suas mensagens. Que semântica bisonha! Que
vernáculo comezinho!
É que D. Norma é desconectada do mundo real e apegada a
tecnicalidades.
— Um enxovalho, uma ignomínia isso. Gastar
R$ 3,3 milhões em degustação de uísque em Londres para ministros da Justiça e
do STF, procurador-geral da República, diretor-geral da Polícia Federal,
presidente da Câmara e escrever para a consorte: “Todos ministros do brasil /
Do stf / Stj / Etc / E euzinho discursando”. Cáspite! Nome próprio e sigla de
três letras com minúscula! Omissão de artigo definido! Etc sem ponto! Com
efeito! E pronome pessoal no diminutivo? Isso é caso de CPI!
Outra coisa que a enerva sobremaneira é a falta de clareza:
– “Conseguiu ter notícia ou bloquear?”. Bloquear o quê, ou
quem? Que fim levou o objeto direto? Ter notícia do quê? Cadê o complemento
nominal? Um texto mal redigido pode levar a ilações, a interpretações
equivocadas. Por isso eu era intransigente nas aulas de análise sintática.
Ela tampouco se conforma com a pronúncia — incorreta, a seu
ver — do nome do finado esquema de pirâm..., digo, do finado banco.
— É mister que se corrija essa silabada! Se está escrito
Master, sem acento, então é oxítona, como colher, mulher, qualquer. Máster, em
português, é acentuada, assim como caráter, cadáver, líder.
— Mas é palavra estrangeira, D. Norma!
— Estrangeira para você, lusofalante ingrato! Meu país,
minhas regras ortográficas. O STF devia seguir o exemplo do Ministério Público
Federal em Minas Gerais e impor uma multa de uns R$ 130 milhões a quem
pronunciasse ou escrevesse errado.
Mas à noite, no aconchego da alcova, D. Norma liga o
celular, ganho do bisneto (“Não preciso disso, não vou usar essa tralha!”) e
revê, em loop (palavra que abomina), a festa de noivado do ex-banqueiro.
Deleita-se com as ruínas romanas, a pletora de velas, o piano suspenso, o
decote do noivo (mais profundo que o da noiva). E pranteia aquela face outrora
viçosa e bem tratada, agora relegada a água e sabão. Os cabelos um dia fartos e
embebidos em sândalo (fantasia dela), ora reduzidos a máquina 2. E a barba...
ah, a barba...
A barba de um homem é seu castelo. Mulheres mudam a cor e o
corte do cabelo, lapidam a sobrancelha, reforçam o carmim da boca, o rubor da
face — ao homem, resta a barba. Mulheres usam salto alto, vestido vermelho,
fenda, renda, espartilho — ao homem, resta a barba. Sem ela, o banquirroto lhe
parece zebra sem listra, unicórnio sem chifre, pavão depenado — não o magnata
que teve os três Poderes da República na algibeira.
Então estanca uma furtiva lágrima, limpa o histórico de
visualizações e, antes de dormir, vai ler uma ou duas páginas de Napoleão
Mendes de Almeida e meditar sobre o Código de Ética escrito pelo escritório
Barci de Moraes.
D. Norma é a única pessoa que entende os desvãos da alma
humana e a regra do hífen — mas não explica pra ninguém.
É PRECISO DEBATER A SÉRIO AS PRIORIDADES DOS ELEITORES
Segurança pública e corrupção são os temas que os
brasileiros escolheram como prioritários na largada da corrida eleitoral
A recém-divulgada pesquisa Quaest não deixa dúvidas.
Segurança pública e corrupção são os temas que os brasileiros escolheram como
prioritários na largada da corrida eleitoral de 2026. Economia corre por fora.
São três variáveis explosivas — e sob medida — para o ambiente político
calcificado, como conceituaram o cientista político Felipe Nunes, diretor da
empresa de pesquisa, e o jornalista Thomas Traumann, em “Biografia do abismo”
(Harper Collins, 2024). Pelo calendário do Tribunal Superior Eleitoral, a campanha
começa em 16 de agosto; de fato, mobiliza há tempos ruas e redes sociais. O
desafio aqui é radicalizar a qualidade do debate, em vez de ceder à banalidade
das posições de superfície, à moda “se você é sim, eu sou não”.
Um em cada quatro brasileiros (27%) está
preocupado com a violência, não sem motivo. Afinal, facções do tráfico de
drogas espalham-se pelo país; porções cada vez maiores das cidades estão sob
domínio de grupos armados; meninas e mulheres correm perigo em casa, na rua, no
ônibus, no elevador. O enfrentamento ao crime organizado é uma urgência, mas
não se faz isso reivindicando bombardeio dos Estados Unidos na Baía de
Guanabara, como, meses atrás, fez Flávio Bolsonaro, ora ungido pelo pai a
candidato ao Planalto. Tampouco estabelecendo uma gincana sobre que grupo
político tem mais quadros do Comando Vermelho, baixaria da semana na disputa
pelo Palácio Guanabara.
Por inércia ou má-fé, quem entra nesse jogo desrespeita o
eleitor. Está aí Donald Trump, campeão no voto popular e no colégio eleitoral,
com campanha xenofóbica, protecionista e imperialista. Prometeu tornar o
próprio país grande novamente, mas, desde empossado, aos olhos do mundo — e,
crescentemente, do próprio povo — apequenou-o. Entre bravatas e arroubos, impôs
ao planeta níveis recordes de desconfiança e instabilidade, sem melhorar as
condições de vida e segurança dos compatriotas.
Trump atacou o Brasil com tarifas e sanções a autoridades,
no ano passado. Agora, está sobre a mesa a classificação como terrorista de PCC
e CV, as duas maiores facções do tráfico de drogas no território nacional. Foi
a senha para opositores de Lula se posicionarem para atacar qualquer
argumentação contrária. Opor-se a uma intervenção dos Estados Unidos
flagrantemente contrária à legislação brasileira não é defender organizações
criminosas nem traficantes, mas alertar sobre efeitos colaterais tão indesejáveis
quanto duradouros.
Há risco à soberania quando outro país se atribui o direito
de intervir militarmente em nome de combate ao crime. Nem sequer há evidências
de eficácia. No fim dos anos 1990, os Estados Unidos classificaram como
organizações terroristas as Farc e o Hezbollah. Nem a Colômbia se livrou do
tráfico de drogas, nem o Líbano da milícia aliada do Irã, inimiga de Israel. À
possibilidade de intervenção armada, assinala um diplomata brasileiro, soma-se
aplicação de sanções econômicas, financeiras e diplomáticas. O representante de
um banco multilateral admite que operações com instituições multilaterais, como
Banco Mundial ou BID, podem se tornar “difíceis ou impraticáveis”.
O promotor Lincoln Gakiya (MP-SP), dedicado ao enfrentamento
ao PCC, alertou em entrevistas sobre as “implicações gravíssimas” ao Brasil: do
sigilo de operações antes compartilhadas na esfera policial a sanções
econômicas, restrição de operações financeiras e até fechamento de empresas
multinacionais. Risco alto para um país que está entre as dez (ou 11) maiores
economias do planeta, grande player global em exportações do agro, minério e
petróleo, potência ambiental.
De cada cinco eleitores brasileiros, um está preocupado com
a corrupção, decorrência da fraude bilionária do Banco Master. O hiperfoco está
em mal explicadas — quiçá inexplicáveis — conexões do controlador Daniel
Vorcaro com dois ministros do STF, Dias Toffoli e Alexandre de Moraes. A
pesquisa Quaest mostrou que 38% da população evitaria votar em candidato
envolvido com o caso; outros 29% levarão o assunto em consideração na corrida
eleitoral. Significa dizer que as investigações precisam tirar o véu que protege
parlamentares, autoridades nacionais e locais, num ano em que serão eleitos
presidente, governadores, senadores, deputados federais e estaduais. Há demanda
por transparência; não cabem dissimulação, generalizações nem falsas simetrias
nas atribuições de culpa. Nos contatos do banqueiro e sua rede, o Centrão
abunda.
Na economia, preocupa o poder de compra. O início do ano é
sempre período de pressão inflacionária. Neste ano, educação, passagens aéreas,
tarifas de ônibus machucam mais que os alimentos o orçamento das famílias. A
guerra dos Estados Unidos e de Israel contra o Irã é risco a mais para a
inflação global. Os impactos na indústria do petróleo alcançam combustíveis e
energia, frete e logística, aviação e seguros, fertilizantes. A taxa básica de
juros no maior nível em duas décadas anaboliza endividamento e inadimplência,
desidrata o consumo. O trabalho, informalizado, excessivo e mal remunerado,
exaure. Quem acode?
MALU GASPAR E O CASO MASTER
Ataques a jornalista são o que grupos feministas chamam
de ‘violência política de gênero’, e nenhum desses grupos a defendeu
Malu
Gaspar é até aqui a jornalista responsável pelas revelações mais
relevantes sobre o escândalo do Banco Master. Desde que passou a expor no GLOBO
as ligações do ministro do STF Alexandre
de Moraes e de sua família com o ex-dono do banco, Daniel
Vorcaro, tornou-se alvo de ataques abjetos, maciços e incessantes nas redes
sociais.
Pelo exercício de seu ofício, vem recebendo ameaças e
insultos que tentam constrangê-la e humilhá-la, muitas vezes com base em
referências a sua condição de mulher. Tais ataques configuram precisamente o
que grupos feministas chamam de “violência política de gênero”. Ainda assim,
nenhum desses grupos veio a público defendê-la. Nenhuma nota ou carta aberta —
nem mesmo um reles vídeo no TikTok.
Trata-se de silêncio que não se observou
quando outras igualmente valorosas profissionais da imprensa expuseram
malfeitos de bolsonaristas e foram por eles atacadas. Nesses casos, as
jornalistas receberam um uníssono coro de solidariedade vindo de coletivos
feministas e organizações de mulheres que não soltam a mão de ninguém e
consideram um ataque a uma jornalista mulher como ataque a todas as jornalistas
mulheres. Desta vez — em que o foco das reportagens é não um presidente de
direita, mas um juiz eleito herói da resistência pela esquerda —, porém, nenhum
desses grupos encontrou algo para dizer em defesa de Malu Gaspar.
Mais que não ser defendida, ela vem sendo atacada por
setores da esquerda. Militantes petistas pedem abertamente sua demissão, e
sites de esquerda estimulam a perseguição a ela (não por coincidência, alguns
desses sites figuram nos autos do inquérito Master como fregueses da
generosidade suspeita de Vorcaro, mas essa já é uma conversa que transcende a
hipocrisia ideológica — é assunto de polícia).
Dos teclados desses militantes saem as mais sórdidas fake
news — e também as mais hilariantes desculpas para o indesculpável (o troféu
cara de pau fica com a feminista que invocou o imperativo do respeito à
“independência profissional das mulheres” para justificar o contrato milionário
de Viviane de Moraes com Vorcaro, numa mostra de que, ao contrário de quase
tudo na vida, o cinismo e a capacidade de autoengano não conhecem limites).
Nada disso chega a surpreender. Historicamente, a esquerda
fundamentalista, sempre indulgente com modelos totalitários, não se vexa em
trocar seus alegados princípios pela proteção de seus vilões preferidos — como
podem confirmar, das profundezas do inferno, camaradas de mãos ensanguentadas e
um punhado de aiatolás recém-chegados. A mesma condescendência, essa esquerda
dedica a seus suspeitos de estimação.
Um ministro do STF tinha encontros recreativos com um
banqueiro adepto de práticas financeiras heterodoxas? Foi flagrado pela Polícia
Federal trocando mensagens com esse banqueiro no dia de sua prisão? Respondeu
com mensagem de visualização única à pergunta “Conseguiu ter notícias ou
bloquear”? Sua mulher tinha um contrato de R$ 130 milhões com o agora
ex-banqueiro-presidiário? Não tem importância. Salvo-conduto moral para os
heróis da turma, e que ardam nas redes aqueles que ousarem colocá-los sob má luz.
Foi o que fez Malu Gaspar como consequência de uma apuração
profissional rigorosa. A jornalista não precisa que ninguém a defenda — sua
trajetória e reputação cumprem com sobra esse papel. Mas é desolador constatar
que, para os fundamentalistas da esquerda brasileira, nas revoluções como nos
escândalos, princípios só valem quando servem para atacar o inimigo; é lícito e
legítimo linchar quem aponta o dedo para um aliado; e todos os fatos merecem
ser revelados, à exceção dos inconvenientes.
Ataques a Malu Gaspar são o que grupos feministas chamam de
‘violência política de gênero’, e nenhum desses grupos a defendeu.
sexta-feira, 13 de março de 2026
A SEXTA-FEIRA 13 DO SUPREMO
Julgamento de habeas corpus de Vorcaro pode assombrar o
STF por bastante tempo
A Segunda Turma do Supremo começa a julgar hoje o pedido de
habeas corpus de Daniel Vorcaro. A votação terá início numa sexta-feira 13, e
suas consequências podem assombrar o tribunal por bastante tempo.
O ministro Dias Toffoli, que negava proximidade com o
banqueiro, agora declarou-se suspeito e não participará do julgamento. Pode
parecer má notícia para Vorcaro, mas não é. Com um ministro a menos, ele passa
a precisar de apenas dois votos para sair da cadeia.
Quem acompanha a Corte de perto acredita
que Luiz Fux endossará a decisão de André Mendonça para manter o dono do Master
em cana. Resta a dúvida sobre os votos de Gilmar Mendes e Kassio Nunes Marques.
A defesa aposta nos dois para livrar o cliente da tranca e
autorizar seu retorno à prisão domiciliar. Nesse cenário, o bilionário trocará
uma cela de nove metros quadrados por um apartamento de alto luxo no Itaim
Bibi.
Ao ordenar a segunda prisão de Vorcaro, Mendonça escreveu
que ele comandava uma “estrutura de vigilância e coerção privada” comparável a
uma milícia. A Polícia Federal flagrou o banqueiro corrompendo agentes
públicos, ocultando patrimônio, mandando quebrar todos os dentes de um
jornalista e pedindo socorro a amigos influentes.
Em novembro passado, ele já havia sido capturado no
aeroporto de Guarulhos quando tentava fugir do país. O Brasil tem mais de 200
mil presos provisórios, e poucos devem ter dado tantos motivos para estarem no
xadrez.
Desde que Vorcaro foi recolhido a um presídio de segurança
máxima, o fantasma de uma delação premiada tira o sono de figurões da política
e do Supremo. A Corte não tem a quem culpar. Foi tragada para o escândalo por
ações e omissões dos ministros Dias Toffoli e Alexandre de Moraes.
Ninguém deve ser mantido no cárcere para delatar, mas uma
manobra para salvar o banqueiro passaria a mensagem de que o Supremo decidiu
ignorar fatos e provas para blindar seus próprios integrantes. No momento em
que a desconfiança no tribunal atinge níveis recordes, pode ser a senha para um
novo filme de terror.
10 MIL OU 10 MILHÕES DE MISÓGINOS ?
Misoginia de nicho não pode ser confundida com a de
massas
Dez mil ou 10 milhões de misóginos? A resposta importa, e
os dados disponíveis sugerem que estamos mais próximos do número menor
Após conhecermos os detalhes do brutal estupro coletivo em
Copacabana, descobrimos nesta semana que os estupradores parecem estar ligados
a grupos radicais masculinistas on-line (um dos jovens se entregou à polícia
com uma camiseta com frase do influenciador Andrew Tate). Descobrimos também
que, nesta semana, uma trend no TikTok, “Caso ela diga não”, viralizou
ensinando meninos a responder com violência física a mulheres que rejeitam suas
abordagens amorosas. Descobrimos também que essa trend faz parte de um conjunto
muito mais amplo de conteúdos misóginos on-line que registram mais de 3,9
bilhões de visualizações no YouTube. O estupro coletivo é, assim, visto como
fruto de campanhas de misoginia politicamente organizadas que atingem público
alarmante na internet.
É absolutamente natural o sentimento de
indignação quando vemos casos graves de violação de direitos humanos. O estupro
coletivo em Copacabana chocou e revoltou o país. Crimes como esse precisam ser
punidos, e novos casos impedidos. Para isso, precisamos entender exatamente a
natureza do que acontece, evitando que nossa indignação nos empurre para
diagnósticos e respostas apressadas e equivocadas.
O encadeamento de reportagens que levou ao diagnóstico da
proliferação em massa de conteúdos misóginos on-line é um exemplo desse tipo de
conclusão apressada que, em vez de ajudar a combater o problema, pode
agravá-lo. Se a misoginia organizada on-line não for tendência de massa, mas de
nicho, todo o estardalhaço que fizemos nesta semana pode dar visibilidade a
algo que deveria ser combatido nos bastidores.
Não devemos tratar da mesma maneira um mal que aflige
milhões de jovens e outro de nicho, com uma comunidade relativamente pequena de
milhares. Neste último caso, deveríamos evitar dar publicidade e fazer alarde,
como fazemos com os grupos terroristas que produzem atentados. Quando grupos
extremistas têm atuação limitada, a cobertura precisa evitar amplificar sua
relevância. A ação adequada é agir criminalmente contra os autores e alertar as
plataformas para retirar o conteúdo do ar.
Vale a pena refletir sobre o que aconteceu nesta semana. No
dia 8 de março, a Advocacia-Geral da União pediu à Polícia Federal abertura de
inquérito para apurar conteúdos com a trend “Caso ela diga não” que estimulavam
agressão a mulheres que rejeitavam abordagens amorosas. Esses conteúdos tinham
sido identificados em 2023 e não tinham sido excluídos pelo TikTok. Estavam
concentrados em poucos perfis e tinham acumulado cerca de 175 mil interações —
número expressivo em termos absolutos, mas limitado se comparado ao alcance de
ondas realmente virais.
A denúncia levou a várias reportagens que apressadamente
trataram esses conteúdos como se tivessem sido produzidos e viralizados
recentemente, e não revelaram que seu alcance era limitado. Algumas reportagens
usaram como contexto um estudo do NetLab da UFRJ apontando que canais misóginos
no YouTube acumulavam 3,9 bilhões de visualizações, sugerindo que a trend “Caso
ela diga não” poderia ser parte de um fenômeno muito mais maciço.
O estudo define misoginia como “ideologia que tem como base
o desprezo, o ódio, o controle e a aversão às mulheres”, é ligada à
“naturalização da superioridade e dominação masculinas” e expressa por ações ou
discursos de “controle, subjugação, desumanização ou violência contra
mulheres”. É um conceito amplo, amparado em literatura acadêmica, mas que reúne
comportamentos distintos, com graus muito diferentes de gravidade.
O conceito inclui sob um mesmo guarda-chuva o estímulo
explícito à violência contra as mulheres, a defesa de papéis tradicionais de
gênero (mulheres deveriam ficar em casa cuidando das crianças), a alegação de
que mulheres manipulam homens (“deixe de ser trouxa, elas sempre se aproveitam
de homem bonzinho”) e críticas ao feminismo (“mulheres usam o feminismo para
fazer falsas acusações contra homens de quem não gostam”).
Muitos estudos internacionais, para evitar chamar tudo isso
de misoginia, adotam tipologias que deliberadamente separam a misoginia
(violência dirigida à mulher) do machismo (defesa da superioridade masculina) e
da defesa de papéis de gênero mais tradicionais. A abordagem do NetLab está
associada a visões sustentando que tudo isso faz parte de uma mesma cultura
sistêmica e prefere não separar os comportamentos.
O estudo também conta todas as visualizações de canais para
as quais pelo menos três vídeos foram classificados como misóginos nesse
sentido ampliado. O número de visualizações soma todos os vídeos do canal, e
não apenas os considerados misóginos. O motivo provável é as pesquisadoras
acreditarem que, nos canais, os espectadores são levados de um tema a outro e
que a misoginia está integrada ao ecossistema. As opções metodológicas do
NetLab são sérias, documentadas e defensáveis, mas parte da cobertura jornalística
não apresentou as distinções, dando falsamente a entender que vídeos de
apologia da violência contra a mulher obtiveram 3,9 bilhões de visualizações no
YouTube.
Em algum momento esses descuidos com a datação e o alcance
da trend “Caso ela diga não” — associados à falta de explicação dos
pressupostos do estudo do NetLab — fizeram muita gente acreditar que grupos
organizados que pregam violência contra a mulher atingem milhões de jovens e
podem ser a causa provável de episódios como o estupro coletivo em Copacabana.
Esse diagnóstico equivocado levou a imprensa a dar enorme visibilidade pública
a um evento de alcance limitado, que deveria ser combatido com discrição, rigor
criminal e pressão sobre as plataformas — não com alarde. Dez mil ou 10 milhões
de misóginos? A resposta importa, e os dados disponíveis sugerem que estamos
mais próximos do número menor.
CONY AOS INCRIVÉIS 100
Ele via a morte como uma pândega. O homem que se dizia
terminal parecia cada vez mais inaugural
Ativo até o fim, aos 92 anos, Cony seria o primeiro a
desmoralizar o seu próprio centenário
Já contei esta história. Em 2012, coordenando um ciclo no
Sesi, em São Paulo, sobre o centenário de Nelson Rodrigues, convidei Carlos
Heitor Cony a participar de um dos debates. Cony, com 86 anos, tinha
um câncer linfático crônico, cujo tratamento lhe provocava um enfraquecimento
que o obrigava à cadeira de rodas. Mas sua cabeça continuava atilada,
surpreendente e com a molecagem intacta. Aceitou e tomou o avião no
Santos-Dumont.
Ao chegar de carro ao prédio da avenida
Paulista, onde se daria o debate, Cony foi recebido na garagem pelas moças da
produção. Elas o observaram ser descido a custo do veículo e colocado na
cadeira de rodas. Uma delas perguntou, aflita: "Está tudo bem, Dr.
Cony?". E Cony, grave, quase tumular: "Não passo desta noite".
Deu-se um alarido. Elas acreditaram e acharam que ele podia
morrer ali mesmo, na porta dos elevadores, ou no meio do evento. Uma quase
começou a chorar. Tive de me meter e dizer que Cony estava brincando, que
estava ótimo, nada aconteceria. E, de fato, não só nada aconteceu como Cony
roubou a noite na mesa do debate, usando Nelson Rodrigues como pretexto para
falar de jornalismo, censura, coragem, liberdade de opinião —o que, de certa
forma, era a história dele próprio.
Cony parecia ver a morte como uma pândega. Em começos dos
anos 90, recém-saído de um câncer de próstata mais do que resolvido, ele às
vezes aparteava a si próprio para dizer: "Você sabe, Ruy. Sou um homem
terminal". Minha ignorância a respeito de câncer me fazia achar que ele
estava falando sério. Mas os anos se passavam e o homem terminal parecia cada
vez mais inaugural. Em 1995, seu romance "Quase Memória", o primeiro
em mais de 20 anos de silêncio no gênero, devolveu-o com estrondo à literatura
e o fez atravessar, vivíssimo, as muitas noites de que dizia que "não
passaria".
Cony morreu em 2018, às vésperas dos 92 anos, ativo até
demais. Custo a crer que, neste sábado (14), ele faria 100. Por um motivo: Cony
seria o primeiro a desmoralizar o seu próprio centenário.
COMO SEMEAR VALORES CONTRA A BARBÁRIE
A escola deve semear o ideal de uma sociedade justa e
tolerante, gerando indivíduos que não excluam o diferente nem admitam a
desigualdade
Acompanhar o noticiário nas últimas semanas tem sido
desanimador. O ataque ao Irã mostra como o mundo se tornou incerto e perigoso
sob as novas regras estabelecidas por Trump e seus aliados, gerando um cenário
sombrio no curto prazo. No Brasil a situação não é muito melhor: a epidemia de
feminicídios tomou conta do país e as instituições políticas estão sob suspeita
desde a eclosão do caso Master. É muito difícil lutar contra o imperialismo
trumpista, mas é possível, em alguma medida, atuar sobre os valores que
alimentam a barbárie brasileira. Para isso, uma via essencial é a educação,
tomada como instrumento formador das pessoas desde a tenra idade.
Desde a Independência até a
redemocratização recente, o Brasil escolheu uma via educacional elitista e
excludente. Os altos índices de analfabetismo, a enorme reprovação e evasão dos
alunos mais pobres, bem como uma alocação pequena de recursos para a educação
básica, marcaram nossa trajetória histórica. O país escolheu um modelo de
desenvolvimento e, por que não dizer, de civilização no qual ensinar saberes e
valores à maioria das crianças e jovens brasileiros não foi prioridade.
A partir da Constituição de 1988, e por meio de uma série de
reformas por mais de três décadas, houve uma mudança de patamar educacional. A
educação virou um direito de todos, o que gerou a universalização do
fundamental I. Ainda houve uma expansão enorme dos jovens formados no ensino
médio e a inclusão de populações que sempre estiveram fora da escola, como
indígenas, quilombolas e crianças com deficiências. Também ocorreu uma maior
profissionalização dos profissionais e dos instrumentos de gestão, especialmente
nos campos do financiamento e avaliação.
Os avanços são expressivos quando comparados ao passado do
país, porém, há muitos problemas e carências na educação básica brasileira. O
aprendizado das crianças tem melhorado nos anos iniciais, mas a partir do
fundamental II os resultados se tornam bem fracos, o que fica mais visível pelo
baixo desempenho na avaliação internacional mais relevante, o Pisa (Programme
for International Student Assessment), realizado por adolescentes de 15 anos de
idade. Além disso, ainda há uma evasão significativa no ensino médio e muita
desigualdade entre os estudantes em todas as etapas educacionais.
É preciso que o país garanta o aprendizado para todos, sem
exceção, obviamente com prioridade pedagógica para o alunado advindo das
famílias e grupos sociais mais vulneráveis. Essa é uma tarefa essencial para o
futuro do Brasil e que deve ser encampada por todos os concorrentes às eleições
de 2026, por meio de propostas baseadas em evidências e experiências
bem-sucedidas, e não se utilizando de ideias equivocadas e eivadas de
preconceitos, como o homeschooling ou a escola cívico-militar.
Só que o desafio educacional vai além da aprendizagem das
disciplinas básicas: é por meio do processo educacional que os valores mais
profundos são construídos na população infantojuvenil, com impacto sobre toda a
vida. Não se trata de pensar numa dicotomia entre esses dois objetivos. Ambos
devem estar interligados num modelo de educação integral, que desenvolve um
conjunto múltiplo de saberes, competências e princípios éticos. Os indivíduos
formados pelas escolas serão os adultos do futuro em todas as dimensões, como
profissionais, cidadãos e pessoas com talentos diversos.
A escola deve semear o ideal de uma sociedade justa e
tolerante, gerando indivíduos que não excluam o diferente nem admitam a
desigualdade que inviabiliza a liberdade de escolha e a dignidade básica de
grande parte da população. As organizações educacionais precisam alimentar
sonhos de um mundo melhor do que o atual, construir princípios de convivência
solidária e alavancar talentos múltiplos em cada estudante. O prazer de saber
que há muitas possibilidades de felicidade e que os jovens de hoje podem influenciar
a transformação da realidade daria outro sentido à vida escolar.
Todo esse desenvolvimento integral, como mostra a ciência
contemporânea, deve começar na formação da primeira infância (de 0 a 6 anos de
idade), quando as crianças estão formando a maior parte de sua capacidade
neuronal e têm suas primeiras experiências de socialização para além de casa.
Depois isso se segue por toda a vida escolar, culminando com o ensino para uma
juventude aberta à diversidade de caminhos individuais e coletivos de
construção do mundo adulto.
Esse processo educacional de cultivar valores profundos
contra a barbárie deve andar lado a lado com o aprendizado de saberes básicos,
podendo inclusive ser uma alavanca para que alunos e professores gostem mais da
escola e comemorem, ao final, melhores resultados em testes padronizados e
vestibulares. O sonho de uma escola melhor passa a ser aquela em que todos os
estudantes aprendem, tendo um processo de ensino que leve em conta as
especificidades de cada um na aquisição do saber, e no qual a educação seja a
semente principal de valores em prol de uma sociedade melhor.
O que se propõe aqui, portanto, é mudar o olhar sobre o
papel da educação. Para mobilizar a sociedade em torno de uma política
educacional melhor, deve-se ter um sonho que conjugue aprendizado múltiplo e
para todos com a produção de valores profundos contra a barbárie e as
desigualdades brasileiras. Se todos ficamos indignados com o noticiário recente
é porque, de um modo ou de outro, queremos algo que alavanque profundamente a
transformação dessa realidade inaceitável.
A epidemia de feminicídio que horroriza boa parte da
sociedade é fruto de um processo longo de construção de valores. Há muitos
lugares em que as noções machistas e misóginas se alastram pela cabeça dos
meninos, como as perversas redes sociais - que deveriam ser expressamente
proibidas até os 16 anos de idade, como decidiu recentemente a Austrália - e,
infelizmente, as famílias, especialmente pelos homens que as compõem, eles
próprios resultado de uma sociedade historicamente patriarcal e violenta.
A educação tem de entrar nesse jogo como um instrumento de
construção de outros valores nos meninos, desde a tenra idade. O assassinato
cruel de mulheres pode ser combatido se a escola mostrar que a singularidade e
a autonomia de cada gênero deve ser um convite para o aprendizado conjunto -
cada um saber a dor e a delícia de ser o que é, como já diria Caetano. O mundo
é maravilhoso quando há diferenças e a partir delas produzimos formas de
comunhão, sem tiranizar ou hierarquizar a relação entre as pessoas.
O processo educacional pode engendrar valores contra a
barbárie em outras questões, como a pedofilia, o racismo, o capacitismo, a
indiferença em relação aos mais pobres, o narcisismo exacerbado que procura
sucesso nas redes sociais, o ódio crescente contra o outro, para ficar em
temas-chave. Obviamente a educação tem limites e há forças sociais com
enraizamento mais profundo que não desejam um modelo mais tolerante e
igualitário de sociedade. Mesmo assim, a escola tem de ser responsável pela
apresentação de valores distintos da violência escravocrata e do
patrimonialismo de castas que continuam marcantes no Brasil.
Tal tarefa de combate aos substratos de barbárie da
sociedade brasileira passa muito pela escola pública, por conta de seu alcance
populacional, contudo também deve ser um objetivo das instituições privadas de
elite. Nelas, estudaram muitos dos que comandam o país, no setor público e
privado. Evidentemente que uma parte importante desse grupo tem contribuído
para melhorar o Brasil nas últimas décadas. Só que outra parcela, com tamanho e
influência bastante significativos, tem tido o papel de reforçar o sentimento
de casta privilegiada, que é superior e tem “mais direitos” do que o restante
da população. Pior: esse grupo crê na legitimidade de seu espaço VIP frente ao
conjunto da cidadania, e tem lutado contra formas de democratização de
oportunidades e poder que têm ocorrido na sociedade brasileira.
Os monstros do feminicídio e os defensores da casta
superior, em suas versões de mercado e no poder público, já são, na maioria,
adultos que a educação não tem mais como recuperar. Mas, ao se propagar em voz
alta que as escolas podem transformar radicalmente os valores da barbárie à
brasileira junto às crianças e jovens, é possível constranger os grupos sociais
que degradam o modelo civilizatório do país. A força desse processo, de todo
modo, tem limites, inclusive na forma autoritária que vigora em muitas famílias
ou na fragilidade de laços que compõem parte do tecido social do Brasil.
Uma resposta complementar talvez esteja no reforço de outras
instâncias ou organizações da sociedade, que deveriam ser locais para se
discutir os valores que possam evitar o feminicídio, a ascensão do banqueiro
cangaceiro, a defesa do burocrata que não quer ser transparente perante os
cidadãos, o discurso preconceituoso contra os mais vulneráveis e o ódio contra
quem pensa diferente. Tais lugares deveriam, à maneira das escolas, ser espaços
que possibilitem a reflexão sobre a formação dos valores que produzem o
noticiário indigesto a todos. Precisamos conversar mais, de forma tolerante,
sobre os efeitos de nossos princípios sobre a barbárie que nos aflige, num
processo de aprendizado permanente.
*Fernando Abrucio, doutor em ciência política pela
USP e professor da Fundação Getulio Vargas.
MORRE SÔNIA BRAGA
Morre Sônia Braga, militante histórica do PT no Ceará
A morte da dirigente provocou manifestações de pesar entre
lideranças políticas e movimentos sociais da própria sigla.
Militante do Partido dos Trabalhadores (PT) no Ceará, Sônia
Souza do Nascimento Braga, morreu nesta sexta-feira (13), em Fortaleza,
após enfrentar uma batalha contra o câncer. Descrita por colegas como militante
histórica da legenda, Sônia atuava nas lutas populares, especialmente na defesa
da agricultura familiar e das políticas de habitação. Ao longo dos anos ocupou
cargos importantes no partido, como a presidência estadual do PT no
Ceará e a Secretaria Nacional de Organização da sigla.
Formada em gestão pública, também atuou como diretora do
Instituto Agropolos do Ceará e teve atuação direta na organização partidária e
na mobilização da base cearense, participando da coordenação de processos
eleitorais e da articulação política nacional da legenda.
A morte da dirigente provocou manifestações de pesar entre
lideranças políticas e movimentos sociais da própria sigla. Nas redes sociais,
o deputado federal José Guimarães (PT-CE), líder do governo na Câmara e amigo
pessoal de Sônia, destacou a trajetória de luta de Sônia.
“Aprendi com a Sônia os valores mais humanos, estive ao lado
dela nas lutas travadas na política e na vida. Me orgulho de durante tantos
anos ter sido seu parceiro em momentos bons e ruins. Sônia deixa um legado
imensurável não só na militância no PT do Ceará”, escreveu o parlamentar.
Além de Guimarães, outras entidades e lideranças ligadas ao
partido também divulgaram notas de solidariedade. A Executiva Nacional do PT
afirmou que Sônia foi uma das responsáveis pela construção e fortalecimento da
legenda no Ceará e no Brasil. Em nota, o partido ressaltou que a trajetória da
dirigente se confunde com a própria história de luta do PT pela democracia,
pela justiça social e pelos direitos do povo trabalhador.
O presidente nacional da sigla, Edinho Silva, também
manifestou pesar pela morte da dirigente e destacou o papel que ela desempenhou
na estruturação interna do partido. A Central Única dos Trabalhadores (CUT)
também lamentou a perda e prestou solidariedade à família e amigos.

















