domingo, 15 de março de 2026

ÁGUAS DE MARÇO

Bookmark and Share

sábado, 14 de março de 2026

O QUINTAL SOB VIGILÂNCIA

Jamil Chade, CartaCapital

Trump dá curso à ofensiva pela militarização da América Latina

O governo de Donald Trump deu os primeiros passos para implementar uma estratégia deliberada de militarização do continente, incentivado pelo êxito do sequestro de ­Nicolás Maduro e o controle do governo venezuelano. O anúncio da ofensiva regional não poderia ter ocorrido em outro lugar a não ser na Flórida, bunker da extrema-direita latino-americana e foco da busca dos republicanos pelo voto latino.

Trump interrompeu sua agenda bélica no Irã para encontrar líderes do continente e lançartr o “Escudo das Américas”. Oficialmente, trata-se de uma aliança entre Washington e uma dezena de países da região, entre eles Argentina, Chile, Paraguai e Panamá. Na prática, o “Escudo” representa uma subordinação ao poderio militar dos EUA. O republicano não escondeu, em seu discurso, sua disposição de alocar mísseis e usá-los, se necessário.

Se a aliança foi estabelecida para lutar contra o narcotráfico na região, vozes do governo brasileiro destacam que esse argumento parece frágil quando se nota que nem Colômbia nem México, dois dos centros de atuação de grupos criminosos, foram convidados ou consultados.

A ofensiva da Casa Branca ainda inclui a classificação de facções criminosas, ao estilo do PCC e do Comando Vermelho, como grupos terroristas, o que abriria caminho para o governo Trump “justificar” eventuais operações em território brasileiro. Mais de uma dezena de organizações criminosas da região ganharam esse status.

Observadores e diplomatas destacaram, porém, que a iniciativa parece o início da tradução, na prática, das políticas enumeradas nos documentos sobre estratégia de defesa nacional divulgados no fim de 2025 por Washington. A ambição declarada da Casa Branca era criar um arcabouço político que pudesse frear o avanço chinês na região. Para isso, a militarização do continente era um dos pilares.

Um dos acordos nessa direção foi assinado com o Paraguai. Pelo tratado, os EUA ficam autorizados a estabelecer uma base militar no país sul-americano. Os termos do tratado ainda revelam o grau de submissão do governo de Assunção. Pelo entendimento, se um integrante das forças armadas norte-americanas violar a lei paraguaia, poderá ser julgado apenas em seu próprio país e só obedecerá às ordens de seus comandantes. Militares e civis entrarão em território paraguaio com imunidade total, o que lhes permite portar armas e burlar os controles locais. Também não pagarão impostos ou taxas.

Outro campo de testes passou a ser o Equador, destacado pelo Secretário de Guerra, Pete Hegseth, como um dos focos norte-americanos. Um dia antes do encontro na Flórida, os dois países realizaram, pela primeira vez, ataques coordenados contra grupos do narcotráfico, inclusive na selva amazônica. Em fevereiro, representantes das forças navais dos dois países realizaram uma rodada de negociações em Quito. O objetivo é traduzir as políticas de segurança em ações concretas por meio do compartilhamento de informações, planejamento conjunto e metas mensuráveis em segurança marítima.

Além da militarização, a ofensiva inclui “cenouras”. Ou seja, benefícios para determinados setores. No caso do Equador, o governo de Quito está prestes a fechar um acordo comercial com os EUA para ampliar as exportações. “Esse acordo representa uma nova plataforma para promover a prosperidade. Sua rápida entrada em vigor ajudará a expandir e diversificar o comércio e o investimento bilaterais para o benefício mútuo de ambos os países e seus povos”, afirmou Jamieson Greer,­ representante de Comércio dos EUA.

Argentina, El Salvador e Guatemala também assinaram acordos comerciais que vetam esses países de fazer certos negócios com a China. Em alguns deles, os governos locais se comprometem a não entrar em tratados de cooperação espacial com Pequim.

Analistas alertam, porém, para o fato de que essa reocupação geográfica pode ser mais difícil do que se imagina. O governo chinês criou uma “força-tarefa” para tentar preservar sua posição diplomática na região e antecipar ações dos EUA.

A realidade é que deslocar o dragão chinês pode não ser uma tarefa das mais simples. O comércio da China com a região atingiu o recorde de 518 bilhões de dólares em 2024, com Pequim emprestando mais de 120 bilhões a governos no Hemisfério Ocidental.

Os chineses contam com o apoio de uma extensa rede portuária, com mais de três dezenas de portos, mais infraestrutura espacial do que qualquer outra região do mundo fora da China continental, e a empresa estatal Huawei se inseriu em ao menos uma dúzia de redes de telecomunicações em toda a região. Em 2025, mesmo com toda a ofensiva de Trump, o comércio entre a China e a América Latina cresceu 7%. A disputa pela região está em curso. •

Publicado na edição n° 1404 de CartaCapital, em 18 de março de 2026.

Bookmark and Share

TRANSLÚCIDA


Sebastião Reis Júnior (Editor), Rodrigo Haidar (Editor), Amazon

Translúcida -Composto de 45 imagens de presas transexuais fotografadas pelo ministro Sebastião Reis Junior, do Superior Tribunal de Justiça, o livro traz 42 textos e 4 ilustrações que têm, como objetivo central, provocar um debate sobre direitos humanos, cárcere e o direito à própria identidade. As fotos foram tiradas pelo ministro no Centro de Detenção Provisória Pinheiros II, em São Paulo.

Pessoas com diferentes formações – como profissionais do Direito, militares, médicos e artistas – aprofundam a reflexão sobre direitos humanos por meio de múltiplas linguagens, expressando-se da forma como quiseram. O livro, assim, combina as fotos com cartas, ilustrações, contos, poesias e ensaios.

“Não é um livro de fotos. Também não é um livro que se limita a discutir a questão prisional. É muito mais do que isso. As fotos serviram para provocar, para falarmos sobre algo que não pode ficar escondido atrás dos muros de uma prisão, nem embaçado por preconceitos e mentiras. Temos que falar abertamente sobre as pessoas transexuais. Não só das presas, mas de todas que estão ao nosso redor, com quem convivemos no dia a dia”, enfatiza o ministro na apresentação da obra.

Visitar presídios é algo que faz parte da rotina do ministro Sebastião. Ministro da 6ª Turma e da 3ª Seção do STJ, que julga Direito Penal, ele acredita que todo juiz tem de saber para onde vão as pessoas que ele sentencia. Sem conhecer a realidade, impossível julgar com Justiça. Fotógrafo, o ministro passou a pedir autorização dos presos para retratá-los. E assim surgiu a ideia central de Translúcida.

Esta segunda edição, revista e ampliada com novos textos e fotos, tem prefácio de Renan Quinalha, professor de Direito da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), onde coordena o Núcleo TransUnifesp. Também é editor e colunista da seção Livros e Livres, dedicada à Literatura LGBTI+ na Revista 451 e Presidente do Grupo de Trabalho de Memória e Verdade LGBTQIA+ do Ministério de Direitos Humanos e Cidadania (MDHC).

Nas palavras do professor Renan Quinalha, para quem atua na área jurídica e de direitos, Translúcida é uma obra fundamental, quase um memorial: "Ela nos obriga a sair da abstração das teses e a encarar a realidade material. A Justiça só será justa quando enxergar a humanidade por trás da cela, por trás do preconceito, e atuar ativamente para que a translucidez dos muros se transforme na transparência da igualdade e do respeito".

"Pessoas trans e travestis, em geral, convivem com diferentes tipos de vulnerabilidades. As violências se iniciam no seio de suas famílias, que tendem a não reconhecer ou aceitar sua identidade de gênero. São evadidas das instituições de ensino em decorrência da discriminação transfóbica, são alijadas do mercado de trabalho formal e, no geral, encontram na prostituição compulsória o modo de sobreviver".
ERIKA HILTON

Bookmark and Share

FRACKING DE LIQUIDEZ

Luiz Gonzaga Belluzzo e Manfred Back, CartaCapital

Em meio a crédito privado duvidoso, bolha de IA e medo crescente, fundos restringem resgates nos EUA

Uncle Sam tem seus dias de desconfiança no crédito privado, lá como cá.

Uma decisão da Black­Rock suscitou nossa ousadia de recorrer à analogia entre o ­fracking e a química dos mercados financeiros. O fracking quebra a rocha para liberar gás de xisto. Os três ingredientes-chave – água, areia e produtos químicos – são misturados e bombeados para o poço sob pressão extremamente alta, por meio de grandes motores a diesel.

Fracking na rocha negra, vulgo ­BlackRock, quebrou a rocha e não liberou o dinheiro. Para liberar gás de xisto injeta água, areia e produtos químicos. Para não liberar liquidez aos investidores, misturam-se crédito privado duvidoso, a bolha de IA e o medo. O que funciona na química mineral, não funciona na química dos ativos financeiros.

Conhecem aquela frase famosa antes do estouro da bolha subprime: “muito grande para quebrar”? Até a rocha negra mais resistente tem suas fissuras de 26 bilhões de dólares. Fundo que proíbe resgate entra em cracking. Pasmem, a BlackRock proibiu! Seus investidores ficaram sem gás, sem seu precioso dinheiro. Quanto maior o ativo, maior a queda.

Segundo a Bloomberg: o HPS ­Corporate Lending Fund, que reúne 26 bilhões de dólares, e é um dos maiores portfólios de crédito, em empresas em desenvolvimento, não negociado em bolsa, informou em comunicado nesta sexta-feira que os cotistas solicitaram o resgate de 9,3% de suas participações. A ­administração decidiu limitar as solicitações a 5%. Embora o valor total fosse de perto de 1,2 bilhão de dólares, segundo cálculos da Bloomberg, os investidores receberão de volta em torno de 620 milhões que o fundo detinha no fim do ano.

Jamie Dimon, o todo-poderoso ­chairman do J.P.Morgan, avisou: “Quando você vê uma barata, provavelmente há mais”, para alertar sobre riscos ocultos e falhas no mercado de crédito privado e bancos regionais dos EUA. E as baratas chegaram no fundo da BlackRock. Uma das três maiores gestoras de ativos no mundo restringiu o resgate. Where is the money?

Quando a roda-gigante dos preços dos ativos gira ao contrário, temos a tal desalavancagem. Deságio na precificação dos ativos financeiros, variação patrimonial negativa, o fundo encolhe, o dinheiro do investidor some. Lembramos aos nobres leitores que, ao pedir resgate de um fundo, o administrador é obrigado a vender o ativo. Se muitos investidores tomam a mesma decisão, há uma venda maciça do ativo, queda expressiva do seu valor, a riqueza diminui. Esse fundo não era negociado em Bolsa, portanto, tem liquidez limitada. Assim, é dever da BlackRock garantir sua liquidez. Vários outros fundos de crédito privado sofreram corridas para resgatar.

“Os fundos de crédito privado, em geral, estão se preparando para uma onda de pedidos de resgate, à medida que crescem a preocupação com as práticas de empréstimo do setor e a exposição a empresas que podem ser impactadas pela Inteligência Artificial.” (Bloomberg)

Executivos da HPS Investment Partners­, adquirida pela BlackRock, afirmaram, após a queda das ações na Bolsa americana, que a medida de restringir os resgates ajudaria o fundo a investir em oportunidades de investimento atraentes em meio à incerteza e volatilidade. Você acredita?

Dinheiro é um bicho altamente sensível e nervoso, qualquer perturbação e quebra de confiança todos correm atrás dele. Nessa hora, é a preferência pela liquidez, tradução: quero meu dinheiro.

Os fundos de crédito privado, em geral, estão se preparando para uma onda de pedidos de resgate

Na toada de 2023, Jason Calacanis, um proeminente empresário e investidor da internet, apertou o botão do teclado e twittou­ um aviso sobre o colapso do ­Silicon Valley Bank: “Você deve estar absolutamente aterrorizado agora – essa é a reação adequada a uma corrida bancária e ao contágio. Isso vai se transformar em caos”.

A rápida queda do banco regional do setor de tecnologia derrubou os costumes no Vale do Silício. Investidores como Calacanis, que normalmente repreendem os reguladores por sufocar a inovação, voltaram-se para Washington em sua hora de necessidade. A maioria alertou para graves repercussões, caso os depositantes percam o acesso permanente ao seu dinheiro.

As angústias de Calacanis trazem à memória os temores de um experiente administrador de fundos, em meio à tormenta do subprime, a Grande Recessão de 2008/2009: “Quando todos à sua volta estão fazendo negócios à velocidade do raio, é incrivelmente fácil ser carregado pela onda de otimismo e fazer coisas das quais você vai se arrepender. Nesses momentos, a atitude mais corajosa é não fazer nada”.

David Sacks, sócio-gerente da empresa de capital de risco Craft Ventures, que assim como Calacanis é um associado próximo de Elon Musk e tem muitos seguidores no Twitter, alertou para novas corridas aos bancos. “Transfira os fundos do SVB para um dos quatro maiores bancos”, ele tuitou. “Faça isso antes da abertura do mercado na segunda-feira, ou haverá contágio e a crise se espalhará.” Investidores como o empreendedor e investidor de tecnologia Jason Calacanis­, que geralmente reclamam de ser sufocados pela regulamentação, recorreram a Washington após o colapso do SVB. Seus apelos surtiram efeito.

Dois dias após a Corporação Federal de Seguro de Depósitos (FDIC) assumir o controle dos ativos do banco, o Tesouro, o Federal Reserve e a FDIC anunciaram que os depositantes teriam acesso a todo o seu dinheiro na manhã de segunda-feira. O alívio, no entanto, foi atenuado pelas críticas ao papel desempenhado por alguns investidores de capital de risco na crise do SVB. Quando as preocupações com o balanço patrimonial do SVB aumentaram na semana passada, empresas de capital de risco, incluindo o Founders Fund de Peter Thiel, incentivaram as empresas de seu portfólio a agir em seu próprio benefício e retirar seus fundos. Isso contribuiu para desencadear uma corrida aos bancos. Existe uma acusação mais ampla de hipocrisia em relação a alguns dos investidores de capital de risco que se opõem à regulamentação governamental da tecnologia, mas exigiram que os reguladores interviessem para ajudar os depositantes do SVB. Recorrer à internet para pedir apoio “foi um momento de ‘ateu em uma trincheira’”, disse um executivo de um fundo de capital de risco, que zombou da conversão de seus colegas.

My friend, a rocha negra virou areia. Desconfie de fundos que restringem resgates. 

Publicado na edição n° 1404 de CartaCapital, em 18 de março de 2026.

Bookmark and Share

LULA: LÍDER, MAS SEM PAZ

Renato Meirelles, CartaCapital

A força eleitoral do presidente convive com um desejo relevante de mudança

pesquisa Meio/Ideia de março traz um retrato incômodo para quem torce por respostas simples. Lula lidera, segue competitivo e continua como o nome mais forte do campo governista. Mas isso não significa que tenha convencido o País de que sua permanência é a escolha natural. Ao contrário. A força eleitoral do presidente convive com um desejo relevante de mudança. E exatamente dessa tensão nasce o paradoxo do momento.

O dado mais importante da pesquisa não é apenas a intenção de voto. É o fato de que 50,6% dizem que Lula não merece continuar, contra 46,7% que defendem sua permanência. Em paralelo, a maneira como ele exerce a Presidência é desaprovada por 50,5% e aprovada por 47,2%. Isso não desenha um governo derrotado. Mas desenha, sim, um governo em disputa, que não conseguiu transformar a condição de incumbente em sensação majoritária de recondução.

Ainda assim, Lula continua à frente. Na espontânea, aparece com 33,4%, enquanto Flávio Bolsonaro marca 18,5%. Num eventual segundo turno entre os dois, Lula tem 47,4% contra 45,3% do adversário. O retrato é claro: o presidente segue na dianteira, mas sem margem para soberba. Está na frente, mas não está folgado. É favorito, mas não está protegido.

O que explica isso? A primeira resposta é que o eleitorado não julga governo pela planilha de Brasília. Julga pela vida real. O Locomotiva tem mostrado isso há bastante tempo. Quando a conversa sai da abstração e entra no cotidiano, o julgamento político passa pela feira, pelo medo de sair à noite, pela fila do atendimento e pelo aperto para fechar o mês. O eleitor não mora no dado macroeconômico. Mora no boleto.

É aí que os sinais de alerta aparecem com força. A pesquisa mostra que a segurança pública é hoje a área mais mal avaliada do governo, com 54,3% de ruim ou péssimo. Saúde também aparece como ponto de pressão, com 41,5% de avaliação negativa nessa dimensão. Esses números permitem entender por que a melhora de ambiente econômico, sozinha, não reorganiza o humor do eleitor. Quando a sensação de desordem continua alta, a reeleição deixa de ser um prêmio natural e vira uma prova oral diante do País.

Existe, porém, um lado positivo para Lula que não pode ser subestimado. Mesmo sob desgaste, ele preserva densidade eleitoral. Continua a ser o nome mais presente na memória do eleitor e o polo mais robusto do seu campo. Além disso, a oposição ainda não encontrou um caminho de unificação fora do sobrenome Bolsonaro. Isso é decisivo. Porque o presidente não enfrenta uma alternativa ampla, nova e consensual. Enfrenta um adversário competitivo, mas carregado de rejeição e de memórias intensas.

A pesquisa mostra ainda que a disputa deixou de ser apenas partidária. Ela ganhou um componente institucional muito forte. Entre quem conhece o caso Master, 70% dizem que o STF perdeu credibilidade. E 44% afirmam que teriam mais chance de votar para o Senado em alguém que defendesse o ­impeachment de ministro do Supremo. Some-se a isso o fato de que 54% dizem não acreditar que Jair Bolsonaro tenha planejado um golpe. O resultado é um ambiente no qual o discurso antissistema ganha oxigênio, e isso tende a favorecer a oposição.

Esse talvez seja o ponto mais sensível para Lula. Se a eleição fosse apenas comparação entre biografias, experiência e memória social, ele entraria com mais conforto. Mas a pesquisa sugere outra coisa: há um pedaço importante do eleitorado querendo menos debate ideológico e mais demonstração de comando, ordem e capacidade de fazer a vida voltar a caber dentro do dia. Quando a campanha passa a ser lida por essa régua, a vantagem de quem governa diminui, pois o governo responde pelo que prometeu e pelo que ainda não entregou na percepção dos eleitores.

Minha conclusão é que Lula chega forte, mas vigiado. Tem ativo eleitoral, tem recall, tem base social e segue plenamente no jogo. Mas carrega um problema que não pode ser maquiado: sua liderança ainda não virou tranquilidade. A reeleição é possível, e até plausível. Só não será um passeio.

O erro do campo governista seria achar que estar na frente basta. Não basta. E o erro da oposição seria imaginar que o desgaste de Lula, por si só, entrega a eleição. Também não entrega. O que a pesquisa mostra é um país que ainda reconhece em Lula estatura competitiva, mas que continua cobrando uma resposta mais convincente para a vida concreta. Em 2026, não vence apenas quem tiver mais estrutura partidária ou mais barulho de militância. Vence quem parecer mais capaz de organizar o cotidiano de um Brasil cansado de promessas e com pressa de alívio. •

Publicado na edição n° 1404 de CartaCapital, em 18 de março de 2026.

Bookmark and Share

A POLÍTICA COMO VOCAÇÃO

Marcus Pestana, Congresso em Foco

Volta e meia, há uma forte onda antipolítica que ameaça contaminar a alma da sociedade brasileira. Tivemos as decepções no afastamento de Collor e Dilma e as manifestações de rua difusas de insatisfação em 2013. A eleição disruptiva de 2018, fruto das revelações da Lava Jato e da criminalização da política, patrocinou um vendaval de contestação, com a ascensão de outsiders que encarnaram o repúdio ao que foi apelidado de “velha política”. E aí, uma nova safra de frustrações veio ao se constatar que o novo não era tão novo e que tudo que é novo não necessariamente é bom, unicamente por ser novo.

Agora, a crise envolvendo o Banco MASTER coloca em xeque novamente a estrutura do poder e as instituições republicanas, com denúncias que alcançam de A a Z nos mais diversos segmentos do espectro ideológico e engolfa setores dos três poderes da República.

Democracia implica em um governo em que o povo exerce a sua soberania através de dirigentes e representantes eleitos pelos cidadãos em eleições livres. O Estado, peça central na vida do País, conduzido pela força política conjunturalmente majoritária, sob o olhar e a ação plural do Congresso, e restringido pelas leis e pela ação do sistema judiciário, precisa de legitimação permanente junto à sociedade. Afinal a vitória eleitoral não concede uma procuração em branco para o governo. São os desafios dessa invenção humana chamada democracia – o melhor caminho descoberto para arbitrar conflitos de ideias e interesses presentes na sociedade. As ditaduras espalhadas pela América Latina, Ásia, África e Oriente Médio não enfrentam estes dilemas.

Ao andarmos pelas ruas e convivermos em ambientes comunitários, fora das bolhas militantes e apaixonadas, é fácil perceber crescente desalento e falta de esperança, em pleno ano eleitoral. Isto sempre ocorre quando o sistema político deixa de gerar respostas eficientes para as angústias e os problemas do povo e a corrupção se alastra.

Max Weber, em seu clássico texto “A política como vocação”, demonstra como a legitimidade do poder nasce ou da tradição ou do carisma ou da legalidade. Quando as boas tradições são abandonadas, as lideranças não exercem carisma que seduza a população e a legalidade é vista como mar de interrogações, graças a má conduta de líderes das instituições republicanas, se forma o caldo de cultura da antipolítica, gerando riscos imponderáveis. Weber identifica como qualidades dos líderes políticos a paixão, a responsabilidade e o senso de proporção. Quando elas vão pelo ralo, é natural o aparecimento de um abismo entre cidadãos e elites no poder. Desaparecem tanto a ética da consciência, absoluta em suas intenções puras focadas no salvamento da alma e nos princípios, mas não só ela, também a ética da responsabilidade, centrada nos objetivos e fins pretendidos, ainda que com concessões e relativização parcial do rigor com os meios. Resta um estranhamento dos cidadãos em relação à dinâmica de funcionamento do poder e suas elites.

Com a palavra, Pepe Mujica, ex-presidente do Uruguai: “A pessoa que gosta muito de dinheiro tem que ser retirada da política. Quer dizer que tem que ser castigada? Não. Tem que ir para o comércio, para a indústria, para onde se multiplica a riqueza, na aventura do risco empresarial. Aí sim. Mas não na política”. 

Bookmark and Share

MAIS DO MESMO

Leonardo Avritzer e Rômulo Paes de Sousa, CartaCapital

Os vazamentos reabrem a lógica lavajatista e tensionam o cenário eleitoral

Os intensos vazamentos referentes aos escândalos do Banco Master e do INSS têm produzido notícias capazes de modificar a conjuntura política do País. Em 4 de março, foi divulgado pelo site Metrópoles o sigilo bancário do filho do presidente Lula, solicitado pela CPMI do INSS. No dia seguinte, também saíram no mesmo Metrópoles e no jornal O Globo o registro de supostas trocas de mensagens entre o ministro Alexandre de Moraes e o banqueiro Daniel Vorcaro.

Os dois casos sugerem uma dinâmica recorrente que dominou a cena política durante a Operação Lava Jato. Uma relação direta entre a Polícia Federal e integrantes da CPI com certos jornalistas. Nos dois casos mencionados, inaugura-se uma lógica de vazamentos reservados para repórteres selecionados, que escolhem os alvos da execração pública. Como é sabido, alguns desses jornalistas tiveram papel destacado durante a Lava Jato e ficaram conhecidos como porta-vozes de grupos próximos ao juiz Sergio Moro, de quem recebiam o que a República de Curitiba estava interessada em pautar. Nenhuma notícia sobre as relações próximas e ilegais entre o ex-magistrado e o Ministério Público ou quanto às formas de chantagem abertas que poderiam ter se constituído em furos espetaculares fez parte da cobertura da operação. A pergunta que volta a nos assombrar é se essa mesma dinâmica está de volta à política brasileira, em um ano eleitoral.

Ao analisar a lógica dos vazamentos, devemos perceber que ela distorce dois elementos centrais da política. Em primeiro lugar, em vez de ocorrer uma investigação baseada em evidências, o que se busca é tentar convencer a opinião pública da culpa de certos integrantes do sistema político baseada apenas no conteúdo seletivamente publicizado. Muitas vezes, os fatos relatados não são verdadeiros ou não nos permitem ir além de uma suspeita, como foi, por exemplo, a conspiração para a fuga de Nestor Cerveró do Brasil que levou à prisão de um senador e nunca veio a ser comprovada. Em segundo lugar, os vazamentos provocam o chamado fishing. No episódio do vazamento dos dados bancários do filho do presidente Lula, ficou claro que ele não teria recebido depósitos de Roberta Luchsinger. Contudo, nenhuma linha foi escrita sobre o que teria motivado a quebra do sigilo. As editorias não parecem se importar com a ilegalidade da contínua exposição das movimentações bancárias de Fábio Luís da Silva, que produzem forte repercussão política.

A mesma coisa pode ser dita em relação aos vazamentos de mensagens atribuídas ao ministro Alexandre de Moraes.­ O formato dos arquivos referentes às trocas de mensagens entre o réu e o ministro entregues à CPI é diferente do obtido pela jornalista do Globo, indicando a Polícia Federal como a possível fonte e permitindo a hipótese de que o réu teria deixado de propósito “pistas” que apontassem para algumas autoridades da República. Evidentemente, não é possível negar a priori o não envolvimento do ministro, mas tampouco é possível afirmar de prima facie o contrário com base em mensagens cujas emissão do celular de Vorcaro­ e recepção pelo celular do ministro não estão comprovadas. Da mesma forma, não se sabe qual teriam sido as eventuais respostas do magistrado a essas mensagens.

Forma-se, outra vez, o caldo de cultura para candidaturas outsiders

Especula-se que tais mensagens foram enviadas a mais de um contato, entre eles o presidente do União Brasil, Antônio Rueda, o senador Irajá Abreu, a advogada Viviane Moraes e outros políticos, que negam ter recebido tais mensagens. Assim, é possível perceber um padrão de direcionamento de suspeitas contra determinadas figuras por parte da PF e da mídia, que passam a ser consideradas culpadas antes mesmo de ser investigadas. Em relação aos vazamentos no curso das investigações, não sabemos por qual tipo de relação direta isso se estabelece pela imprensa e jornalistas.

Temos uma reorientação da conjuntura política na direção de uma percepção de que todos estão envolvidos com a corrupção. Cria-se, desse modo, um caldo de cultura favorável a candidatura de outsiders­ do sistema político. Assim como no tempo da Lava Jato, há uma imprevisibilidade muito grande no cenário político, tanto pelo conteúdo das mensagens vazadas quanto pelo tratamento dado pela mídia ao que vier a ser fornecido por seus informantes. Contudo, interessa ao Centrão, que controla as duas casas legislativas e cujas bombas deixadas por Vorcaro­ repousam no seu colo, que o escândalo não beneficie politicamente ninguém. Interessa ao mercado que a incerteza provocada pelo Banco Master e a cadeia de empresas a ele vinculadas pare de atrapalhar os negócios. Interessa aos bolsonaristas que a lista de candidatos financiados direta e indiretamente pelo banqueiro e seus operadores não seja revelada.

Ainda que o modus operandi do caso Master seja o mesmo da Lava Jato, o escândalo produzido pela psicopatia de Vorcaro é muito diferente daquela produzida pelos seus equivalentes de Curitiba em dois aspectos: temos uma maioria no STF mais atenta às manipulações entre policiais e jornalistas e temos uma PF um pouco mais profissionalizada. Mesmo assim, surpreende aos observadores políticos que a própria corporação ainda não tenha tomado medidas para conter os vazamentos que prejudicam a sua imagem e reputação.

Os episódios recentes indicam que a política brasileira volta a conviver com uma lógica de vazamentos seletivos que desloca o centro do debate público das evidências para a construção de narrativas. Quando informações parciais, muitas vezes não verificadas, são tornadas públicas em meio a investigações em curso, cria-se um ambiente de suspeição generalizada que fragiliza instituições, distorce o devido processo legal e contamina o debate eleitoral. Ainda que o contexto institucional atual apresente alguns freios inexistentes no auge da Lava Jato, a persistência dessa dinâmica revela o risco de que disputas­ políticas e interesses corporativos passem a operar por meio da exposição pública seletiva, produzindo instabilidade e incerteza justamente em um momento sensível da vida democrática do País. O desafio que se coloca, portanto, é garantir que investigações ocorram no limite da institucionalidade dos órgãos envolvidos e com transparência, sem que vazamentos e espetacularização substituam o trabalho efetivo de apuração dos fatos. 

*Leonardo Avritzer é cientista político e professor aposentado da UFMG; Rômulo Paes de Sousa é pesquisador da Fiocruz e presidente da Associação Brasileira de Saúde Coletiva.

Publicado na edição n° 1404 de CartaCapital, em 18 de março de 2026.

Bookmark and Share

OS FINS E OS MEIOS

Pedro Serrano, CartaCapital

As quebras de sigilo não podem servir de pretexto para a destruição de imagem

E interessante observar como a sociedade do espetáculo evidencia uma de suas facetas mais perversas em episódios de extrema complexidade e que exigem rigor legal e ético em sua condução. A espetacularização tem dado as caras ao longo das investigações do caso Master, marcadas pelo vazamento de informações sigilosas, de forma criminosa, por agentes públicos.

Embora André Mendonça, ministro do Supremo Tribunal Federal, tenha reduzido o nível de sigilo para as análises da Polícia Federal de dispositivos eletrônicos apreendidos na operação, precisamos nos atentar para os limites ultrapassados na divulgação de dados, que chega a adentrar perigosamente os territórios da ilicitude. Faz-se necessário lembrar que o sigilo, em um inquérito, protege dois tipos de interesse e direito simultaneamente.

O primeiro deles é o da própria investigação, uma vez que, quando se trata de averiguações relativas a organizações criminosas, como se dá no contexto do Master­, as buscas nunca são eficientes se tornadas públicas. O sigilo é um elemento fundamental para que a investigação seja bem-sucedida. O vazamento de informações permite que réus e investigados se preparem para as apurações em curso, tomando medidas que eventualmente lhes sirvam de blindagem, em desfavor do inquérito. Esse problema se acentua quando os investigados têm poder político e econômico e podem lançar mão de influência como artimanha de autoproteção. Assim, a divulgação de informações sigilosas, especialmente se realizada de forma seletiva, só favorece os criminosos e o espetáculo, não o interesse público.

Tal mecanismo se torna ainda mais grave quando se considera a possibilidade de o vazamento ser feito de maneira deliberada justamente para proteger quem está sob investigação. Reportagem recente do jornal O Globo afirma que, quatro meses antes de ser alvo de uma ordem de prisão expedida pela Justiça Federal de Brasília, o dono do Banco Master, Daniel Vorcaro, teve acesso a três procedimentos que tramitavam sob sigilo no Ministério Público Federal – um deles justamente apurava irregularidades na compra do Master pelo BRB –, possíveis detonadores de sua prisão em novembro de 2025. Um vazamento dessa monta, feito com a finalidade direta de informar o investigado, precisa ser devidamente apurado.

O segundo ponto fundamental dessa discussão diz respeito ao direito de preservação da intimidade dos cidadãos, mesmo quando esbarram em investigações. A finalidade da investigação é apurar um crime, não destruir a imagem de alguém. Claro que divulgar o cometimento de um delito faz parte do interesse público, divulgação essa a ser realizada no momento certo e adequado, em geral ao término do processo. A diversidade de informações coletadas durante as apurações é, no entanto, vasta e invariavelmente envolve conteúdos que nada acrescentam à elucidação dos fatos investigados. Levar a público recortes de vida privada que não tenham ligação direta com os crimes em questão consiste em prática ilícita de vulneração de intimidades.

O Estado não pode divulgar informações privadas obtidas ocasionalmente em razão da investigação, como aconteceu também no caso do banqueiro, que teve mensagens com sua ex-namorada divulgadas com alarde pela mídia. Conversas de cunho íntimo do casal, cujo teor nada agrega ao objetivo que motivou a busca de dados, caíram em domínio público, ocasionando evidente prejuízo à imagem da modelo e influenciadora Martha Graeff, que cogita ir à Justiça contra a exposição.

Há uma junção de despudor e perversão da sociedade ao explorar publicamente a intimidade de mulheres. A autoridade pública, ao vazar esse tipo de informação, comete ato ilícito. Por sua vez, um jornalista que porventura receba tal conteúdo tem o direito legal de publicá-lo, podendo inclusive preservar sua fonte, garantia dada pela Constituição brasileira. Cabe, a meu ver, a esse profissional da comunicação, nessas situações, acionar um filtro de natureza ética, para evitar que determinada divulgação se preste apenas ao exercício da espetacularização perversa.

Ceder, nessas circunstâncias, à tentação do sensacionalismo é desrespeitar direitos fundamentais e humanos e atentar contra os princípios democráticos que os prezam. Corretamente, o ministro Mendonça determinou a abertura de investigação sobre o cometimento de crimes de agentes públicos que vazaram informações sigilosas no caso Master. Esperamos que haja rigor na apuração e que os responsáveis pelos vazamentos sejam adequadamente punidos, tanto no campo administrativo quanto no criminal. •

Publicado na edição n° 1404 de CartaCapital, em 18 de março de 2026.

Bookmark and Share

O CASO MASTER E A ENCRUZILHADA DO STF

Juliana Diniz, O Povo

A autoridade de uma instituição republicana é mais frágil do que se pensa. Depende menos da força da lei do que do reconhecimento público da dignidade, da relevância democrática e da integridade da atuação institucional. O Supremo Tribunal Federal tem nos dado um exemplo muito melancólico do efeito devastador, para uma democracia, da erosão da autoridade de uma suprema corte. Refém de seus próprios equívocos, o tribunal vive uma encruzilhada.

O maior problema do Supremo tem sido uma combinação explosiva de culto ao personalismo e ativismo. A Lava Jato deveria ter deixado um aprendizado institucional mais duradouro. Quando o ímpeto punitivista do lavajatismo perdeu força e apoio, e os abusos se tornaram mais evidentes e, logo, menos defensáveis, ficou evidente que o uso estratégico do processo foi instrumentalizado para finalidades políticas, em prejuízo do devido processo legal. Somos todos testemunhas do que isso representou em termos de custo à imagem do Ministério Público e do Poder Judiciário. As falhas processuais levaram à impunidade e à sensação de imenso voluntarismo judicial.

O drama do STF foi ter sido submetido a um teste duro num intervalo curto de tempo, sem que a corte tenha manifestado esforço de autocrítica ou movimento de autocorreção pós-lava jato. Quando Jair Bolsonaro se tornou presidente, o tribunal foi levado a impedir reiteradas tentativas de violação da ordem constitucional e legal. Foi chamado a decidir muitas vezes, em situações-limite, e precisou reagir a uma bem organizada rede de produção de fake news. Condenou centenas por uma tentativa de golpe de estado, num desafio inédito ao Poder Judiciário: uma tentativa de ruptura democrática que contou com manifestações e depredações realizadas por uma massa.

Esse protagonismo inevitável, arriscado, exigia uma corte à prova de vícios graves, uma corte que representasse, toda ela, o símbolo da idoneidade e da reputação ilibada. Só essa integridade à prova de dúvida blindaria o STF da polarização destrutiva que hoje explica a cena política do país. É essa aparência de integridade que o escândalo do Master põe em xeque, ao expor pelo menos dois ministros da corte e constranger os demais.

E assim a corte se vê diante de uma encruzilhada. Corrigir as falhas individuais de seus ministros parece, ao STF, representar um movimento de risco: o de contaminar com a dúvida, aos olhos da opinião pública, todo o passado recente de decisões do tribunal. A omissão com os erros é tampouco uma solução: a cada nova informação comprometedora revelada, o tribunal sofre mais, refém de seu problema estrutural mais difícil de resolver: a confusão entre ministro e corte, entre colegiado e indivíduo.

Bookmark and Share

ABSURDO HISTÓRICO

Adriana Fernandes, Folha de S. Paulo

Pedido de arquivamento do caso das joias de Bolsonaro é absurdo histórico

Causa estranheza que solicitação de Gonet tenha sido divulgada quando veio à tona esquema mafioso do Master

O pedido foi entregue ao relator do caso, ministro Alexandre de Moraes, um dos personagens do escândalo

É um absurdo histórico a decisão do procurador-geral da República, Paulo Gonet, de pedir ao STF o arquivamento da investigação sobre as joias árabes recebidas pelo ex-presidente Jair Bolsonaro (PL).

Gonet resolveu que não havia nada e pronto. Ignorou tudo o que a Polícia Federal comprovou. A fuga com as joias, as negociatas.

Bolsonaro simplesmente mandou um militar pegar um avião da FAB e ir até o aeroporto para tentar ilegalmente retirar joias de milhões de euros apreendidas pela Receita Federal. O ex-presidente tentou vender no exterior outro estojo de presente —e que Michelle Bolsonaro, inicialmente, declarou desconhecer, mas que recebeu no Palácio da Alvorada.

Pelo menos sete militares tiveram protagonismo nas ações ordenadas por ele para entrar ilegalmente com as joias e tentar reaver os itens apreendidos.

Como justificativa, Gonet citou a ausência de normas sobre o tema e decisões conflitantes por parte de órgãos de controle externo. Normalizou uma ação criminosa.

Causa estranheza que o pedido de arquivamento da PGR tenha sido divulgado no dia seguinte à segunda prisão de Daniel Vorcaro e quando mensagens extraídas do celular do ex-banqueiro mostraram o esquema mafioso do Master. O pedido foi entregue ao relator do caso, o ministro do STF Alexandre de Moraes. Ele que é um dos personagens da novela policial que virou o caso Master, com novos capítulos todos os dias trazendo revelações surpreendentes sobre a organização criminosa montada por Vorcaro.

Como já é conhecido, Gonet queria maior prazo para se manifestar e não se posicionou sobre a prisão do ex-banqueiro e de outras três pessoas. O procurador-geral errou, e a PGR passou um sinal de desesperança para aqueles que esperam que não haja um acordão para abafar o maior escândalo bancário do mundo.

Num país de memória curta, a família Bolsonaro e aliados do ex-presidente, que atuam ferozmente para tirar proveito do caso, devem explicações sobre as razões que levaram o regime da Arábia Saudita a dar presentes tão valiosos.

Bookmark and Share

TIRANDO O MELHOR DO NOSSO FRACASSO

Hélio Schwartsman, Folha de S. Paulo

Demografia já passou a jogar contra o enriquecimento do Brasil

Ainda assim, tecnologias e avanços isolados poderão melhorar qualidade de vida

Já me conformei a ver o Brasil como um suave fracasso (a ótima expressão é do embaixador Rubens Ricupero). O adjetivo "suave" é importante. É pouco provável que o país se torne um Estado falido, a exemplo de Sudão, Haiti ou mesmo da Venezuela, mas também me parece difícil que venhamos a dar o tão almejado salto para o grupo de nações mais desenvolvidas. Esse é um bonde que já perdemos. Se tivéssemos tomado decisões melhores algumas décadas atrás, talvez tivéssemos conseguido, mas, agora, a demografia passa a jogar contra. Envelhecemos antes de enriquecer.

Calma, daí não se segue que você precise imitar Stefan Zweig. Embora tenha ficado difícil acreditar no Brasil como "país do futuro", nós ainda deveremos experimentar melhorias na qualidade de vida. Avanços tecnológicos desenvolvidos mundo afora continuarão a ocorrer, se é que não se multiplicarão. Muitos deles geram produtos que ampliam bem-estar, saúde, educação, segurança. Como sempre lembro aqui, o habitante médio do planeta hoje tem acesso a muito mais confortos, prosperidade e informação do que um rei europeu da Idade Média.

Mesmo no que depende só de nós, dá para melhorar. Talvez não o bastante para entrarmos para a elite global dos países, mas o suficiente para reduzir algumas das asperezas que empatam nossas vidas. A educação brasileira, por exemplo, ainda é muito ruim, mas já não faltam vagas para crianças e adolescentes dispostos a estudar.

Nossa infraestrutura ainda deixa muito a desejar, mas uma linha telefônica não é mais um artigo de luxo que pessoas deixam como herança para seus filhos. Em algumas poucas áreas, até conseguimos competir em condições de igualdade com os melhores do mundo. Penso aqui em Embraer e nos setores não arcaicos do agronegócio.

O estoicismo ensina que devemos nos contentar com aquilo que a realidade nos impõe. Isso não significa aceitar tudo passivamente, mas centrar nossos esforços só naquilo que está em nosso alcance modificar. Vamos tentar tirar o melhor de nosso fracasso.

Bookmark and Share

D. NORMA, A CULTA

Eduardo Affonso, O Globo

Se esse menino Vorcaro tivesse estudado comigo, não estaria passando vergonha ao ver expostas suas mensagens

D. Norma foi professora de português a vida inteira. Começou por volta dos 4 anos de idade, corrigindo o irmãozinho caçula, que dizia “gugu dadá” em vez de “Augusta, dê-me a mamadeira”. E não parou mais.

Estudou letras na época em que regência e concordância ficavam no capítulo de sintaxe, não no de opressões linguísticas. Aposentada há décadas, anda horrorizada com os zaps do Vorcaro.

— Se esse menino tivesse estudado comigo, não estaria passando vergonha ao ver expostas suas mensagens. Que semântica bisonha! Que vernáculo comezinho!

É que D. Norma é desconectada do mundo real e apegada a tecnicalidades.

— Um enxovalho, uma ignomínia isso. Gastar R$ 3,3 milhões em degustação de uísque em Londres para ministros da Justiça e do STF, procurador-geral da República, diretor-geral da Polícia Federal, presidente da Câmara e escrever para a consorte: “Todos ministros do brasil / Do stf / Stj / Etc / E euzinho discursando”. Cáspite! Nome próprio e sigla de três letras com minúscula! Omissão de artigo definido! Etc sem ponto! Com efeito! E pronome pessoal no diminutivo? Isso é caso de CPI!

Outra coisa que a enerva sobremaneira é a falta de clareza:

– “Conseguiu ter notícia ou bloquear?”. Bloquear o quê, ou quem? Que fim levou o objeto direto? Ter notícia do quê? Cadê o complemento nominal? Um texto mal redigido pode levar a ilações, a interpretações equivocadas. Por isso eu era intransigente nas aulas de análise sintática.

Ela tampouco se conforma com a pronúncia — incorreta, a seu ver — do nome do finado esquema de pirâm..., digo, do finado banco.

— É mister que se corrija essa silabada! Se está escrito Master, sem acento, então é oxítona, como colher, mulher, qualquer. Máster, em português, é acentuada, assim como caráter, cadáver, líder.

— Mas é palavra estrangeira, D. Norma!

— Estrangeira para você, lusofalante ingrato! Meu país, minhas regras ortográficas. O STF devia seguir o exemplo do Ministério Público Federal em Minas Gerais e impor uma multa de uns R$ 130 milhões a quem pronunciasse ou escrevesse errado.

Mas à noite, no aconchego da alcova, D. Norma liga o celular, ganho do bisneto (“Não preciso disso, não vou usar essa tralha!”) e revê, em loop (palavra que abomina), a festa de noivado do ex-banqueiro. Deleita-se com as ruínas romanas, a pletora de velas, o piano suspenso, o decote do noivo (mais profundo que o da noiva). E pranteia aquela face outrora viçosa e bem tratada, agora relegada a água e sabão. Os cabelos um dia fartos e embebidos em sândalo (fantasia dela), ora reduzidos a máquina 2. E a barba... ah, a barba...

A barba de um homem é seu castelo. Mulheres mudam a cor e o corte do cabelo, lapidam a sobrancelha, reforçam o carmim da boca, o rubor da face — ao homem, resta a barba. Mulheres usam salto alto, vestido vermelho, fenda, renda, espartilho — ao homem, resta a barba. Sem ela, o banquirroto lhe parece zebra sem listra, unicórnio sem chifre, pavão depenado — não o magnata que teve os três Poderes da República na algibeira.

Então estanca uma furtiva lágrima, limpa o histórico de visualizações e, antes de dormir, vai ler uma ou duas páginas de Napoleão Mendes de Almeida e meditar sobre o Código de Ética escrito pelo escritório Barci de Moraes.

D. Norma é a única pessoa que entende os desvãos da alma humana e a regra do hífen — mas não explica pra ninguém.

Bookmark and Share

É PRECISO DEBATER A SÉRIO AS PRIORIDADES DOS ELEITORES

Flávia Oliveira, O Globo

Segurança pública e corrupção são os temas que os brasileiros escolheram como prioritários na largada da corrida eleitoral

A recém-divulgada pesquisa Quaest não deixa dúvidas. Segurança pública e corrupção são os temas que os brasileiros escolheram como prioritários na largada da corrida eleitoral de 2026. Economia corre por fora. São três variáveis explosivas — e sob medida — para o ambiente político calcificado, como conceituaram o cientista político Felipe Nunes, diretor da empresa de pesquisa, e o jornalista Thomas Traumann, em “Biografia do abismo” (Harper Collins, 2024). Pelo calendário do Tribunal Superior Eleitoral, a campanha começa em 16 de agosto; de fato, mobiliza há tempos ruas e redes sociais. O desafio aqui é radicalizar a qualidade do debate, em vez de ceder à banalidade das posições de superfície, à moda “se você é sim, eu sou não”.

Um em cada quatro brasileiros (27%) está preocupado com a violência, não sem motivo. Afinal, facções do tráfico de drogas espalham-se pelo país; porções cada vez maiores das cidades estão sob domínio de grupos armados; meninas e mulheres correm perigo em casa, na rua, no ônibus, no elevador. O enfrentamento ao crime organizado é uma urgência, mas não se faz isso reivindicando bombardeio dos Estados Unidos na Baía de Guanabara, como, meses atrás, fez Flávio Bolsonaro, ora ungido pelo pai a candidato ao Planalto. Tampouco estabelecendo uma gincana sobre que grupo político tem mais quadros do Comando Vermelho, baixaria da semana na disputa pelo Palácio Guanabara.

Por inércia ou má-fé, quem entra nesse jogo desrespeita o eleitor. Está aí Donald Trump, campeão no voto popular e no colégio eleitoral, com campanha xenofóbica, protecionista e imperialista. Prometeu tornar o próprio país grande novamente, mas, desde empossado, aos olhos do mundo — e, crescentemente, do próprio povo — apequenou-o. Entre bravatas e arroubos, impôs ao planeta níveis recordes de desconfiança e instabilidade, sem melhorar as condições de vida e segurança dos compatriotas.

Trump atacou o Brasil com tarifas e sanções a autoridades, no ano passado. Agora, está sobre a mesa a classificação como terrorista de PCC e CV, as duas maiores facções do tráfico de drogas no território nacional. Foi a senha para opositores de Lula se posicionarem para atacar qualquer argumentação contrária. Opor-se a uma intervenção dos Estados Unidos flagrantemente contrária à legislação brasileira não é defender organizações criminosas nem traficantes, mas alertar sobre efeitos colaterais tão indesejáveis quanto duradouros.

Há risco à soberania quando outro país se atribui o direito de intervir militarmente em nome de combate ao crime. Nem sequer há evidências de eficácia. No fim dos anos 1990, os Estados Unidos classificaram como organizações terroristas as Farc e o Hezbollah. Nem a Colômbia se livrou do tráfico de drogas, nem o Líbano da milícia aliada do Irã, inimiga de Israel. À possibilidade de intervenção armada, assinala um diplomata brasileiro, soma-se aplicação de sanções econômicas, financeiras e diplomáticas. O representante de um banco multilateral admite que operações com instituições multilaterais, como Banco Mundial ou BID, podem se tornar “difíceis ou impraticáveis”.

O promotor Lincoln Gakiya (MP-SP), dedicado ao enfrentamento ao PCC, alertou em entrevistas sobre as “implicações gravíssimas” ao Brasil: do sigilo de operações antes compartilhadas na esfera policial a sanções econômicas, restrição de operações financeiras e até fechamento de empresas multinacionais. Risco alto para um país que está entre as dez (ou 11) maiores economias do planeta, grande player global em exportações do agro, minério e petróleo, potência ambiental.

De cada cinco eleitores brasileiros, um está preocupado com a corrupção, decorrência da fraude bilionária do Banco Master. O hiperfoco está em mal explicadas — quiçá inexplicáveis — conexões do controlador Daniel Vorcaro com dois ministros do STF, Dias Toffoli e Alexandre de Moraes. A pesquisa Quaest mostrou que 38% da população evitaria votar em candidato envolvido com o caso; outros 29% levarão o assunto em consideração na corrida eleitoral. Significa dizer que as investigações precisam tirar o véu que protege parlamentares, autoridades nacionais e locais, num ano em que serão eleitos presidente, governadores, senadores, deputados federais e estaduais. Há demanda por transparência; não cabem dissimulação, generalizações nem falsas simetrias nas atribuições de culpa. Nos contatos do banqueiro e sua rede, o Centrão abunda.

Na economia, preocupa o poder de compra. O início do ano é sempre período de pressão inflacionária. Neste ano, educação, passagens aéreas, tarifas de ônibus machucam mais que os alimentos o orçamento das famílias. A guerra dos Estados Unidos e de Israel contra o Irã é risco a mais para a inflação global. Os impactos na indústria do petróleo alcançam combustíveis e energia, frete e logística, aviação e seguros, fertilizantes. A taxa básica de juros no maior nível em duas décadas anaboliza endividamento e inadimplência, desidrata o consumo. O trabalho, informalizado, excessivo e mal remunerado, exaure. Quem acode?

Bookmark and Share

MALU GASPAR E O CASO MASTER

Thaís Oyama, O Globo

Ataques a jornalista são o que grupos feministas chamam de ‘violência política de gênero’, e nenhum desses grupos a defendeu

Malu Gaspar é até aqui a jornalista responsável pelas revelações mais relevantes sobre o escândalo do Banco Master. Desde que passou a expor no GLOBO as ligações do ministro do STF Alexandre de Moraes e de sua família com o ex-dono do banco, Daniel Vorcaro, tornou-se alvo de ataques abjetos, maciços e incessantes nas redes sociais.

Pelo exercício de seu ofício, vem recebendo ameaças e insultos que tentam constrangê-la e humilhá-la, muitas vezes com base em referências a sua condição de mulher. Tais ataques configuram precisamente o que grupos feministas chamam de “violência política de gênero”. Ainda assim, nenhum desses grupos veio a público defendê-la. Nenhuma nota ou carta aberta — nem mesmo um reles vídeo no TikTok.

Trata-se de silêncio que não se observou quando outras igualmente valorosas profissionais da imprensa expuseram malfeitos de bolsonaristas e foram por eles atacadas. Nesses casos, as jornalistas receberam um uníssono coro de solidariedade vindo de coletivos feministas e organizações de mulheres que não soltam a mão de ninguém e consideram um ataque a uma jornalista mulher como ataque a todas as jornalistas mulheres. Desta vez — em que o foco das reportagens é não um presidente de direita, mas um juiz eleito herói da resistência pela esquerda —, porém, nenhum desses grupos encontrou algo para dizer em defesa de Malu Gaspar.

Mais que não ser defendida, ela vem sendo atacada por setores da esquerda. Militantes petistas pedem abertamente sua demissão, e sites de esquerda estimulam a perseguição a ela (não por coincidência, alguns desses sites figuram nos autos do inquérito Master como fregueses da generosidade suspeita de Vorcaro, mas essa já é uma conversa que transcende a hipocrisia ideológica — é assunto de polícia).

Dos teclados desses militantes saem as mais sórdidas fake news — e também as mais hilariantes desculpas para o indesculpável (o troféu cara de pau fica com a feminista que invocou o imperativo do respeito à “independência profissional das mulheres” para justificar o contrato milionário de Viviane de Moraes com Vorcaro, numa mostra de que, ao contrário de quase tudo na vida, o cinismo e a capacidade de autoengano não conhecem limites).

Nada disso chega a surpreender. Historicamente, a esquerda fundamentalista, sempre indulgente com modelos totalitários, não se vexa em trocar seus alegados princípios pela proteção de seus vilões preferidos — como podem confirmar, das profundezas do inferno, camaradas de mãos ensanguentadas e um punhado de aiatolás recém-chegados. A mesma condescendência, essa esquerda dedica a seus suspeitos de estimação.

Um ministro do STF tinha encontros recreativos com um banqueiro adepto de práticas financeiras heterodoxas? Foi flagrado pela Polícia Federal trocando mensagens com esse banqueiro no dia de sua prisão? Respondeu com mensagem de visualização única à pergunta “Conseguiu ter notícias ou bloquear”? Sua mulher tinha um contrato de R$ 130 milhões com o agora ex-banqueiro-presidiário? Não tem importância. Salvo-conduto moral para os heróis da turma, e que ardam nas redes aqueles que ousarem colocá-los sob má luz.

Foi o que fez Malu Gaspar como consequência de uma apuração profissional rigorosa. A jornalista não precisa que ninguém a defenda — sua trajetória e reputação cumprem com sobra esse papel. Mas é desolador constatar que, para os fundamentalistas da esquerda brasileira, nas revoluções como nos escândalos, princípios só valem quando servem para atacar o inimigo; é lícito e legítimo linchar quem aponta o dedo para um aliado; e todos os fatos merecem ser revelados, à exceção dos inconvenientes.

Ataques a Malu Gaspar são o que grupos feministas chamam de ‘violência política de gênero’, e nenhum desses grupos a defendeu.

Bookmark and Share

sexta-feira, 13 de março de 2026

A SEXTA-FEIRA 13 DO SUPREMO

Bernardo Mello Franco, O Globo

Julgamento de habeas corpus de Vorcaro pode assombrar o STF por bastante tempo

A Segunda Turma do Supremo começa a julgar hoje o pedido de habeas corpus de Daniel Vorcaro. A votação terá início numa sexta-feira 13, e suas consequências podem assombrar o tribunal por bastante tempo.

O ministro Dias Toffoli, que negava proximidade com o banqueiro, agora declarou-se suspeito e não participará do julgamento. Pode parecer má notícia para Vorcaro, mas não é. Com um ministro a menos, ele passa a precisar de apenas dois votos para sair da cadeia.

Quem acompanha a Corte de perto acredita que Luiz Fux endossará a decisão de André Mendonça para manter o dono do Master em cana. Resta a dúvida sobre os votos de Gilmar Mendes e Kassio Nunes Marques.

A defesa aposta nos dois para livrar o cliente da tranca e autorizar seu retorno à prisão domiciliar. Nesse cenário, o bilionário trocará uma cela de nove metros quadrados por um apartamento de alto luxo no Itaim Bibi.

Ao ordenar a segunda prisão de Vorcaro, Mendonça escreveu que ele comandava uma “estrutura de vigilância e coerção privada” comparável a uma milícia. A Polícia Federal flagrou o banqueiro corrompendo agentes públicos, ocultando patrimônio, mandando quebrar todos os dentes de um jornalista e pedindo socorro a amigos influentes.

Em novembro passado, ele já havia sido capturado no aeroporto de Guarulhos quando tentava fugir do país. O Brasil tem mais de 200 mil presos provisórios, e poucos devem ter dado tantos motivos para estarem no xadrez.

Desde que Vorcaro foi recolhido a um presídio de segurança máxima, o fantasma de uma delação premiada tira o sono de figurões da política e do Supremo. A Corte não tem a quem culpar. Foi tragada para o escândalo por ações e omissões dos ministros Dias Toffoli e Alexandre de Moraes.

Ninguém deve ser mantido no cárcere para delatar, mas uma manobra para salvar o banqueiro passaria a mensagem de que o Supremo decidiu ignorar fatos e provas para blindar seus próprios integrantes. No momento em que a desconfiança no tribunal atinge níveis recordes, pode ser a senha para um novo filme de terror.

Bookmark and Share

10 MIL OU 10 MILHÕES DE MISÓGINOS ?

Pablo Ortellado, O Globo

Misoginia de nicho não pode ser confundida com a de massas

Dez mil ou 10 milhões de misóginos? A resposta importa, e os dados disponíveis sugerem que estamos mais próximos do número menor

Após conhecermos os detalhes do brutal estupro coletivo em Copacabana, descobrimos nesta semana que os estupradores parecem estar ligados a grupos radicais masculinistas on-line (um dos jovens se entregou à polícia com uma camiseta com frase do influenciador Andrew Tate). Descobrimos também que, nesta semana, uma trend no TikTok, “Caso ela diga não”, viralizou ensinando meninos a responder com violência física a mulheres que rejeitam suas abordagens amorosas. Descobrimos também que essa trend faz parte de um conjunto muito mais amplo de conteúdos misóginos on-line que registram mais de 3,9 bilhões de visualizações no YouTube. O estupro coletivo é, assim, visto como fruto de campanhas de misoginia politicamente organizadas que atingem público alarmante na internet.

É absolutamente natural o sentimento de indignação quando vemos casos graves de violação de direitos humanos. O estupro coletivo em Copacabana chocou e revoltou o país. Crimes como esse precisam ser punidos, e novos casos impedidos. Para isso, precisamos entender exatamente a natureza do que acontece, evitando que nossa indignação nos empurre para diagnósticos e respostas apressadas e equivocadas.

O encadeamento de reportagens que levou ao diagnóstico da proliferação em massa de conteúdos misóginos on-line é um exemplo desse tipo de conclusão apressada que, em vez de ajudar a combater o problema, pode agravá-lo. Se a misoginia organizada on-line não for tendência de massa, mas de nicho, todo o estardalhaço que fizemos nesta semana pode dar visibilidade a algo que deveria ser combatido nos bastidores.

Não devemos tratar da mesma maneira um mal que aflige milhões de jovens e outro de nicho, com uma comunidade relativamente pequena de milhares. Neste último caso, deveríamos evitar dar publicidade e fazer alarde, como fazemos com os grupos terroristas que produzem atentados. Quando grupos extremistas têm atuação limitada, a cobertura precisa evitar amplificar sua relevância. A ação adequada é agir criminalmente contra os autores e alertar as plataformas para retirar o conteúdo do ar.

Vale a pena refletir sobre o que aconteceu nesta semana. No dia 8 de março, a Advocacia-Geral da União pediu à Polícia Federal abertura de inquérito para apurar conteúdos com a trend “Caso ela diga não” que estimulavam agressão a mulheres que rejeitavam abordagens amorosas. Esses conteúdos tinham sido identificados em 2023 e não tinham sido excluídos pelo TikTok. Estavam concentrados em poucos perfis e tinham acumulado cerca de 175 mil interações — número expressivo em termos absolutos, mas limitado se comparado ao alcance de ondas realmente virais.

A denúncia levou a várias reportagens que apressadamente trataram esses conteúdos como se tivessem sido produzidos e viralizados recentemente, e não revelaram que seu alcance era limitado. Algumas reportagens usaram como contexto um estudo do NetLab da UFRJ apontando que canais misóginos no YouTube acumulavam 3,9 bilhões de visualizações, sugerindo que a trend “Caso ela diga não” poderia ser parte de um fenômeno muito mais maciço.

O estudo define misoginia como “ideologia que tem como base o desprezo, o ódio, o controle e a aversão às mulheres”, é ligada à “naturalização da superioridade e dominação masculinas” e expressa por ações ou discursos de “controle, subjugação, desumanização ou violência contra mulheres”. É um conceito amplo, amparado em literatura acadêmica, mas que reúne comportamentos distintos, com graus muito diferentes de gravidade.

O conceito inclui sob um mesmo guarda-chuva o estímulo explícito à violência contra as mulheres, a defesa de papéis tradicionais de gênero (mulheres deveriam ficar em casa cuidando das crianças), a alegação de que mulheres manipulam homens (“deixe de ser trouxa, elas sempre se aproveitam de homem bonzinho”) e críticas ao feminismo (“mulheres usam o feminismo para fazer falsas acusações contra homens de quem não gostam”).

Muitos estudos internacionais, para evitar chamar tudo isso de misoginia, adotam tipologias que deliberadamente separam a misoginia (violência dirigida à mulher) do machismo (defesa da superioridade masculina) e da defesa de papéis de gênero mais tradicionais. A abordagem do NetLab está associada a visões sustentando que tudo isso faz parte de uma mesma cultura sistêmica e prefere não separar os comportamentos.

O estudo também conta todas as visualizações de canais para as quais pelo menos três vídeos foram classificados como misóginos nesse sentido ampliado. O número de visualizações soma todos os vídeos do canal, e não apenas os considerados misóginos. O motivo provável é as pesquisadoras acreditarem que, nos canais, os espectadores são levados de um tema a outro e que a misoginia está integrada ao ecossistema. As opções metodológicas do NetLab são sérias, documentadas e defensáveis, mas parte da cobertura jornalística não apresentou as distinções, dando falsamente a entender que vídeos de apologia da violência contra a mulher obtiveram 3,9 bilhões de visualizações no YouTube.

Em algum momento esses descuidos com a datação e o alcance da trend “Caso ela diga não” — associados à falta de explicação dos pressupostos do estudo do NetLab — fizeram muita gente acreditar que grupos organizados que pregam violência contra a mulher atingem milhões de jovens e podem ser a causa provável de episódios como o estupro coletivo em Copacabana. Esse diagnóstico equivocado levou a imprensa a dar enorme visibilidade pública a um evento de alcance limitado, que deveria ser combatido com discrição, rigor criminal e pressão sobre as plataformas — não com alarde. Dez mil ou 10 milhões de misóginos? A resposta importa, e os dados disponíveis sugerem que estamos mais próximos do número menor.

Bookmark and Share

CONY AOS INCRIVÉIS 100

Ruy Castro, Folha de S. Paulo

Ele via a morte como uma pândega. O homem que se dizia terminal parecia cada vez mais inaugural

Ativo até o fim, aos 92 anos, Cony seria o primeiro a desmoralizar o seu próprio centenário

Já contei esta história. Em 2012, coordenando um ciclo no Sesi, em São Paulo, sobre o centenário de Nelson Rodrigues, convidei Carlos Heitor Cony a participar de um dos debates. Cony, com 86 anos, tinha um câncer linfático crônico, cujo tratamento lhe provocava um enfraquecimento que o obrigava à cadeira de rodas. Mas sua cabeça continuava atilada, surpreendente e com a molecagem intacta. Aceitou e tomou o avião no Santos-Dumont.

Ao chegar de carro ao prédio da avenida Paulista, onde se daria o debate, Cony foi recebido na garagem pelas moças da produção. Elas o observaram ser descido a custo do veículo e colocado na cadeira de rodas. Uma delas perguntou, aflita: "Está tudo bem, Dr. Cony?". E Cony, grave, quase tumular: "Não passo desta noite".

Deu-se um alarido. Elas acreditaram e acharam que ele podia morrer ali mesmo, na porta dos elevadores, ou no meio do evento. Uma quase começou a chorar. Tive de me meter e dizer que Cony estava brincando, que estava ótimo, nada aconteceria. E, de fato, não só nada aconteceu como Cony roubou a noite na mesa do debate, usando Nelson Rodrigues como pretexto para falar de jornalismo, censura, coragem, liberdade de opinião —o que, de certa forma, era a história dele próprio.

Cony parecia ver a morte como uma pândega. Em começos dos anos 90, recém-saído de um câncer de próstata mais do que resolvido, ele às vezes aparteava a si próprio para dizer: "Você sabe, Ruy. Sou um homem terminal". Minha ignorância a respeito de câncer me fazia achar que ele estava falando sério. Mas os anos se passavam e o homem terminal parecia cada vez mais inaugural. Em 1995, seu romance "Quase Memória", o primeiro em mais de 20 anos de silêncio no gênero, devolveu-o com estrondo à literatura e o fez atravessar, vivíssimo, as muitas noites de que dizia que "não passaria".

Cony morreu em 2018, às vésperas dos 92 anos, ativo até demais. Custo a crer que, neste sábado (14), ele faria 100. Por um motivo: Cony seria o primeiro a desmoralizar o seu próprio centenário.

Bookmark and Share

COMO SEMEAR VALORES CONTRA A BARBÁRIE

Fernando Luiz Abrucio, Valor Econômico

A escola deve semear o ideal de uma sociedade justa e tolerante, gerando indivíduos que não excluam o diferente nem admitam a desigualdade

Acompanhar o noticiário nas últimas semanas tem sido desanimador. O ataque ao Irã mostra como o mundo se tornou incerto e perigoso sob as novas regras estabelecidas por Trump e seus aliados, gerando um cenário sombrio no curto prazo. No Brasil a situação não é muito melhor: a epidemia de feminicídios tomou conta do país e as instituições políticas estão sob suspeita desde a eclosão do caso Master. É muito difícil lutar contra o imperialismo trumpista, mas é possível, em alguma medida, atuar sobre os valores que alimentam a barbárie brasileira. Para isso, uma via essencial é a educação, tomada como instrumento formador das pessoas desde a tenra idade.

Desde a Independência até a redemocratização recente, o Brasil escolheu uma via educacional elitista e excludente. Os altos índices de analfabetismo, a enorme reprovação e evasão dos alunos mais pobres, bem como uma alocação pequena de recursos para a educação básica, marcaram nossa trajetória histórica. O país escolheu um modelo de desenvolvimento e, por que não dizer, de civilização no qual ensinar saberes e valores à maioria das crianças e jovens brasileiros não foi prioridade.

A partir da Constituição de 1988, e por meio de uma série de reformas por mais de três décadas, houve uma mudança de patamar educacional. A educação virou um direito de todos, o que gerou a universalização do fundamental I. Ainda houve uma expansão enorme dos jovens formados no ensino médio e a inclusão de populações que sempre estiveram fora da escola, como indígenas, quilombolas e crianças com deficiências. Também ocorreu uma maior profissionalização dos profissionais e dos instrumentos de gestão, especialmente nos campos do financiamento e avaliação.

Os avanços são expressivos quando comparados ao passado do país, porém, há muitos problemas e carências na educação básica brasileira. O aprendizado das crianças tem melhorado nos anos iniciais, mas a partir do fundamental II os resultados se tornam bem fracos, o que fica mais visível pelo baixo desempenho na avaliação internacional mais relevante, o Pisa (Programme for International Student Assessment), realizado por adolescentes de 15 anos de idade. Além disso, ainda há uma evasão significativa no ensino médio e muita desigualdade entre os estudantes em todas as etapas educacionais.

É preciso que o país garanta o aprendizado para todos, sem exceção, obviamente com prioridade pedagógica para o alunado advindo das famílias e grupos sociais mais vulneráveis. Essa é uma tarefa essencial para o futuro do Brasil e que deve ser encampada por todos os concorrentes às eleições de 2026, por meio de propostas baseadas em evidências e experiências bem-sucedidas, e não se utilizando de ideias equivocadas e eivadas de preconceitos, como o homeschooling ou a escola cívico-militar.

Só que o desafio educacional vai além da aprendizagem das disciplinas básicas: é por meio do processo educacional que os valores mais profundos são construídos na população infantojuvenil, com impacto sobre toda a vida. Não se trata de pensar numa dicotomia entre esses dois objetivos. Ambos devem estar interligados num modelo de educação integral, que desenvolve um conjunto múltiplo de saberes, competências e princípios éticos. Os indivíduos formados pelas escolas serão os adultos do futuro em todas as dimensões, como profissionais, cidadãos e pessoas com talentos diversos.

A escola deve semear o ideal de uma sociedade justa e tolerante, gerando indivíduos que não excluam o diferente nem admitam a desigualdade que inviabiliza a liberdade de escolha e a dignidade básica de grande parte da população. As organizações educacionais precisam alimentar sonhos de um mundo melhor do que o atual, construir princípios de convivência solidária e alavancar talentos múltiplos em cada estudante. O prazer de saber que há muitas possibilidades de felicidade e que os jovens de hoje podem influenciar a transformação da realidade daria outro sentido à vida escolar.

Todo esse desenvolvimento integral, como mostra a ciência contemporânea, deve começar na formação da primeira infância (de 0 a 6 anos de idade), quando as crianças estão formando a maior parte de sua capacidade neuronal e têm suas primeiras experiências de socialização para além de casa. Depois isso se segue por toda a vida escolar, culminando com o ensino para uma juventude aberta à diversidade de caminhos individuais e coletivos de construção do mundo adulto.

Esse processo educacional de cultivar valores profundos contra a barbárie deve andar lado a lado com o aprendizado de saberes básicos, podendo inclusive ser uma alavanca para que alunos e professores gostem mais da escola e comemorem, ao final, melhores resultados em testes padronizados e vestibulares. O sonho de uma escola melhor passa a ser aquela em que todos os estudantes aprendem, tendo um processo de ensino que leve em conta as especificidades de cada um na aquisição do saber, e no qual a educação seja a semente principal de valores em prol de uma sociedade melhor.

O que se propõe aqui, portanto, é mudar o olhar sobre o papel da educação. Para mobilizar a sociedade em torno de uma política educacional melhor, deve-se ter um sonho que conjugue aprendizado múltiplo e para todos com a produção de valores profundos contra a barbárie e as desigualdades brasileiras. Se todos ficamos indignados com o noticiário recente é porque, de um modo ou de outro, queremos algo que alavanque profundamente a transformação dessa realidade inaceitável.

A epidemia de feminicídio que horroriza boa parte da sociedade é fruto de um processo longo de construção de valores. Há muitos lugares em que as noções machistas e misóginas se alastram pela cabeça dos meninos, como as perversas redes sociais - que deveriam ser expressamente proibidas até os 16 anos de idade, como decidiu recentemente a Austrália - e, infelizmente, as famílias, especialmente pelos homens que as compõem, eles próprios resultado de uma sociedade historicamente patriarcal e violenta.

A educação tem de entrar nesse jogo como um instrumento de construção de outros valores nos meninos, desde a tenra idade. O assassinato cruel de mulheres pode ser combatido se a escola mostrar que a singularidade e a autonomia de cada gênero deve ser um convite para o aprendizado conjunto - cada um saber a dor e a delícia de ser o que é, como já diria Caetano. O mundo é maravilhoso quando há diferenças e a partir delas produzimos formas de comunhão, sem tiranizar ou hierarquizar a relação entre as pessoas.

O processo educacional pode engendrar valores contra a barbárie em outras questões, como a pedofilia, o racismo, o capacitismo, a indiferença em relação aos mais pobres, o narcisismo exacerbado que procura sucesso nas redes sociais, o ódio crescente contra o outro, para ficar em temas-chave. Obviamente a educação tem limites e há forças sociais com enraizamento mais profundo que não desejam um modelo mais tolerante e igualitário de sociedade. Mesmo assim, a escola tem de ser responsável pela apresentação de valores distintos da violência escravocrata e do patrimonialismo de castas que continuam marcantes no Brasil.

Tal tarefa de combate aos substratos de barbárie da sociedade brasileira passa muito pela escola pública, por conta de seu alcance populacional, contudo também deve ser um objetivo das instituições privadas de elite. Nelas, estudaram muitos dos que comandam o país, no setor público e privado. Evidentemente que uma parte importante desse grupo tem contribuído para melhorar o Brasil nas últimas décadas. Só que outra parcela, com tamanho e influência bastante significativos, tem tido o papel de reforçar o sentimento de casta privilegiada, que é superior e tem “mais direitos” do que o restante da população. Pior: esse grupo crê na legitimidade de seu espaço VIP frente ao conjunto da cidadania, e tem lutado contra formas de democratização de oportunidades e poder que têm ocorrido na sociedade brasileira.

Os monstros do feminicídio e os defensores da casta superior, em suas versões de mercado e no poder público, já são, na maioria, adultos que a educação não tem mais como recuperar. Mas, ao se propagar em voz alta que as escolas podem transformar radicalmente os valores da barbárie à brasileira junto às crianças e jovens, é possível constranger os grupos sociais que degradam o modelo civilizatório do país. A força desse processo, de todo modo, tem limites, inclusive na forma autoritária que vigora em muitas famílias ou na fragilidade de laços que compõem parte do tecido social do Brasil.

Uma resposta complementar talvez esteja no reforço de outras instâncias ou organizações da sociedade, que deveriam ser locais para se discutir os valores que possam evitar o feminicídio, a ascensão do banqueiro cangaceiro, a defesa do burocrata que não quer ser transparente perante os cidadãos, o discurso preconceituoso contra os mais vulneráveis e o ódio contra quem pensa diferente. Tais lugares deveriam, à maneira das escolas, ser espaços que possibilitem a reflexão sobre a formação dos valores que produzem o noticiário indigesto a todos. Precisamos conversar mais, de forma tolerante, sobre os efeitos de nossos princípios sobre a barbárie que nos aflige, num processo de aprendizado permanente.

*Fernando Abrucio, doutor em ciência política pela USP e professor da Fundação Getulio Vargas.

Bookmark and Share

MORRE SÔNIA BRAGA

Do Diário do Nordeste

Morre Sônia Braga, militante histórica do PT no Ceará

A morte da dirigente provocou manifestações de pesar entre lideranças políticas e movimentos sociais da própria sigla.

Militante do Partido dos Trabalhadores (PT) no Ceará, Sônia Souza do Nascimento Braga, morreu nesta sexta-feira (13), em Fortaleza, após enfrentar uma batalha contra o câncer. Descrita por colegas como militante histórica da legenda, Sônia atuava nas lutas populares, especialmente na defesa da agricultura familiar e das políticas de habitação. Ao longo dos anos ocupou cargos importantes no partido, como a presidência estadual do PT no Ceará e a Secretaria Nacional de Organização da sigla.

Formada em gestão pública, também atuou como diretora do Instituto Agropolos do Ceará e teve atuação direta na organização partidária e na mobilização da base cearense, participando da coordenação de processos eleitorais e da articulação política nacional da legenda.

A morte da dirigente provocou manifestações de pesar entre lideranças políticas e movimentos sociais da própria sigla. Nas redes sociais, o deputado federal José Guimarães (PT-CE), líder do governo na Câmara e amigo pessoal de Sônia, destacou a trajetória de luta de Sônia.

“Aprendi com a Sônia os valores mais humanos, estive ao lado dela nas lutas travadas na política e na vida. Me orgulho de durante tantos anos ter sido seu parceiro em momentos bons e ruins. Sônia deixa um legado imensurável não só na militância no PT do Ceará”, escreveu o parlamentar.

Além de Guimarães, outras entidades e lideranças ligadas ao partido também divulgaram notas de solidariedade. A Executiva Nacional do PT afirmou que Sônia foi uma das responsáveis pela construção e fortalecimento da legenda no Ceará e no Brasil. Em nota, o partido ressaltou que a trajetória da dirigente se confunde com a própria história de luta do PT pela democracia, pela justiça social e pelos direitos do povo trabalhador.

O presidente nacional da sigla, Edinho Silva, também manifestou pesar pela morte da dirigente e destacou o papel que ela desempenhou na estruturação interna do partido. A Central Única dos Trabalhadores (CUT) também lamentou a perda e prestou solidariedade à família e amigos.

Bookmark and Share