quarta-feira, 29 de abril de 2026

A QUEM INTERESSA O ENFRAQUECIMENTO DO SUPREMO ?

Georges Abboud*, Folha de S. Paulo

Cada vez que ecoa uma crítica vazia à corte, a Folha se posiciona ao lado dos segmentos mais nefastos da sociedade

Boa parte das críticas ao STF é ressentimento e lobbies político-econômicos poderosos

Qualquer leitor que se informe pela mídia neste ano de 2026 terá uma certeza: o problema do Brasil é o Supremo Tribunal Federal (STF). O culpado único pela existência do crime organizado, pelo escândalo do banco Master e pela crise miliciana do Rio de Janeiro.

A despeito de termos um presidencialismo desconfigurado; um Congresso Nacional que movimenta sem controle dezenas de bilhões em emendas impositivas; redes sociais disseminando fake news e misoginia sem regulação; do endividamento de praticamente todos os estados da Federação e das famílias brasileiras; do aumento do crime organizado e das milícias —nada disso interessa: só importa criticar o STF.

Queria crer que esta Folha não entrou nessa empreitada, embora três editoriais recentes tenham me deixado perplexo.

primeiro ("Cabe ao TSE decidir sobre vácuo de poder no Rio", 18/4) afirma que a eleição no estado é problema do Tribunal Superior Eleitoral. Esquece a Folha que casos relevantes do TSE são objetos de recurso no Supremo. E a corte eleitoral teve, à época, mais de uma oportunidade para publicar um acórdão que definisse uma solução —e isso não ocorreu, restando ao STF solucionar o problema.

segundo ("Ameaça de Gilmar Mendes a senador é desproporcional", 18/4) diz que seria desproporcional o ministro pedir investigação contra Alessandro Vieira (MDB-SE), uma vez que seria errado punir um senador por voto ou opinião. Trata-se, novamente, de desinformação. Não se pretende punir um discurso, voto ou projeto de lei do senador. Ocorre que ele era relator da CPI do Crime Organizado e concluiu pelo indiciamento do ministro em razão de um habeas corpus que ele havia dado.

Ou seja, o senador fez mais pelo golpismo do que boa parte dos condenados do 8 de janeiro.

Em nosso sistema, a CPI e seus membros possuem poder jurisdicional, obviamente, mas esse poder não pode ser abusado. Logo, o pedido de investigação não é por causa de voto ou discurso: é porque o senador extrapolou o seu poder jurisdicional tentando indiciar um juiz em razão de um habeas corpus.

Tenho convicção de que a Folha não teria produzido editorial se à época tivesse clareza da diferenciação técnica entre indiciar e proferir um voto na condição de parlamentar.

Por fim, há o terceiro editorial: "Um Supremo mais contido defenderá melhor a democracia" (15/4). Curioso que esse editorial não tenha sido publicado no final de 2022. Vou indicar para a Folha e seus leitores alguns grupos que adorariam que a Suprema Corte fosse mais contida:

1 - Políticos que se esbaldam com as emendas parlamentares e não querem rastreabilidade adorariam enfraquecer a fiscalização que o STF tem promovido sob relatoria de Flávio Dino;

2 - Agentes que lucram com a desregulação das plataformas digitais. Na omissão dos demais Poderes, foi a corte que impôs um mínimo de regulação, inclusive para possibilitar combater temas como pedofilia e misoginia;

3. Racistas e homofóbicos: afinal, na última década, a maior parte das regras protetivas para minorias vulneráveis partiu da própria Suprema Corte;

4 - Misóginos também ficariam felizes, pois foi o tribunal que, sob a relatoria de Dias Toffoli, proibiu que homens fossem inocentados por praticar feminicídio a pretexto de defenderem sua honra;

5 - Setores econômicos que obtiveram derrotas tributárias acima de R$ 100 bilhões em teses fixadas no STF, como a constitucionalidade da CSLL (Contribuição Social sobre o Lucro Líquido) e a incidência de Pis/Cofins sobre receitas financeiras;

6 - Negacionistas, em especial, os antivacinas: foi o STF que assegurou calendário de vacinação na pandemia de Covid-19;

7 - Obviamente, os golpistas de toda ordem: estes talvez sejam os mais ressentidos com o Supremo. Afinal, nunca na história do Brasil eles haviam sido sequer julgados;

8 - Por fim, há os setores da mídia profissional que designamos de "colunismo anti-Supremo" (viúvos do lavajatismo). Estes somente adquiriram o mínimo de visibilidade e relevância quando passaram a atacar o STF mediante retórica inflamada e pouco informativa.

Acreditem: a democracia constitucional brasileira nunca correu risco por causa do STF. Boa parte das críticas à corte não são feitas em prol do bem do Brasil —em sua maioria são ressentimento e lobbies político-econômicos poderosos, travestidos de crítica especializada ou jornalística.

Continuo sendo leitor deste jornal. Entretanto, sempre que a Folha ecoa uma crítica vazia ao Supremo, a sua escolha editorial, além de desinformar o leitor, faz com que se coloque ao lado dos segmentos nacionais mais nefastos da sociedade e da política.

*Professor de direito constitucional da PUC-SP e do IDP (Instituto Brasileiro de Ensino, Desenvolvimento e Pesquisa)

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QUEM QUER DINHEIRO ?

Roberto DaMatta*, O Estado de S. Paulo

Ganhar dinheiro pelo trabalho é burrice. Aqui, é mais fácil enriquecer entrando na turma certa

Se o capitalismo financeiro é ladrão e as leis nada valem, nós atingimos o cume usando ambos para enriquecer. Não há dúvida de que roubar dos bancos com um banco e em sociedade com magistrados é um avanço na velha roubalheira da sociedade pelos altos funcionários do Estado

Perguntava um fulgurante Silvio Santos, para ouvir do auditório um sonoro “EU” de maravilhada expectativa, porque o apresentador jogava notas de dinheiro em forma de aviãozinho para a plateia. O programa virava um espaço encantado pelo milagre de ver alguém distribuindo o que deveria ser entesourado, e o público testemunhava um rico capaz de transformar sovinice em generosidade.

Os tais “ricos”, como revela o dr. Michel Alcoforado no livro Coisa de Rico, formam uma categoria particular. Pois um dos poderes dos ricos é dar dinheiro para os outros, em vez de colocá-lo num cofre, como manda a tradição das sociedades patrimonialistas, nas quais cada estamento detém um tipo de riqueza. Nelas, o dinheiro enriquece, não enobrece, mas todo mundo aspira a “ficar rico” como revela essa epidemia de sites de apostas, as loterias e o brasileiríssimo jogo do bicho, por mim estudado com Elena Soárez, que, só Deus sabe por que, continua proibido.

Ganhar dinheiro pela sorte sempre foi um sonho nas sociedades aristocráticas fundadas na desigualdade, concebida como uma realidade do mundo.

Não preciso lembrar que esse foi o nosso caso. Formados que fomos com e pela escravidão, quando havia o indigno direito de ter gente proprietária de gente.

Quanto mais iníquas as diferenças, mais se desvaloriza o trabalho a ser realizado por escravizados e por “gente sem eira nem beira”. Em tal sistema, o dinheiro é muito mais símbolo de luxo e onipotência do que um instrumento de progresso e um símbolo de trabalho. Afinal, o ideal das malandragens é enriquecer sem trabalhar!

Como apontou Max Weber, trabalhar para viver e não viver para o trabalho, como ocorreu na América puritana, não é o nosso caso. Daí a ambiguidade em querer ser rico e, ao mesmo tempo, negar que se é rico. Como pensar que o trabalho enriquece, se ele era coisa de escravizados negros e marginais? Ganhar dinheiro pelo trabalho é burrice. Aqui é mais fácil enriquecer, como ensina o Master, entrando numa turma com o poder de manipular regras, com o privilégio de não precisar honrá-las.

Em matéria de corrupção, a nossa modernidade revela a sofisticação de roubar usando bancos. Se o capitalismo financeiro é ladrão e as leis nada valem, nós atingimos o cume, usando ambos para enriquecer. Não há dúvida de que roubar dos bancos com um banco e em sociedade com magistrados é um avanço na velha roubalheira da sociedade pelos altos funcionários do Estado.

No capitalismo, todos querem dinheiro, mas, como adverte Câmara Cascudo no seu Dicionário do Folclore Brasileiro, “dinheiro dado pelo diabo, pelo saci-pererê – e eu acrescento, por banqueiros – deve ser benzido, sob pena de desaparecer ou transformar-se em folhas secas”. Ou em desmoralização nacional com o absurdo suporte de supremos negacionismos.

*Antropólogo, escritor e autor de ‘Carnavais, malandros e heróis’

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AGENDA EVANGÉLICA PAUTA LULA NA INDICAÇÃO DE MULHER À DEFENSORIA PÚBLICA

Luiz Carlos Azedo, Correio Braziliense

A DPU virou moeda de troca e palco de disputas ideológicas. Cristãos conservadores contra a esquerda defensora dos indígenas e quilombolas, a favor do aborto e do casamento gay

A decisão do presidente Luiz Inácio Lula da Silva de indicar a defensora pública Tarcijany Linhares Aguiar Machado, segunda colocada na lista tríplice da categoria, para a chefia da Defensoria Pública da União (DPU), em detrimento do mais votado, Leonardo Magalhães, ganhou contornos de disputa político-ideológico com viés religioso e de gênero. Tarcijany é evangélica e sua indicação entrou no pacote das articulações com senadores para aprovação do nome do advogado-geral da União, Jorge Messias, à vaga aberta no Supremo Tribunal Federal (STF) com a aposentadoria de Luís Roberto Barroso.

Hoje, Messias será sabatinado pela Comissão de Constituição e Justiça do Senado, a partir das 9h, depois de longa espera. A incógnita é o posicionamento dos aliados do presidente da Casa, Davi Alcolumbre (União-AP), com quem se encontrou discretamente na semana passada, “por acaso”, na casa de um ministro do Supremo que supostamente não os avisou que ambos estariam juntos. Messias pediu apoio formal, mas Alcolumbre desconversou e disse que a aprovação seguirá o rito protocolar.

Também estão na pauta da sessão da CCJ as sabatinas de Margareth Rodrigues Costa, indicada ao Tribunal Superior do Trabalho (TST), e de Tarcijany. Caso seu nome seja aprovado, será a primeira mulher a ocupar a chefia do DPU em duas décadas. A vaga foi aberta em janeiro, com o fim do mandato de Leonardo Magalhães. Com 486 votos, seu nome encabeçava a lista tríplice que a categoria elaborou em setembro. Tarcijany ficou em segundo lugar, com 279 votos, e Fabiano Caetano Prestes, de Brasília, com 251, em terceiro.

Lula não é obrigado a escolher o candidato com mais votos. Tem preferido acomodar mulheres em cargos do sistema de Justiça para compensar a escolha de dois homens para vagas surgidas no STF ao longo de seu mandado atual. Como deve fazer isso pela terceira vez, ganharam força as indicações de Margareth para a vaga de ministra do TST e Tarcijany ao DPU. Magalhães vinha sendo apontado como favorito na disputa, mas foi atropelado pelo jogo bruto do Planalto.

Cearense e evangélica, Tarcijany teve apoio do ex-ministro da Educação Camilo Santana (PT-CE) e do ministro José Guimarães (PT-CE), chefe da Secretaria de Relações Institucionais. Nos bastidores da Câmara, os deputados federais Rui Falcão (PT-SP) e Marcos Feliciano (PL-SP), que é pastor de pentecostal ligada à Assembleia de Deus, também padrinhos da indicação, trabalham para neutralizar resistências das bancadas de esquerda e evangélica, respectivamente. Na avaliação do Planalto, Tarcijany reúne maior capacidade de interlocução com o governo e sensibilidade para agendas sociais com impacto eleitoral direto.

Menos autonomia

A DPU é uma instituição permanente, essencial à função jurisdicional do Estado, incumbida de prestar assistência jurídica gratuita à população vulnerável. Sua atuação vai além do atendimento individual, alcança a defesa de direitos coletivos e a promoção de políticas públicas estruturais. Ao longo de sua trajetória, acumulou protagonismo em momentos críticos: a interiorização do acesso à Justiça, a atuação na crise migratória em Roraima, a defesa de populações indígenas e quilombolas e a judicialização de políticas de saúde e previdência, a defesa dos desabrigados nas tragédias de Brumadinho e Mariana e, mais recentemente, nas enchentes do Rio Grande do Sul. Com forte capilaridade social, sua atuação, muitas vezes, contraria grandes interesses privados e políticos.

Esse é o xis da questão na movimentação do Palácio do Planalto, simultânea às articulações para aprovar a indicação de Messias. O contexto é o aperto nas pesquisas e o desgaste econômico do governo. A atuação da DPU pode contribuir para ampliar o alcance de políticas sociais e reduzir tensões em áreas sensíveis, como endividamento, acesso a benefícios e judicialização de demandas básicas. Nesse contexto, Tarcijany é vista como uma gestora com perfil mais “executivo”, capaz de dialogar com ministérios. Já integrou uma chapa formada por defensores alinhados ao bolsonarismo, como Leonardo Trindade e Holdem Macedo, ambos fora da lista final. Por isso, seu nome é visto pelo governo como uma aproximação com os eleitores conservadores, sobretudo evangélicos.

Mas existe o outro lado da moeda. A DPU virou palco de uma profunda disputa ideológica, religiosa e de gênero. Cristãos conservadores contra a esquerda progressista, defensora dos indígenas e quilombolas, a favor do aborto e do casamento gay. A votação expressiva de Leonardo Magalhães refletiu o respaldo da base da carreira, especialmente entre aqueles que defendem maior autonomia institucional. Nos bastidores, sua gestão era vista como mais assertiva na defesa das prerrogativas da DPU, inclusive em relação ao próprio governo. Esse perfil, embora valorizado internamente, gerou resistência em setores do Planalto, que temem fricções institucionais em momentos politicamente sensíveis.

 

A escolha de Lula seguiu uma lógica política clara. Amparada na prerrogativa legal de nomear qualquer integrante da lista tríplice, é parte de um movimento mais amplo de alinhamento de órgãos estratégicos à agenda do governo. A contradição é evidente. Trata-se de uma inflexão pragmática, em que a lógica eleitoral se sobrepõe à institucional. A DPU atua diretamente junto a camadas mais vulneráveis, principal da base social do governo. Uma atuação mais coordenada pode mitigar insatisfações, ampliar o acesso a direitos e reforçar a narrativa de compromisso social em ano eleitoral; contraditoriamente, a autonomia acirraria contradições com os setores mais conservadores com as políticas igualitaristas.

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À ESPERA DE MESSIAS

Hélio Schwartsman, Folha de S. Paulo

Indicado por Lula para o STF será sabatinado por senadores, que desde o século 19 não rejeitam nenhum candidato

Ministros terem uma filiação espiritual não é problema, mas é ruim para o sistema deixar-se pautar pela lógica religiosa

Está marcada para esta quarta (29) a sabatina de Jorge Messias no Senado. Ele foi indicado por Lula para a vaga aberta de ministro do STF. Não tenho acesso especial àquele que tudo sabe, mas imagino que Messias será ungido. Valho-me do princípio da indução. O último presidente que não emplacou seus candidatos foi o infeliz do Floriano Peixoto ainda no século 19.

No mérito, Messias parece ser um profissional competente e um ser humano decente, mas não sei se ele preenche o mais importante dos requisitos constitucionais para exercer o cargo, que é o "notável saber jurídico". Messias não é autor de uma obra jurídica que o distinga entre os pares (o sentido mais óbvio de "notável"). É verdade que outros já ministros também não são.

Duas coisas me incomodam na indicação de Messias. A primeira é que, a crer no noticiário dos últimos meses, Lula o selecionou por considerá-lo leal. A fidelidade é um ótimo critério para escolher amigos, mas não ministros do Supremo.

O outro ponto que me angustia é a questão da religião. Messias pode obviamente professar a fé que preferir. O que me parece problemático é elevar a identidade evangélica do candidato a argumento favorável (ou contrário) à sua entronização. O Estado é laico. Um ministro do STF pode nas horas de folga frequentar a igreja, templo ou terreiro que preferir, mas, dentro do tribunal, a única matéria religiosa relevante é assegurar a plena liberdade de culto —o que por vezes implica conter os apetites proselitistas da fé pessoal do magistrado.

Na vida real, não há como evitar que religião e política se misturem. Não dá para impedir um eleitor de votar em quem o pastor mandou, se essa for sua vontade. Mas não é saudável para o sistema deixar que a lógica religiosa invada a política. É que a religião, como as paixões partidárias, tem um efeito polarizador. Quem acredita que existe uma moral eterna revelada por Deus não tem como aceitar, nessas questões, negociações e soluções de compromisso que são alma da atividade política.

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SABATINA É DE MESSIAS, MAS EM JOGO ESTÁ A FORÇA DE LULA

Fernando Exman, Valor Econômico

Nesta semana, presidente e sua gestão enfrentam um importante “teste de estresse”

Na engenharia ou na economia, “teste de estresse” é o procedimento extremo realizado para avaliar a resiliência de determinado objeto, empreendimento, sistema ou portfólio. Simulação rigorosa, capaz de identificar possíveis pontos de ruptura ou falhas. Mas o conceito também pode ser usado na política. Nesta semana, Luiz Inácio Lula da Silva e a Presidência da República enfrentam um importante “teste de estresse”.

A apreciação da indicação do ministro Jorge Messias, advogado-geral da União, para o Supremo Tribunal Federal (STF) é etapa crucial desse processo de avaliação de desempenho. Os senadores irão, sim, analisar se Messias tem notável saber jurídico e reputação ilibada. Mas, na prática, estará também em exame a capacidade do chefe do Poder Executivo de preservar suas prerrogativas perante o Congresso Nacional.

Entre lideranças políticas e magistrados da Corte, é consenso que essa “bola está meio quadrada desde o fim do ano passado”. A mensagem presidencial que indicou Messias ao STF foi publicada no Diário Oficial da União em 20 de novembro de 2025, mas a Presidência da República só oficializou a escolha junto ao Senado no início de abril. Prova das dificuldades de levar adiante a nomeação.

Era sabido que Messias estava longe de ser o nome preferido de Davi Alcolumbre (União-AP), presidente do Senado, Casa responsável pelo escrutínio e aprovação dos escolhidos pelo presidente da República para integrar a Suprema Corte. Alcolumbre nunca escondeu que gostaria de ver o senador Rodrigo Pacheco (PSB-MG) vestindo a toga destinada ao AGU.

O que se seguiu foi um curto-circuito entre Alcolumbre e o governo, depois que o Planalto fez circular a informação de que o prêmio de consolação dado ao presidente do Congresso seria o controle da estratégica Comissão de Valores Mobiliários (CVM). Em resposta, o senador mandou avisar Lula que não daria andamento à sabatina de Messias, até que “os reais” patronos da indicação para a presidência da CVM fossem revelados.

Nunca apareceram. Mas, na sua visão, a indicação de Lula para a CVM, feita inclusive à revelia do Ministério da Fazenda, tinha como verdadeiro objetivo agradar aos empresários que haviam ajudado o governo brasileiro a romper o bloqueio bolsonarista à Casa Branca durante a crise do tarifaço. Portanto, estavam debitando em sua conta indevidamente um boleto que precisava ser estornado.

No entanto, ao adiar o envio da mensagem presidencial ao Senado, Lula acabou dando munição aos que o acusam de perigosamente aproximar a sabatina de Messias do pantanoso período eleitoral.

Nos bastidores, até mesmo fiéis aliados do Planalto passaram a comentar que uma eventual rejeição da indicação não deveria ser interpretada mais como um ato de Alcolumbre contra Messias e seu CPF. Seria, isso sim, uma investida contra Lula e o CNPJ que o presidente da República representa. Em outras palavras, uma tentativa da cúpula do Senado de conquistar ainda mais poder de influenciar a composição do STF ou até desestabilizar a candidatura de Lula à reeleição.

A derrota do governo teria um efeito colateral. Ao impor a Lula uma humilhação sofrida apenas por Floriano Peixoto em 1894, Alcolumbre estaria abandonando a aliança com o PT no Amapá para cerrar fileiras com a oposição.

Nesse contexto, aliados de Messias ainda tentavam decifrar a postura de Flávio Bolsonaro. Mesmo que eventualmente o senador do PL fluminense tenha tentado atuar nos bastidores para reverter votos a favor de Messias na bancada evangélica, o principal pré-candidato da oposição mantinha discrição em público.

Nunca se descartou a possibilidade de o senador tentar criar um fato político com forte apelo eleitoral, ajudando a derrotar o governo, principalmente na véspera da sessão em que o Congresso iria apreciar o veto presidencial ao “PL da dosimetria”. Mas a aposta majoritária sempre foi a de que tendia a prevalecer a sinalização dada nos bastidores de que ele não pretendia comprar briga com um potencial ministro do Supremo. Além disso, a rejeição de Messias também poderia criar um precedente perigoso para as suas próprias indicações ao STF, em caso de vitória na eleição de outubro.

Mas não é só no Senado que os limites dos articuladores políticos do governo estão sendo testados. Na Câmara, o Planalto enfrenta dificuldades para manter o controle da tramitação da proposta que acaba com a jornada 6x1. A cúpula da Casa não demonstra o menor receio com o risco de a pauta do plenário ficar trancada pelo projeto enviado com urgência pela Presidência, quando expirar o prazo de 45 dias para a sua votação. A proposta de emenda constitucional (PEC) que trata do tema (e deve contemplar as preocupações do empresariado) segue tendo prioridade.

Ao não engavetar algumas pautas com impacto negativo nas contas públicas, como a PEC da Assistência Social, a Câmara também demonstra ao Planalto que faz questão de influenciar o manejo do Orçamento para além das já impositivas emendas parlamentares. O recado é que não abre mão de estampar sua assinatura nas verbas que serão destinadas para a área social em um ano eleitoral, ainda que a Presidência tenha pedido cautela na discussão. O balanço da semana será indicador relevante para medir a força de Lula e o futuro do equilíbrio entre os Poderes.

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TRAIÇÕES PREOCUPAM TANTO O GOVERNO QUANTO A OPOSIÇÃO

Maria Cristina Fernandes, Valor Econômico

Votação secreta e comportamento de Alcolumbre alimentam insegurança do placar

A ordem do dia no Senado, às vésperas da sabatina do ministro da Advocacia-Geral da União, Jorge Messias, começou com queixas, da tribuna às conversas ao pé do ouvido, de arbitrariedades no Supremo Tribunal Federal. Minutos antes da abertura da sessão da tarde desta terça, o plenário do Senado registrava 56 senadores. Ainda que houvesse outros oito na Casa, que ainda não haviam registrado presença, outros dez ainda precisavam desembarcar em Brasília até esta quarta para que a sessão que vai deliberar a indicação de Messias para o STF fosse aberta com o quórum de 78 votos que garantiriam uma margem de segurança para a votação.

A operação cata-senador colocou no plenário da Casa ainda na terça, por exemplo, Flávio Arns (PSB-PR), cuja ausência de Brasília, por motivo de saúde, era dada como certa pelos oposicionistas. A participação remota dos senadores na inquirição dos indicados tem sido franqueada pela mesa diretora na CCJ, mas a votação, tanto na comissão quanto no plenário, exige presença.

A insegurança governista refletia-se nos placares que, no início da tarde desta terça, circulavam no Senado e no Supremo e variavam entre 36 e 39 votos assegurados. Aquém, portanto, dos 41 exigidos para a aprovação. No fim do dia, as contas mais seguras indicavam 32 votos contrários, o que daria um teto de 49 votos favoráveis. Este cenário é tanto mais favorável quanto se não houver derrapada na sabatina da CCJ, onde Messias precisa de 14 dos 27 votos, a serem mais facilmente obtidos do que os do plenário.

Governistas dividiam-se entre aqueles que confiavam no aval da Casa e outros que denunciavam o uso de cálculos pessimistas na pressão por recuo no PL da dosimetria. E ainda havia aqueles que achavam por bem buscar um discurso para explorar politicamente um eventual revés: “PL e Senado votam contra a escolha de mais um evangélico para o Supremo”.

O principal alvo da pressão governista era o presidente da Casa, senador Davi Alcolumbre (União-AP), cuja ausência da mesa diretora, na tarde desta terça, foi atribuída à sucessão de reuniões em torno da votação. Sobre o comando do presidente da mesa, nas estratégias para garantir o quórum, na votação prévia de outras indicações, como aquelas ao Conselho Nacional de Justiça ou ao Conselho Nacional do Ministério Público, para testar a temperatura da Casa, recaem muitas das expectativas de uma votação apertada.

Votação secreta e comportamento de Alcolumbre alimentam insegurança

Os governistas apelaram às principais lideranças do PSB, o vice-presidente Geraldo Alckmin e o pré-candidato ao governo de Pernambuco, João Campos, que posaram com o senador Rodrigo Pacheco (PSB-MG) no anúncio do apoio deste a Messias. Pacheco, que foi preterido por Lula para a vaga, almoçou com o ministro da AGU nesta terça.

A tentativa de fechar a bancada evangélica no Senado por Messias, assim como aconteceu na aprovação do ministro André Mendonça, em 2021, enfrenta a resistência de senadores como Carlos Viana (PSD-MG). Na aprovação de Mendonça, Viana foi um dos mais vocais defensores de sua escolha pela filiação evangélica. O empenho pessoal do ministro por Messias, porém, deverá garantir o voto de senadores como Damares Alves (Republicanos-DF).

A pressão por Messias não se restringiu a dobrar Alcolumbre e evangélicos. A Secretaria de Relações Institucionais, que gerencia a liberação de emendas, entrou em campo ainda no fim de semana. Na bancada do PL, por exemplo, dá-se como certo que o senador Eduardo Gomes (PL-TO) vote com Messias. A mobilização do governo sinal precipitou a reunião promovida pelo senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) no início da tarde da terça. O receio é de que os parlamentares do partido vão à tribuna para “lacrar” com discursos de revolta contra o STF e o governo mas, no anonimato do painel eletrônico, garantam sua aprovação. Ou vice-versa. Só a votação dirá.

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O DIA D DE MESSIAS

Bernardo Mello Franco, O Globo

Indicado ao Supremo pode pagar por fatores alheios à sua biografia, como apetite de Alcolumbre e proximidade da eleição

Depois de cinco meses de espera, Jorge Messias enfrenta hoje seu dia D no Senado. O indicado de Lula ao Supremo foi avisado de que a sabatina será dura. Aliados projetam um placar apertado, com poucos votos a mais que os 41 necessários para aprová-lo.

Ontem à noite, governistas ainda admitiam o risco de uma zebra na votação secreta. Seria uma derrota histórica para o Planalto. Desde 1894, na República da Espada, o Senado não barra uma nomeação para a Suprema Corte.

Servidor de carreira, Messias ascendeu como quadro do petismo. Foi secretário de Assuntos Jurídicos de Dilma, quando ganhou fama involuntária ao ser chamado de “Bessias” num grampo da Lava-Jato. No governo Bolsonaro, refugiou-se no Senado como assessor de Jaques Wagner.

Com a volta de Lula ao poder, assumiu a Advocacia-Geral da União e virou homem de confiança do presidente. Enquanto exercia o cargo, doutorou-se na Universidade de Brasília com uma tese repleta de elogios ao chefe.

A oposição citou esses dados biográficos para criticar a escolha de Messias. Mas as dificuldades do indicado têm pouco a ver com sua trajetória pessoal ou com o preenchimento dos requisitos constitucionais de notável saber jurídico e reputação ilibada.

A indicação ficou na geladeira porque o senador Davi Alcolumbre queria um ministro para chamar de seu. Ele tentou emplacar o aliado Rodrigo Pacheco, que também contava com apoio dos supremos Gilmar Mendes e Alexandre de Moraes.

Contrariado com a negativa de Lula, o presidente do Senado passou a criar problemas para Messias. O impasse foi parcialmente contornado com a barganha de cargos e emendas. Em nota, Alcolumbre disse que as tratativas com o governo foram “estritamente republicanas”.

Além de enfrentar o apetite do senador, o indicado arrisca pagar por outros fatores alheios à sua biografia — da proximidade da eleição ao clima de animosidade contra o Judiciário. Curiosamente, o avanço do caso Master pode ajudar Messias. Senadores que tenderiam a rejeitá-lo devem pensar duas vezes diante do risco de ganhar um desafeto no Supremo.

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AS BRIGAS PELAS EXPECTATIVAS

Fábio Alves, O Estado de S. Paulo

O ajuste dos juros: Na briga das expectativas de inflação, quão duro precisará ser o Copom?

Na semana que antecedeu o início do conflito no Oriente Médio, a pesquisa Focus mostrava projeção de 3,91% para a inflação no ano; a estimativa agora está em 4,86%, acima do teto da meta do BC

Paira uma ameaça iminente sobre a decisão do Copom de hoje: a desancoragem das expectativas de inflação. A esmagadora maioria dos analistas aposta em um corte de 0,25 ponto porcentual da taxa Selic, para 14,50%, mas o que está em jogo é o que o Banco Central irá sinalizar no comunicado sobre os próximos passos da política monetária. O tom da mensagem será decisivo para interromper ou não a piora recente nas projeções de inflação para 2026 e 2027.

O impacto da guerra no Irã – a disparada no preço do petróleo e de outros insumos importantes, como fertilizantes – contribuiu para o salto nas estimativas para o IPCA deste ano, contaminando, por tabela, as previsões para 2027. Na semana que antecedeu o início do conflito no Oriente Médio, a pesquisa Focus mostrava uma projeção de 3,91% para a inflação deste ano. Agora, essa estimativa subiu para 4,86%, acima do teto da meta perseguida pelo BC. E essa é a mediana das previsões. Há quem projete inflação acima de 5% em 2026. Para 2027, a expectativa subiu de 3,80% para 4,0%.

Sem falar que a inflação corrente vem surpreendendo para cima, mesmo com os analistas já esperando maior pressão dos preços de combustíveis. O IPCA de março, que subiu 0,88%, superou até a projeção mais pessimista do mercado para o mês (alta de 0,82%).

O IPCA de fevereiro (alta de 0,70%) também veio pior do que o consenso do mercado e perto do teto das projeções (de 0,72%). Ou seja, dois meses de números muito ruins dos índices de preços.

É bom lembrar que, na sua última reunião, em março, o Copom foi criticado por ter sido bastante tímido na sua projeção de inflação para o horizonte relevante da política monetária, o terceiro trimestre de 2027. Esse número foi revisado de 3,2% para apenas 3,3%. Há, agora, uma ansiedade do mercado em relação a uma revisão maior dessa projeção de IPCA. Aliás, a expectativa de inflação do Copom para 2026 também está bem defasada: 3,9%. Outro ponto de atenção é como será a avaliação do BC sobre a atividade econômica, cujos dados no primeiro trimestre do ano vêm apontando para uma reaceleração – ao contrário da visão do Copom na última reunião.

Assim, não há outra opção a não ser uma mensagem mais dura no comunicado, incluindo a projeção de inflação e a avaliação sobre o ritmo da economia. Isso vai dar pistas sobre o tamanho total do ciclo atual de corte de juros. O mercado prevê a Selic em 13% ao fim do ano. Mas a esse nível, as projeções de IPCA seguem acima da meta na pesquisa Focus. Na briga pelas expectativas, quão duro precisará ser o Copom?

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DESEJO DE PAÍS MELHOR É ANTÍDOTO CONTRA MEDO

Rui Tavares*, Folha de S. Paulo

Anseio por sociedade mais feliz motiva mobilização, luta por mudança e memória coletiva

Eleitores votam em quem é mais vocal contra 'wokismo' e politicamente correto, mesmo sem acreditar em soluções

A ciência política tem uma tese clássica sobre as oscilações da opinião pública: a do termóstato, cunhada assim por Christopher Wlezien em 1995. Se um governo põe a temperatura demasiado quente, o ciclo seguinte da opinião pública baixa a temperatura.

Na fase seguinte, acontece ao contrário, e a opinião pública age de novo, tendendo ao equilíbrio. É um modelo dos anos noventa, tempo de ingenuidade, e não chega para descrever o que estamos vivendo.

Uma outra proposta, de Pippa Norris e Ronald Inglehart, é a do ricochete cultural: cada ciclo não repõe a temperatura no equilíbrio, reage como corretivo em relação ao ciclo anterior. Nascendo da observação do choque de gerações dos anos 1960 e seguintes, está mais perto da nossa atualidade. Mas ainda não basta.

Proponho um terceiro modelo, que todos conhecemos bem: o da discussão doméstica. Um modelo da irritação doméstica como dinâmica política.

Neste modelo, ganhar a discussão não basta. Bem sabemos como é irritante se alguém pretende acabar a discussão dizendo "está bem, tens razão". Nós queremos ter razão, queremos que nos dêem razão, mas queremos mais: queremos que se calem para termos a última palavra explicando porque tivemos sempre razão, e queremos que o outro pague caro por ter achado antes que não tínhamos razão.

Aplicado à política, o modelo ajuda a explicar oscilações bruscas dos últimos anos. Em momentos em que uma esquerda sectária se perde no narcisismo das pequenas diferenças, as pessoas ficam frustradas e acabam votando em quem é mais vocal contra essa atitude (o "wokismo", o "politicamente correto"), independentemente de acreditar que aquele voto sirva para resolver o que quer que seja.

Nesse modelo, o voto não serve só para mudar o rumo das políticas e dos políticos. Serve para punir as pessoas que achamos que foram chatas conosco no ciclo anterior.

O problema é que o político que chega ao poder numa vaga de irritação com o campo contrário se sente imediatamente validado por aquele aparente mandato democrático e acaba governando com mais fanatismo do que os seus antecessores, preparando a reação epidérmica seguinte. Como num sismógrafo, cujas oscilações vão aumentando de passo a passo.

Como sair disto? Pode ser pela catástrofe, como no entreguerras. Por exaustão mútua. Por censura, quando uma das partes toma conta do Estado e acaba com a possibilidade da discussão. Pode ser por saturação: a opinião pública fica farta dos chatos dos dois lados e opta por políticos banais e aborrecidos.

Mas não podemos passar o tempo todo, ciclo após ciclo, colocando o medo perante a esperança. Quando elegemos um político da esperança, e a esperança não se concretiza, há um medo que se duplica: passo a ter medo de ser decepcionado e sou presa fácil de quem me disser que fui um otário por ter acreditado.

O antídoto do medo não é a esperança. É o desejo: o desejo de um país melhor, de uma sociedade mais feliz, de uma vida mais plena. É o desejo que dá motivação, que leva à mobilização, à luta pela mudança, e àquilo de que nem a psicanálise nem a historiografia se esquecem: a memória.

*Historiador, deputado na Assembleia da República de Portugal e ex-deputado no Parlamento Europeu; autor de 'Agora, Agora e Mais Agora'

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LULA ABRE O COFRE PARA EMPLACAR MESSIAS

Vera Rosa, O Estado de S. Paulo

O presidente do Senado, Davi Alcolumbre, fez o que pôde, até hoje, para impedir a aprovação do nome do advogado-geral da União, Jorge Messias, para ocupar uma cadeira no Supremo Tribunal Federal (STF). Tanto é assim que, embora a sabatina de Messias na Comissão de Constituição e Justiça e no plenário do Senado seja hoje, ninguém arrisca o placar da votação.

O Palácio do Planalto avalia que a indicação de Messias será aprovada, mas, pelo sim, pelo não, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva mandou abrir o cofre. Diante de um cenário em que Alcolumbre mede forças com Lula, o governo acelerou a liberação de emendas parlamentares e as negociações de cargos nas duas últimas semanas.

O pagamento precisa sair do papel até junho, por causa do calendário eleitoral, mas o Planalto ligou o motor de arranque. Dos R$ 12,7 bilhões liberados para emendas ao Orçamento desde o início do ano, mais da metade foi de meados deste mês para cá. Deputados ficaram com R$ 9,3 bilhões; outros R$ 2,5 bilhões foram destinados a senadores, R$ 659 milhões a bancadas estaduais do Congresso e R$ 156,9 milhões a comissões do Senado.

Além de enfrentar resistências a Messias, o Planalto passará por outra prova de fogo amanhã, quando uma sessão do Congresso analisará o veto de Lula ao projeto que reduz a pena do ex-presidente Jair Bolsonaro e de outros condenados pelos ataques do 8 de Janeiro.

Nos bastidores, auxiliares de Lula admitem que a tendência é o veto ser mesmo derrubado. Se isso ocorrer, a pena de Bolsonaro – condenado pelo STF a 27 anos e três meses de prisão – pode ser drasticamente reduzida.

Trata-se de uma semana de desafios para o governo. Na tentativa de diminuir a oposição de senadores ligados a Alcolumbre e angariar apoio a Messias, o governo também tem negociado cargos em agências reguladoras. Figuram nessa lista postos na Anac e na Anatel. Estão na mesa, ainda, a superintendência-geral do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) e vagas na Comissão de Valores Mobiliários (CVM).

Alcolumbre nega a barganha. O advogado-geral da União precisa de 41 votos na Casa de Salão Azul para ser confirmado como ministro da Suprema Corte.

Se passar pelo crivo do Senado, Messias também pode mudar a correlação de forças no STF e ficar ao lado da ala que defende um código de ética para os magistrados, liderada pelo presidente da Corte, Edson Fachin. Apresentada por Fachin na esteira do escândalo do Banco Master, a proposta expôs ainda mais a crise no STF.

Os ministros Cristiano Zanin, André Mendonça e Nunes Marques estão em campanha pelo advogado-geral da União. Desafeto de Messias desde que era titular da Justiça, Flávio Dino, por sua vez, não pediu votos para o ex-colega. Mas arrumou uma desculpa: disse a ele que, se o fizesse, mais atrapalharia do que ajudaria, uma vez que é odiado no Congresso por sua ofensiva contra o desvio de emendas. Messias fingiu que acreditou. 

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IMITAR TIMES SQUARE É INÚTIL PARA REVITALIZAR CENTRO DE SÃO PAULO

Elio Gaspari, O Globo

Revitalização é uma coisa, macaquice é outra

De uma hora para outra, São Paulo foi levada a crer que a esquina das avenidas Ipiranga e São João pode virar uma Times Square, aquele magnífico pedaço de Manhattan. Tomara, mas a iniciativa está com forte cheiro de macaquice, supondo que foram os luminosos que revitalizaram a região.

Até o fim do século passado, o entorno da esquina da Broadway com a Rua 42 passou por uma inédita decadência, tomado por cinemas pornô, drogas, prostituição e batedores de carteira. O cartão-postal da cidade parecia irremediavelmente perdido. Comparada à Times Square de então, a esquina de Ipiranga com São João era um brinco.

Então surgiu o prefeito Edward Koch. Vitriólico e incansável, ele criou um escritório para revitalizar a região. Pensou-se nos grandes letreiros, mas esse foi apenas um asterisco. O Estado de Nova York assumiu casas de espetáculos, a prefeitura deu incentivos e, acima de tudo, o coração do pedaço foi presenteado aos pedestres.

Pensou-se na população. Os letreiros luminosos continuaram a ser um detalhe tradicional. A revitalização da Times Square resistiu a duas recessões, e o triunfo de Ed Koch foi completo. Conhecido por ter ideias malucas, foi ele quem ensinou os donos de cachorros a recolher o cocô dos pets. Hoje, esse hábito está disseminado no mundo.

A ideia de que basta um luminoso LED para revitalizar uma região central é pobre. Precisa-se de muito mais, e a renovação do Centro de São Paulo está à espera de um Ed Koch. O governador Tarcísio de Freitas quer levar a administração do estado para o Centro. A ideia é boa, mas falta o sopro de arquitetos audaciosos, meio malucos, enfim.

Um dia, um governador ou prefeito de São Paulo transformará a Biblioteca Mário de Andrade num novo e arrojado prédio (como o francês François Mitterrand fez com a Biblioteca Nacional da França). Revitalizar o Centro ouvindo só empresários é tão arriscado quanto lançar projetos sem ouvi-los. A Times Square mudou de rosto graças à mão pesada da iniciativa privada.

Se luminosos bastassem, as cidades japonesas estariam entre as mais bonitas do mundo. São as mais iluminadas, pouco mais. (A prefeitura de Roma ilumina exageradamente o Coliseu, transformando-o num anúncio de sabonete.)

A única virtude de uma São João iluminada é que, em tese, ela nada custará à Viúva. A beleza de São Paulo deve alguma coisa à sua desordem.

Logo ali fica o Rio de Janeiro. Lá, continua-se a investir no crescimento da cidade na direção de São Cristóvão. Teimosa, ela cresce na direção oposta. (O primeiro projeto da Cidade Nova, unindo o Paço, atual Praça XV, à Quinta da Boa Vista é do tempo de Dom João VI.) O projeto do Porto Maravilha tornou-se um estudo de caso de fracasso. Quando o novo porto oferecer moradias baratas aos tradicionais moradores da região, ela virará uma maravilha.

Quando o Centro de São Paulo for revitalizado, com ou sem luminosos, ecoará o canto de Caetano VelosoAlguma coisa acontece no meu coração/Que só quando cruza a Ipiranga e a Avenida São João.

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PARA LULA, É 'VENCER OU VENCER' COM MESSIAS

Vera Magalhães, O Globo

Aprovação no Senado passará à opinião pública a imagem de um governo que ainda mantém controle de sua articulação política

Lula enfrenta nesta quarta-feira um dos testes mais importantes de seu terceiro mandato. Uma derrota no Senado na votação da indicação de Jorge Messias para o Supremo Tribunal Federal (STF) o fragilizaria de maneira até aqui inédita perante o Congresso e um eleitorado já bastante ressabiado. Para o petista, hoje é vencer ou vencer.

As contas pré-sabatina e votação no plenário mostram que será “com emoção”, mas a maioria dos prognósticos aponta uma vitória por pequena margem do ex-advogado-geral da União, cuja indicação foi feita no ano passado, segurada, confirmada neste ano e contrariou frontalmente o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP).

A votação acontece num momento de extrema tensão entre STF e Senado, com ecos na pré-campanha eleitoral e endosso de parcela crescente da sociedade, medida por pesquisas. Messias dificilmente escapará de uma inquirição dura, que refletirá esse cenário. Seu desafio será responder de forma a não se queimar com os dez ministros da Corte nem contrariar seus “eleitores” em potencial na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) e no plenário — lembrando que as duas rodadas de votação são secretas, para aumentar o suspense.

Líderes experimentados da Casa apostam que ele terá entre 43 e 47 votos no plenário. Caso se confirme a aposta, Messias se juntará a outros indicados recentes que chegaram ao STF com placares modestos. Flávio Dino e André Mendonça obtiveram 47 votos “sim”, o menor número até aqui. Paulo Gonet passou ainda mais sufoco, recebendo 45 endossos à recondução para a Procuradoria-Geral da República (PGR).

Essa incerteza, incomum em tempos não tão remotos, é reflexo do papel que tanto STF quanto PGR assumiram na História recente do país, pelo menos do mensalão para cá, com contornos bem mais dramáticos depois da Operação Lava-Jato e do governo Bolsonaro. Foi nesse último período que, ao se colocar como anteparo a ameaças democráticas, o Supremo passou a ser visto pela direita e pelo eleitorado que se identifica com ela como “aliado” do governo.

O perfil dos indicados por Lula nesta sua terceira passagem pela Presidência corrobora a percepção. Foram dois ministros de seu governo e seu advogado pessoal os eleitos pelo petista, escaldado por inúmeros casos de mandatos anteriores em que nomeados por ele votaram contra o governo, contra o PT e contra ele próprio. A preferência por “bolas de segurança” levou Lula a ignorar a preferência manifestada por Alcolumbre, pelo aliado Rodrigo Pacheco (PSD-MG). Essa aposta de risco será testada hoje.

A aprovação, ainda que sem aclamação, dará a Lula uma “maioria” confortável no STF para um eventual quarto mandato e passará à opinião pública a imagem de um governo que ainda mantém o controle, mesmo que sem muita margem, da articulação política com o Parlamento.

Uma eventual e menos provável derrota teria consequências para muito além da composição do Supremo. Seria a cristalização da imagem de isolamento político e institucional, combustível para adversários e fator de contaminação do ambiente eleitoral. Em Brasília, derrotas desse tipo raramente ficam circunscritas ao episódio. Reverberam na percepção de força do governo, atingem expectativas econômicas e acabam, cedo ou tarde, aparecendo nas pesquisas de intenção de voto.

Lula, portanto, não disputa apenas uma indicação. Testa, ao mesmo tempo, sua capacidade de manter pontes com o Judiciário, de resistir à pressão de um campo político que elegeu o STF como inimigo e de demonstrar que ainda consegue transformar a prerrogativa formal conferida pela Constituição de nomear integrantes da mais alta Corte de Justiça em poder efetivo. Num mandato marcado por crises constantes e muito pouca margem de manobra política de Lula, a votação de Messias funciona como um momento em que todas as limitações são postas à prova simultaneamente.

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terça-feira, 28 de abril de 2026

TERRAS RARAS NÃO SÃO FARELO DE SOJA

Roberto Amaral, Carta Capital

Não se trata de panaceia de um projeto nacional, mas sua entrega ao capital estrangeiro tende a reafirmar a posição do Brasil como economia primário-exportadora

A ciência política, na sociedade globalizada pelo capitalismo monopolista, nos fala de uma soberania nacional relativa, fragmentada. O conceito cobra a revisitação da ciência política, tal sua fragilidade e imprecisão no quadro da ordem internacional em crise, quando as forças que contam — e são as potências nucleares — ferem de morte o multilateralismo, abandonam as mesas de negociações e adotam o baraço e cutelo — a guerra tour court — como ponto de partida e ponto de chegada do diálogo de uma só voz. Como o diálogo do cordeiro com o lobo, consagrado por Jean de La Fontaine.

A realidade de hoje é a de um mundo em guerra, aflito; um mundo de interrogações e receios, um presente de conflitos em série que nos faz temer o futuro. Até aqui, sugerindo-nos alívio, os senhores da guerra têm conseguido manter sob algum controle suas operações, e vêm mantendo mais ou menos circunscrito o teatro onde despejam bombas, matam civis, destroem cidades. Mas, ensina-nos a história, o rastilho de pólvora quase sempre realiza seu destino.

A guerra que os EUA, auxiliados pelas tropas do sionismo, promovem contra os palestinos, os libaneses e o povo iraniano — uma civilização de mais de 4 mil anos que Donald Trump, perigoso criminoso de guerra à solta, prometeu fazer retornar à idade da pedra — integra uma estratégia maior, bem mais complexa, porque cuida da disputa com a China em moldes que lembram a Guerra Fria dos tempos do confronto URSS-EUA. 

O conflito de hoje, porém, já pervade o mundo, caminhando por outros meios, atingindo a economia em escala planetária: inflação, queda do PIB, concentração de renda, aumento da pobreza. Na outra ponta, o extraordinário crescimento dos orçamentos bélicos, anunciando o breve futuro.

A guerra de hoje compreende, além do cardápio clássico, os inumeráveis recursos da “guerra híbrida” e o papel da “internacional neofascista” que, a partir da Casa Branca, lança mão de todos os instrumentos, meios e recursos disponíveis, quaisquer, legais ou não: embargos, boicote comercial, sequestro de bens e recursos monetários, sabotagens, assassinatos etc., para alcançar seus objetivos. 

A listagem não tem fim — e jamais nos esqueçamos dos préstimos da CIA e dos Marines.

Em nosso continente, que conheceu tantos golpes e ditaduras militares, já há o que registrar, e não é nada bom: a resistência ao imperialismo refluiu para os governos de centro-esquerda, hoje restritos, além do Uruguai, ao Brasil e à Colômbia, que enfrentarão eleições presidenciais desafiadoras no próximo semestre. Delas participará ativamente a internacional neofascista, comandada pela Casa Branca, instrumentalizando a guerra híbrida que desde sempre se abate sobre nossos países.

O conceito de “guerra híbrida” compreende os meios que visam a enfraquecer o adversário, sem necessariamente recorrer aos recursos convencionais. Opera influenciando decisões estratégicas, redefinindo alinhamentos geopolíticos, por exemplo, as pressões visando a afastar o Brasil do bloco dos “não alinhados”, lá atrás, e agora as restrições aos BRICS e o mau humor da Casa Branca olhando de viés para a presença da economia chinesa na América do Sul e entre nós.

No plano geral, conhecem-se as sanções econômicas, as políticas de desinformação e manipulação da opinião pública utilizando os meios de comunicação locais. Exemplos fornecidos pela conjuntura são o tarifaço de Trump e, em associação, as pressões pelo controle de nossas reservas de terras raras, como foram, em anos passados, as maquinações contra a Petrobras e o monopólio estatal do petróleo, a que devemos hoje nossa sobrevivência econômica. Mais recentemente, registre-se a sabotagem ao programa nuclear brasileiro. Há, sempre, interação entre atores externos e internos, como o sistema financeiro e as empresas de comunicação.

As dificuldades brasileiras visando à conquista do monopólio estatal do petróleo voltam à balha hoje, quando o país desperta para a necessidade estratégica de controle de recursos minerais críticos, como as terras raras, alvo dos interesses dos EUA e objeto do entreguismo larvar da direita brasileira. 

As discussões retomam o cantochão reacionário dos tempos da campanha em defesa da Petrobras. Naquele então, a direita combatia a solução estatal, que nos salvou, é preciso repetir; hoje, em nome de um neoliberalismo canhestro, rejeita a opção da estatal brasileira para a exploração das terras raras e, ao mesmo tempo, defende o caminho livre para empresas estrangeiras, sejam estatais, sejam simplesmente apoiadas pelos governos de seus países. 

A história mais uma vez se repete: permanecemos como fornecedores dos produtos primários de que as grandes potências carecem: seja o açúcar, seja o ouro e a prata, seja o algodão, seja o café, seja o minério in natura. Fornecedores de matéria-prima, nos conformamos como importadores de manufaturados; assim cresce o agronegócio exportador de alimentos não processados — frango, carne bovina, soja, milho etc. — enquanto a indústria brasileira de transformação vive anos de crise.

A exploração das terras raras no Brasil expõe um paradoxo incômodo. O país detém reservas abundantes e condições geológicas privilegiadas, mas segue ocupando posição periférica na produção e, sobretudo, no processamento industrial — muito atrás de potências como China, EUA e até economias emergentes que avançaram com estratégia e decisão.

Como observa Gilberto Sá (“Proposta para recriar uma cadeia industrial de terras raras no Brasil”), o potencial brasileiro é conhecido. O território reúne alguns dos maiores recursos de elementos terras raras (ETRs) do mundo, distribuídos em depósitos primários e secundários. Minas Gerais (Araxá, Poços de Caldas), Goiás (Catalão) e Amazonas (Pitinga) concentram ocorrências relevantes. Ali estão minerais que carregam o futuro tecnológico: neodímio, praseodímio, disprósio e térbio — insumos críticos para turbinas eólicas, veículos elétricos, eletrônicos avançados e sistemas de defesa. Em qualquer leitura séria do cenário global, trata-se de ativos estratégicos.

Ainda assim, o Brasil permanece à margem da cadeia de valor. E não por falta de capacidade, mas por ausência de decisão. Mais uma vez, o lobby de grandes grupos — nacionais e estrangeiros, frequentemente indistintos em seus interesses — pressiona para manter o país na condição subalterna de exportador de matéria-prima. Exportamos o minério bruto; importamos, a preço elevado, os produtos de alto valor agregado. Um padrão conhecido — e reiterado.

O momento internacional, no entanto, joga a favor de uma inflexão. A concentração da produção em poucos países e as tensões comerciais globais abriram espaço para a diversificação das cadeias de suprimento. O Brasil poderia, se quisesse, afirmar-se como ator soberano nesse mercado, escolhendo parceiros e definindo sua inserção com base em interesse nacional — sem alinhamentos automáticos. Mas, outra vez, hesita. Outra vez, corre o risco de perder o trem da história.

Não se trata de um salto no escuro. O país já esteve nesse caminho. Ao longo do século XX, o Brasil desenvolveu uma indústria estruturada em torno da monazita, produzindo concentrados de terras raras e dominando etapas relevantes do processamento. Houve capacidade instalada, pesquisa, inovação. Produziam-se compostos industriais e avançava-se nas técnicas de separação e purificação — num cenário em que poucos países detinham esse conhecimento.

Esse sistema foi desmontado. Indústrias foram fechadas, equipes dispersas, conhecimento acumulado dissipado. O que se perdeu não foi apenas produção, mas memória tecnológica.

Hoje, a fragilidade do setor não decorre de limitações técnicas, mas de descontinuidade estratégica. O país sabe fazer — mas deixou de fazer. Retomar esse caminho exige mais do que reconhecer o potencial: exige política de Estado, coordenação entre mineração, indústria e meio ambiente, e visão de longo prazo.

A experiência internacional é clara: liderança não nasce do acaso, resulta de planejamento persistente. O Brasil, repito, já demonstrou que pode trilhar esse percurso. O que está em jogo agora é saber se haverá vontade política para reconstruí-lo — ou se, mais uma vez, o país abrirá mão de transformar sua riqueza natural em soberania tecnológica e protagonismo próprio.

Hoje, o país se imola, incapaz de dar um passo à frente, que é a tomada pelo Estado da lavra, pesquisa, refinamento e aproveitamento de terras raras para seu próprio consumo, segundo seus interesses estratégicos, e não simplesmente atendendo às demandas de outros países carentes desse minério. Terras raras não podem ser tratadas como mais uma commodity, como o ferro-gusa que exportamos para a China, para dela depois importarmos lingotes e trilhos.

A tendência presente, lamentavelmente, é a abertura de nossas reservas para a exploração industrial e comercial internacional, muitas vezes predatória.

Omite-se o Estado, avançam as multinacionais. É o caso da norte-americana USA Rare Earth, instrumento de política de Estado daquele país, recentemente reforçada com o acesso a USD 1,6 bilhão. Tudo tem sua causa e seu efeito: há poucos dias, a USA Rare Earth anunciou a compra da mineradora Serra Verde, localizada em Minaçu, Goiás, pela bagatela de USD 2,8 bilhões, com contrato de 15 anos, seguindo instruções da Casa Branca, preocupada em reduzir a dependência da China. Como informa o economista Diógenes Moura Breda (“Terrabras e as ideias verdadeiramente fora de lugar”, Carta Capital, 21/04/2026), a empresa adquirida “opera a mina Pela Ema, único depósito de argilas iônicas de terras raras fora da Ásia capaz de produzir em escala os quatro elementos utilizados para a fabricação de ímãs permanentes (neodímio, praseodímio, disprósio e térbio), aqueles utilizados em veículos elétricos, aerogeradores, equipamentos eletrônicos e de defesa”.

As riquezas do subsolo brasileiro — jazidas e recursos minerais — não constituem mercadoria qualquer: são patrimônio inalienável da Nação, pertencente à União, como consagra o artigo 176 da Constituição Federal. Às empresas mineradoras, inclusive às de capital estrangeiro, não se confere a propriedade dessas riquezas, mas apenas o exercício precário e condicionado de concessões de lavra. Tais concessões, nos termos do Código de Mineração, subordinam-se de forma estrita ao interesse público e aos imperativos da soberania nacional, podendo — e devendo — ser revogadas ou não renovadas sempre que contrariem os interesses superiores do país.

No caso das terras raras, em geral, e da mineradora Serra Verde em particular, está-se diante de ativos de inequívoco caráter estratégico, cujo controle não pode ser relegado às forças do mercado ou a decisões orientadas por interesses alheios ao desenvolvimento nacional. Trata-se de recursos decisivos para a autonomia tecnológica, a segurança econômica e a inserção soberana do Brasil no sistema internacional. Por isso, impõe-se sua submissão rigorosa a instrumentos de controle público, até que se institua um marco legal que as reconheça formalmente como minerais estratégicos e assegure, de modo efetivo, sua gestão sob primazia do interesse nacional.

Entretanto, o cenário que se delineia caminha em sentido inverso. Assiste-se, com crescente apreensão, ao avanço de um processo de alienação de um patrimônio que deveria ser resguardado como reserva constitucional da Nação — um patrimônio cujo potencial para alavancar a superação do subdesenvolvimento brasileiro é não apenas evidente, mas historicamente decisivo.

Não se trata, como sublinha Breda, de atribuir às terras raras o papel de panaceia de um projeto nacional — não o são. Mas tampouco se pode ignorar que sua entrega ao capital estrangeiro, em regime de exploração desregulada, tende a reafirmar, de forma quase inexorável, a posição do Brasil como economia primário-exportadora, subordinada na divisão internacional do trabalho.

*Com a colaboração de Pedro Amaral

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MORRE GIOVANNA KUPFER

Helena Schuster, Folha de S.Paulo

Morre Giovanna Kupfer, fundadora da Giovanna Baby, aos 79 anos

Filha de poloneses, ela nasceu em Roma e se mudou para São Paulo aos 14 anos

Marca foi criada em 1974 após empresária começar a produzir roupas para as filhas

Pelotas (RS) Morreu nesta segunda-feira (27), aos 79 anos, a empresária Jeanette Kupfer, mais conhecida como Giovanna Kupfer. Ela foi a fundadora da marca de cosméticos Giovanna Baby. A informação foi divulgada por uma de suas três filhas, a apresentadora Mariana Kupfer, em publicação nas redes sociais. A causa da morte não foi divulgada.

Filha de poloneses, Giovanna nasceu em Roma e morou nos Estados Unidos —em função do trabalho do pai, que fez parte de uma organização de assistência do pós-Guerra e da ONU (Organização das Nações Unidas)— antes de se mudar para São Paulo, aos 14 anos. No Brasil, ela estudou artes plásticas, área em que trabalhou como professora infantil.

Após o nascimento das duas primeiras filhas, largou as salas de aula e, diante da dificuldade de encontrar roupas do seu gosto para as meninas, passou a produzi-las em casa. Assim surgiu o projeto da Giovanna Baby, que foi fundada em 1974 inicialmente como uma marca de moda para crianças.

Foi ainda sob o comando de Giovanna que a empresa adotou o característico aroma de lavanda que continua nos produtos da marca até hoje.

"Você criou três filhas lindas, perdeu sua mãe aos 13 anos e passou a vida dedicada a criar uma marca e mudar o mundo. Sou muito grata por todos os seus ensinamentos, por tudo que fez pelas filhas. Seguiremos unidas e honraremos seu legado", disse a filha Mariana na publicação das redes sociais.

A marca foi vendida em 1998, após a falência da Giovanna Fábrica, que fazia os produtos da marca, em 1997. A Giovanna Baby seguiu sob nova direção e, com o passar dos anos, deixou a moda infantil e se consolidou no ramo de cosméticos.

A empresa, que hoje pertence à Pro Nova Cosméticos, lamentou a morte da fundadora.

"Giovanna foi responsável por dar origem a uma marca que conquistou espaço no mercado nacional, marcando gerações com sua proposta de cuidado e perfumação acessível. Sua iniciativa e espírito empreendedor permanecem como parte importante da história da empresa [...] Que sua memória siga viva na origem de tudo aquilo que continua a crescer, evoluir e inspirar", diz nota.

Atualmente a Giovanna Baby tem portfólio de mais de 510 produtos e está presente em mais de 20 mil pontos de venda em todo o país (incluindo farmácias, perfumarias e supermercados).

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MORRE SILVANO RAIA

Do g1 SP

Morre Silvano Raia, médico que fez 1º transplante de fígado da América Latina, aos 95 anos

Professor emérito da USP, Raia foi pioneiro na área de transplantes de órgãos e responsável por feitos históricos. Em março deste ano, ele liderou uma iniciativa da USP que resultou na clonagem do primeiro porco do Brasil e da América Latina.

O médico Silvano Raia, um dos maiores nomes da ciência e da medicina no Brasil, morreu aos 95 anos. A morte foi confirmada pela Academia Nacional de Medicina (ANM) nesta terça-feira (28). A causa não foi divulgada.

Professor emérito da Universidade de São Paulo (USP), Raia foi pioneiro na área de transplantes de órgãos e responsável por feitos históricos. Na década de 1980, realizou o primeiro transplante de fígado da América Latina, no Hospital das Clínicas da universidade, consolidando-se como referência mundial.

Foi autor da técnica de transplante de fígado com doador vivo — conhecida como transplante intervivos. O método ampliou significativamente as possibilidades de cirurgias, especialmente em crianças, e passou a ser utilizado em diversos países.

Em nota, a Academia Nacional de Medicina lamentou a morte do médico e destacou sua trajetória marcada por “excelência, inovação e dedicação inabalável ao ensino e à assistência médica”. Raia era membro titular da instituição desde 1991.

Nos últimos anos, o cirurgião se dedicava a pesquisas em xenotransplantes, técnica que utiliza órgãos de animais geneticamente modificados para transplantes em humanos.

Em março deste ano, liderou uma iniciativa da USP que resultou na clonagem do primeiro porco do Brasil e da América Latina, considerada um marco para a ciência nacional.

Reconhecido internacionalmente, Raia também foi membro fundador da Sociedade Latino-Americana de Hepatologia, que presidiu em 1968. No Brasil, presidiu a Sociedade Brasileira de Hepatologia entre 1982 e 1983 e participou de entidades como a Associação Paulista de Medicina e a Associação Médica Brasileira. Entre 1993 e 1995, foi secretário municipal de Saúde de São Paulo.

O presidente da Academia Nacional de Medicina, Antonio Egidio Nardi, afirmou que Raia foi um “líder incontestável da medicina no Brasil” e destacou seu legado. “Mais do que um grande cirurgião, foi um exemplo de compromisso com a ciência, com os pacientes e com o futuro da medicina brasileira”, disse.

O Ministério da Saúde também manifestou pesar e ressaltou a importância do médico para o desenvolvimento do sistema de transplantes no país. Segundo a pasta, Raia teve papel decisivo na estruturação e expansão da rede de transplantes no âmbito do Sistema Único de Saúde (SUS), contribuindo para ampliar o acesso da população a procedimentos de alta complexidade.

O velório acontece nesta terça-feira (28) das 15h às 20h no Teatro da Faculdade de Medicina (FM) da USP.

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O CASO MASTER, FLÁVIO BOLSONARO E O FATOR ZEMA

Carlos Andreazza, O Estado de S. Paulo

Avanço de Zema sobre o STF reforça ‘rabo preso’ de Flávio Bolsonaro ou o ajuda a criar imagem de moderado?

Hipótese do crescimento competitivo de Zema não é a mais provável; tampouco deve ser descartada

Romeu Zema testa-desafia o projeto-fachada de moderação de Flávio Bolsonaro, ou lhe oferece-amplia as condições para que se venda como moderado? Seria jogo combinado, Zema avançando para que Flávio pudesse exibir reforçar a imagem de “Bolsonaro ponderado”? Esse Zema de texto radicalizado, que denuncia-enfrenta ministros do Supremo, forçará-obrigará “o Bolsonaro que não é louco” a se mexer e expor a própria natureza; ou, situando-se à direita do “Bolsonaro que come de garfo e faca”, empurraria-ajudaria Flávio a se mover para o centro?

Não há dúvida de que a coragem do ex-governador de Minas Gerais – o cronista se refere à percepção do eleitor – perturbe, fira mesmo, o sistema de crenças-valores bolsonarista, erguido sobre a propriedade do confronto conflito e constituído sob o monopólio do discurso antissistema; daí por que o bolsonarismo de extração eduardista já se lance contra a ameaça Zema. Flávio Bolsonaro solta – já soltou – os seus cachorros. Quanto a ele próprio: morderá? Poderá não morder? Poderá terceirizar a mordida? Porque não se trata somente de Zema percebido como o que não tem rabo preso nem telhado de vidro. Trata-se, por oposição, de o senador encaixotado como com rabo preso e sob telhado de vidro. Jogo combinado?

É grande a pressão para que morda; para que dê satisfação sanguínea a uma militância forjada na beligerância e incomodada com o candidato – o mitinho, filho do mito – que presta “apoio” e se posiciona a reboque do representante da linha auxiliar Partido Novo. A ver, a propósito, se não estaria Zema afinal trabalhando por subir o preço do que era, até faz pouco, apoio banal e aliança quase automática. A ver também se terá lastro individual para sustentar a persona até as urnas. A carga para que Flávio reaja aumentará – desafiará a manutenção da máscara de paz e amor – caso Zema cresça nas pesquisas e se acerque dos 10%.

Não é a hipótese mais provável – a do crescimento competitivo de Zema. Tampouco deve ser possibilidade descartada. Por uma razão: o caso Master, cuja geração de instabilidade-imprevisibilidade, a mesma que derrubara Lula da condição de reeleito e dera a Flávio Bolsonaro o privilégio de se beneficiar da crise mesmo jogando parado, agora tornou Romeu Zema – também graças ao marqueteiro Gilmar Mendes – o pauteiro do debate público eleitoral, capaz de tirar o bolsonarismo da zona de conforto. Ninguém imaginava.

Ninguém compreendeu e explora a natureza do caso Master como a equipe de Zema. Este é o fator Zema: menos a sua capacidade atual de concorrer à Presidência com chances de vencer; e mais a forma influente como a sua campanha leu e reage materialmente ao mercado de desejos eleitorais. A série de filmetes satíricos sobre “os intocáveis de Brasília” é primor de aplicação concentrada dos sentimentos difusos do brasileiro que decidirá a eleição em 2026. O caso Master desafia jogos combinados e abre a fenda a partir da qual o imponderável – o Zema pauteiro, por exemplo – exercita-se.

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MORRE LUCIANA NOVAES

Do g1 Rio

Morre Luciana Novaes, ex-vereadora do Rio eleita após ser vítima de bala perdida; prefeito decreta luto oficial

Tetraplégica após ser baleada em universidade, ela foi vereadora por 3 mandatos e teve atuação na defesa de pessoas com deficiência e vítimas da violência.

A ex-vereadora do Rio de Janeiro Luciana Novaes (PT) morreu nesta segunda-feira (27). O prefeito Eduardo Cavaliere (PSD) decretou luto oficial de três dias em uma edição extra do Diário Oficial à noite.

Luciana estava internada e, segundo a assessoria, sofreu uma “intercorrência súbita e grave, compatível, segundo informações médicas, com rompimento de aneurisma cerebral”, com “piora crítica de seu quadro neurológico”.

Na sequência, entrou no protocolo de morte cerebral, um conjunto de exames que confirmam a parada total e irreversível das funções do cérebro, condição em que o paciente é considerado morto por lei.

Luciana era assistente social e tinha 42 anos. Ela ficou tetraplégica após ser atingida por uma bala perdida em 2003, no campus da Universidade Estácio de Sá, no Rio Comprido, Zona Norte do Rio de Janeiro.

Depois do incidente, Luciana se formou em Serviço Social e se pós-graduou em Gestão Governamental. Ela se elegeu vereadora pelo PT por 3 mandatos, o primeiro em 2016, tornando-se a primeira pessoa tetraplégica a ocupar uma cadeira na Câmara Municipal carioca. Em 2023, ela retornou à Câmara Municipal como suplente.

As pautas de Luciana Novaes eram fortemente orientadas pela sua vivência pessoal como mulher com deficiência e vítima de violência urbana. Ela foi presidente da Comissão dos Direitos da Pessoa com Deficiência na Câmara e autora da Lei 8.781/2025, que institui a Política Municipal de Rotas Acessíveis do Rio, pela locomoção a pessoas com deficiência, mobilidade reduzida e idosos.

Também foi autora de projetos que garantiram vagas prioritárias em escolas próximas para alunos com deficiência e processos avaliativos que respeitam as necessidades de estudantes com deficiência intelectual.

Luciana defendia ainda os direitos dos idosos, inclusão de pessoas em situação de rua, transparência e combate à corrupção e superação da pobreza e desigualdade.

Repercussão

A Câmara Municipal divulgou uma nota lamentando a morte da ex-vereadora.

“O presidente da Câmara Municipal do Rio de Janeiro, Carlo Caiado (PSD), manifesta profundo pesar pelo falecimento da parlamentar, uma mulher que transformou a própria dor em propósito e fez da sua trajetória um exemplo permanente de luta, coragem e amor ao próximo”, diz o texto.

“Luciana foi mais do que uma parlamentar atuante. Foi símbolo de perseverança e superação. Mesmo diante de uma das maiores adversidades que alguém pode enfrentar, encontrou forças para reconstruir sua vida e se dedicar ao serviço público com dignidade, sensibilidade e compromisso com quem mais precisa”, prosseguiu.

“Ao longo de sua atuação, deixou um legado consistente de quase 200 leis, sempre voltadas para a inclusão, a defesa das pessoas com deficiência, dos idosos e da população em situação de vulnerabilidade. Sua voz firme e sua escuta generosa fizeram diferença na vida de milhares de cariocas, olhando não apenas para a cidade, mas para cada indivíduo que precisava ser visto, acolhido e respeitado.”

“Sua história, marcada por fé, resiliência e propósito, seguirá inspirando gerações. Luciana mostrou, na prática, que limites não definem destinos quando há vontade de transformar o mundo ao redor”, emendou.

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A UNIVERSIDADE SÓ MUDA QUANDO O CUSTO DE NÃO MUDAR SE TORNA INSUSTENTÁVEL


João Pereira Coutinho*, Folha de S. Paulo

Universidade Yale fez diagnóstico sombrio sobre o estado da instituição.

Não é de admirar que 70% afirmem que a universidade está "no caminho errado".

Houve um tempo em que o mundo olhava com admiração para a universidade. Esse mundo está desaparecendo.

Um relatório recente da Universidade Yale faz um diagnóstico sombrio sobre o estado da instituição. As conclusões do estudo podem ser aplicadas, sem esforço, a outros países que enfrentam problemas semelhantes.

Basicamente, há uma queda de confiança dos americanos no ensino superior. Em 2014, 57% confiavam no sistema; em 2024, o número desceu para 36% —um mínimo histórico. Não é de admirar que 70% afirmem que a universidade está "no caminho errado".

Três razões explicam esses números: custo, admissões e conformidade ideológica. A inflação das notas também contribui para o desânimo: classificações máximas para talentos mínimos são uma praga que corrói qualquer pretensão de seriedade intelectual. Mas não vamos nos perder nisso.

Imaginemos, antes, um pai de família que sonha em dar ao filho uma educação de excelência. Confrontado com a realidade, pergunta-se: vale a pena pagar mensalidades altíssimas quando o retorno, em certas áreas científicas, nem sequer está garantido?

Vale a pena confiar num processo de admissão opaco e injusto, que muitas vezes favorece os mais ricos ou os filhos de ex-alunos influentes?

E quem, em sã consciência, enviaria o filho para centros de doutrinação agressiva onde o ressentimento antiocidental ocupa o lugar do conhecimento? Pior: ambientes em que a liberdade de expressão pode ser uma sentença de morte acadêmica?

O relatório, em tom nostálgico, cita o historiador C. Vann Woodward, professor da casa, que defendia: a universidade existe para garantir "o direito de pensar o impensável, discutir o indizível e desafiar o indiscutível". Risadas?

Hoje, o aluno médio de Yale e de outras instituições espalhadas pelo Ocidente olha para essas palavras como um "convite para uma decapitação" —obrigado, Nabokov. No caso, a sua.

Em Yale, quase um terço dos estudantes não se sente livre para expressar as suas opiniões —o dobro de há uma década. O desconforto é ainda maior entre os estudantes mais conservadores.

É compreensível: nos Estados Unidos, professores que se identificam como democratas superam os republicanos numa proporção de cerca de 10 para 1. Em Yale, pode chegar a 30 para 1.

Diante de um diagnóstico tão severo, os autores propõem, sem surpresa, uma reversão das más práticas: defender a liberdade de pensamento, promover o pluralismo interno, tornar o sistema de admissões mais transparente, e assim por diante. A ideia é esperar que a mudança venha de dentro, antes que seja tarde demais.

É uma ideia interessante, porém romântica: a universidade raramente muda por vontade própria. A história ensina o contrário: ela só muda quando o custo de não mudar se torna insustentável.

Na Idade Média, a universidade era um prolongamento da igreja, servindo um mundo em que a visão religiosa era dominante. Quando esse mundo passou a exigir juristas ou administradores para a edificação do Estado moderno, a velha escolástica cedeu espaço a estudos mais pragmáticos do direito.

As grandes navegações ibéricas revalorizaram a matemática e a física —antecâmara da revolução científica dos séculos 17 e 18. A universidade, relutantemente, adaptou-se.

E continuou se adaptando com o Iluminismo, o modelo humboldtiano —que privilegia a produção, não apenas a transmissão, de conhecimento— até chegarmos à rivalidade da Guerra Fria, motor de avanços científicos e tecnológicos do século 20.

Posso não ter simpatias marxistas, mas há momentos em que a "estrutura", de fato, condiciona a "superestrutura". Não foi o amor à verdade que agitou a rigidez dogmática das universidades. Foi o mundo ao redor. Esse mundo continua falando —e hoje tem dúvidas sobre o custo, a transparência e o papel da universidade.

Quando essas dúvidas se traduzirem em perda real de alunos, redução de financiamento, desvalorização dos diplomas e concorrência de novos modelos de formação, a universidade será novamente obrigada a se repensar.

Mais uma vez, não será por amor ao debate livre que os docentes mais fanáticos mudarão de atitude. Será quando os próprios salários estiverem em risco. Nada promove mais a tolerância do que a intolerância da conta bancária.

Os problemas que o relatório de Yale identifica são, ironicamente, possibilidades de salvação. As universidades não sobrevivem apenas pelas suas virtudes, mas também pelos seus vícios. Quando estes se tornam caros demais para ignorar, entra em cena a velha lei darwinista: adaptação —ou extinção.

*Escritor, doutor em ciência política pela Universidade Católica Portuguesa

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